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Gênero:Suspense, Crime, Policial, Crueldade.
Contém:Violência e linguagem imprópria.

Versão em pdf: Kill the Game Character

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KilltheGameCharacter.com

Parte 1 – O jogo

Giane Puccini chegou cansada da faculdade, cansada demais para qualquer coisa, exceto para entrar na internet.
Ela estava ansiosa, fazia dois dias que tinha conhecido o site killgamecharacter.com, site interessante, através dele tinha criado uma mulher igual a irritante chefe Solange, e tinha criado a cena de morte da mesma. Pessoa difícil era a Solange, autoritária e arrogante, tornava o dia dos funcionários um tormento. – E agora vou matá-la... – Comentou para si mesma, sorrindo.
Depois de digitar o usuário e a senha no site, apareceu a imagem de uma incômoda caveira, com informação de status carregando.
"Aguarde, seu personagem morrerá em instantes". – Dizia a legenda.
E então, quando atingiu o 100%, o vídeo carregou.
Toda a ansiedade de Giane foi substituída por um frio na espinha quando viu a mulher no vídeo, não era igual a chefe Solange, mas de alguma forma, a lembrava.
O vídeo estava meio embaçado e tremido, talvez para simular o mesmo efeito dos filmes quando querem realismo. O ambiente parecia um cômodo pouco iluminado, não tinha móveis e objetos, exibia somente uma mulher vestida de marrom, e amarrada a uma cadeira, a cabeça estava erguida, puxada pelos cabelos presos em uma barra de ferro.
Ela chorava e implorava, e então...
- PUTA QUE PARIU! – Gritou Giane horrorizada.
No meio das súplicas, uma lâmina passou rápido decepando a cabeça da mulher. O corpo tremeu e ficou imóvel, enquanto a cabeça presa pelos cabelos balançava sinistramente ao som do sangue jorrando, tingindo todo o torso de vermelho escuro.
- Puta que pa... – Giane colocou a mão na boca, chocada pelo realismo da cena. A tela escureceu e a caveira, tornou surgir e dessa vez trazia uma mensagem embaixo:
"Parabéns! Você matou seu personagem. Deseja executar outro?"
"Real..." "Real demais essa merda!" – Pensou, sentindo o corpo gelar e tremer. Ela esperava uma animação mal feita ou algo do tipo, mas aquilo era uma produção com atuação incrível, chegou a acreditar que realmente aconteceu... – "Muito convincente a atriz."
Ela que tinha ficado em pé, e empurrado a cadeira devido ao susto no momento fatal do vídeo, voltou a sentar e resolveu compartilhar a novidade com os amigos.

Em uma guarita abandonada.

Um dia depois, às 10h06min o policial e investigador Oliveira olhava aterrorizado para um corpo mutilado, preso a uma cadeira. O mais terrível, era aquela cabeça presa pelos cabelos que balançava ao menor tremor do local.
- Que diabos... Aconteceu aqui? - Perguntou o policial Jorge, em um tom mais de indignação do que pergunta.
Oliveira balançou a cabeça sinalizando que estava desorientado.
- Vemos muitas coisas, mas algumas mexem com nossa razão. Que tipo faria isto? E com qual propósito?
O corpo sem cabeça de uma mulher, vestida com um terno marrom encharcado de sangue, somada a cabeça pendurada, povoaria sonhos ruins para qualquer lúcido que tivesse o azar de presenciar a cena.
- Senhor Oliveira? - disse um policial chegando à sala. - Ninguém por aqui viu ou ouviu alguma coisa.
- Estranho, recebemos uma denúncia anônima logo cedo. Se não fosse por isso... - Disse Jorge olhando para as anotações.
- Se não fosse por isso o que? - Interrogou Oliveira.
Jorge olhou para o corpo e disse:
- É como se o próprio assassino tivesse denunciado...

Por: Fernando do Amaral - 29/05/2014

Parte 2 – Medo de arame?

“Quinta volta.” – Pensou André enquanto olhava para o relógio de pulso.
Faltava pouco para ás 20h00min, o plano era correr mais duas voltas no quarteirão.
Ele era um corredor empenhado depois do trabalho, enquanto corria, observava algumas pessoas transitando na proximidade, o lugar era ótimo por ter poucas pessoas, tinha até uma rua deserta no fundo de uma fábrica.
Ele diminui o avanço para poder trocar a música do celular, e atento na lista de música, não percebeu um Voyage aproximar furtivamente.
Ao mesmo tempo em que André notou algo perto, sentiu uma forte pancada na cabeça, tentou segurar um apoio invisível no ar, pronunciando uma exclamação de dor, as pernas cederam e o corpo foi de encontro à calçada.

...

Ele acordou com sede, dor de cabeça e desorientando. Ao mexer o corpo, viu que estava com as pernas e braços amarrados.
A terrível sensação de insegurança, fez o coração bater com dor no peito.
- SOCORRO! SOCORRO! SOCORRO!
O grito, o tranquilizou um pouco, de certa forma parecia pior se estivesse amordaçado, e como pode ouvir o grito espalhar no ar, percebeu que não estava trancado.
Sentiu o chão da calçada, provavelmente estava no mesmo lugar, em que foi inexplicavelmente atacado.
- SOCORRO! ALGUÉM POR FAVOR...
Não ouviu resposta alguma, mas ouviu o barulho de carros passando pouco distante.
Forçou os olhos no escuro para se localizar e então ouviu alguém assobiando alguma música – “Que raio de música é essa mesmo?” – Pensou enquanto virava o pescoço na direção dos passos e da música.
- Ei! Ajude-me, por favor. Acho que fui roubado e me deixaram amarrado.– Falou com voz chorosa.
Nenhuma resposta, era como se ele não existisse ou a outra pessoa surda.
- EI... ? PODE ME OUVIR? PRECISO DE AJUDA...
Nada, nenhuma manifestação esperada, só o som dos passos na calçada e a irritante música assobiada.
“Porra, eu sei essa música, mas não lembro...” – Pensou.
- Dane-se a música. – Murmurou tentando levantar se de qualquer jeito, sem sucesso.
- CARA, NÃO VÁ EMBORA, ME AJUDE!

André pensou que a pessoa notou o que estava acontecendo, porque parou de caminhar, mas estranhamente não disse nada, cessou o assobio. E outro som fez com que André ficasse em alerta. Era o som de um molho de chaves e o porta-malas abrindo.
- Que porcaria está acontecendo? – perguntou com medo na voz.
Ele tinha conseguido ficar sentado e como seus olhos tinham se acostumado com o escuro, observava a estranha figura atrás de um carro. – “Um Voyage?” – Mas, identificar o carro ficou para trás quando ele viu uma pequena luz vermelha piscando a alguns metros no ar.
- Mas o que...? – Ele forçou mais os olhos e viu que a luz não estava no ar, e sim sustentada por um tripé. Era uma câmera. – “Uma maldita câmera!”.
- O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? VAI PEDIR RESGATE? EU NÃO SOU RICO FILHO DA PUTA!
Nenhuma manifestação do outro.
- ESTOU FALANDO COM VOCÊ MALDITO. ME SOLTA!
Nada.
Ficar amarrado, a câmera, a pancada, dor de cabeça, escuro e o evidente desprezo por parte da pessoa culpada por tudo isso, tinha deixado André furioso.
- DESGRAÇADO!
Ele começou a tentar livrar se das amarras, o homem então olhou para ele, parou de mexer no porta-malas e caminhou em direção a ele.
- Vou te matar cara, certo que vou. – Falou lutando ferozmente contra a corda que só apertava mais.
O homem foi atrás de André e puxou com força a sobra da corda. Foi então que ele percebeu que a corda passava estrategicamente por baixo das axilas e estava bem amarrado, era impossível soltar. Ele foi arrastado enquanto proferia diversos palavrões. O homem parou em um poste, passou a corda por um suporte com polia, de aproximadamente dois metros e puxou com violência.
André sentiu o corpo todo levantar e as costas ralarem contra o poste. Os braços, ombro e costas sentiram o impacto e ele gritou de dor.
Ficou pendurado. As costas apoiadas no poste, os pés mal tocavam o chão.
- O que está fazendo cara? Pare com isso por amor a deus... – As palavras saíram como um misto de súplica dor e raiva.
O homem estendeu os braços em cima da cabeça de André e ligou uma luz improvisada, pois o poste não tinha iluminação.
André fechou os olhos, incomodado pela claridade. Quando voltou abrir, viu pela primeira vez o homem, ou que poderia ser um “homem normal”.
Apresentava mais ou menos 1,90 de altura, estrutura forte. Estava vestindo uma blusa escura, possivelmente calça jeans e bota militar. Mas o que chamava atenção era a incomum máscara de ferro. Rústica, exibia duas lentes redondas e escuras nos olhos, pequenos orifícios para respirar e uma grotesca grade para a boca. “Que merda...” – Pensou.
- Maldito sádico filho da puta! – Disse André encarando o homem sem expressão. – Que porra é você?
O estranho virou as costas e voltou para o carro assobiando.
“Deus, sei que conheço essa droga de música. Mas isso não importa, será que ninguém esta vendo um louco fantasiado, e amarrando uma pessoa em um poste?” – Pensou.
- SOCORRO, SOCORRO! ALGUÉM, SOCORRO! – Voltou a gritar.
Mas o grito sumia no escuro da noite e retornava o ronco de caminhões, motos e carros da proximidade.
- UM DEMENTE AQUI, SOCORRO!
Enquanto isso, o homem fantasiado ajeitava a câmera de frente para André.
- O que vai fazer? Por que está fazendo isso? Me solta!
O outro limitava a continuar a tarefa e assobiar a música, que apesar da circunstância, ele tentava identificar.
- Filho da puta!
O homem caminhou até o carro, pegou uma coisa brilhante e voltou em direção ao poste.
Toda a fúria e confusão de André deram lugar ao sentimento de pânico, quando identificou a coisa brilhante, era um rolo de arame farpado. Quando menino ficou preso em um cercado desse tipo de arame, desde então, tinha tanto cicatriz quanto trauma.
“ Você tem medo de arame?” – Dizia toda vez de forma sarcástica o primo, que estava na ocasião em que ficou preso.
- O que vai fazer com isso? – Tremor na voz.
O irritante assobiou da música, somado ao barulho do rolo de arame caindo no chão, o fez querer urinar ali mesmo.
O homem cortou alguns metros do arame, e então, para o pavor de André, ele esticou o arame, deu a volta no poste, fazendo assim um laço, unindo o corpo e o poste.
Ele gritava com as farpas do arame furando a roupa e a pele. Um dos arames estava fincado no meio do rosto entre o nariz e os olhos, o outro estava torturando a carne do pescoço, enquanto que a maioria amarrava o corpo todo, até os joelhos.
- Por favor... Pare! – Era mais lamentação do que uma ordem.
Ouvia apenas o assobio da música e o ininterrupto trabalho do homem, que agora estava atrás do poste, prendendo todos os nós do arame em uma trava, puxada por um cabo de aço.
- O que vai fazer? Não faça... – Estava chorando, e sentia as lágrimas na boca misturadas com o sangue, que escorria livremente.
Ele, o homem fantasiado ficou na frente de André o encarando, permaneceu por alguns segundos em silêncio enquanto ouvia as súplicas de dor.
- Solte-me, eu pago... Sei lá! O que você quer? – Disse afinal.
Ele levantou a cabeça lentamente, as lentes da máscara refletiam o desolado rosto da vítima. E então cantou: “... I can't change my mould, no, no, no, no, no...”.
Depois caminhou até a câmera, apertou o play. Caminhou até o carro e o ligou.
“Vai me deixar aqui pra morrer” – Pensou. – “Louco desgraçado, que merda foi essa?”
O Voyage deu marcha ré e estacionou atrás do poste, André ouviu a porta abrir e depois o som do cabo com a trava amarrando em alguma coisa. Naquele momento, ele soube o que o fantasiado pretendia e deixou escapar um choro de agonia, qualquer esperança de escapar com vida esvaiu como uma poeira na tempestade.
- Eu vou morrer... Oh Deus! Eu não quero morrer...
Quando a porta do carro bateu, ele contraiu toda a força restante para se preparar ao que sentiria a seguir. O carro andou um pouco para frente e o arame afundou no corpo, fazendo sentir as farpas rasgarem os músculos.
- Maldito filho da puta... – Grunhiu com dor.
E antes que pudesse sentir o arame aperta e quebrar a traqueia, antes de sufocar, ele lembrou: – “Bittersweet... Bitter Sweet Symphony era a música assobiada”.
Então, ouvindo o próprio som da garganta dividindo, perdeu a consciência para sempre.

Por: Fernando do Amaral - 06/06/2014

Parte 3 – Regras do jogo

Naquela noite, os contatos selecionados, ficaram por um longo tempo com a tela congelada, clareando o rosto indeciso de Giane.
“É de muito mau gosto essa porra!” – Ela pensou – ”O que vão pensar de mim compartilhando essa bizarrice?”
Ela resolveu pesquisar sobre o site, e não achou nenhum comentário, ninguém estava falando sobre killgamecharacter.com, e era por isso que agora, ela estava conversando com o Aquiles da biblioteca.
- Quem te indicou o site sinistro? – Ela perguntou quase sussurrando para não incomodar os alunos em leitura.
- Pode falar mais alto Gi. Aqui é área reservada para grupos de trabalho. – Ele falou subindo os óculos com o dedo anular. – Você fez? Criou algum personagem?
- Assassinou você quer dizer. – Disse ela olhando para os lados.
- Ora, sabemos que é somente ficção meu bem.
- Mas é tão... Tão real e doentio. Eu me arrependi.
- O seu é o da mulher, certo? Você viu o meu personagem morrer?
- Não quero. – Respondeu seca. – Pensei que era algum jogo, mas não tem nada de interativo... E nenhum sentido, qual a graça de ver um personagem morrer por morrer?
- A graça é essa. – Ele disse jogando o cabelo para trás. – Você cria um personagem e depois assiste ele morrer da forma que você quer. É uma boa sacada, e a filmagem... Puta realismo.
- Me assustou...
- Sabe, acho que eu fui o primeiro a acessar o site. – Confessou Aquiles.
- Por quê?
- Nossos personagens ficam disponíveis para todos os usuários com conta. E o meu foi o primeiro a aparecer.
- Então eu sou a segunda pessoa... – Disse receosa.
- É, mas agora deve haver mais. Vou conferir hoje à noite.
- Será que é um site em fase de teste? E afinal, QUEM FOI que te indicou?
Aquiles apontou com os olhos, uma aluna entretida com um livro de Peter Drucker. Ela estava de vestido justo azul, tinha a cor de pele clara, cabelo castanho e estava usando coque.
- Uau! Bonita a mulher europeia, mas venhamos e convenhamos, o site não tem nada a ver com a senhorita formosura. Como é o nome dela?
- Alicia alguma coisa... Ela indicou o site, mas não indicou, entende?
Giane franziu a testa exigindo explicação.
- Então. Quando ela veio devolver um livro, tive que conferir se o mesmo estava em ordem, e ao folhear as páginas tinha um marcador que imediatamente entreguei a ela. Mas ela recusou dizendo que não a pertencia. Deixei o marcador fora do livro enquanto dava baixa no livro dela, e somente depois prestei atenção no marcador.
- E como era?
Ele procurou a foto no celular e mostrou. Era um marcador inteiramente preto e tinha apenas o nome do site em vermelho e uma imagem de QR-Code em branco.
- Foi daí que acessei, gostei e te indiquei.
- Que troço estranho. Mas o marcador de livro é bonito... Indicou para mais alguém?
- Sim, para você e mais alguns amigos que gostam dessas coisas meio Tarantiana.
- Violência é uma das coisas mais divertidas de se assistir. – Ela disse zombando e logo completou. – Mas não para mim Aquiles.
- Alguém aqui não perdeu tempo. – Falou ele brincando.
- Curiosidade... Esse negócio é muito sinistro. Você leu as regras?
- Li... Tive que ler, tenho um amigo reclamando que a morte do personagem dele estava demorando. Daí eu li nas regras que dependendo da morte, demora a produzir. Coisa de roteiro e produção eu acho. – Aquiles consultou o relógio. – Tem algumas que nem aceita. Eu inventei uma em que o personagem morre no Cristo Redentor, e não aceitou.
- É mesmo? Pois veja, leia melhor. – Giane abriu o caderno e mostrou uma lista. – Eu li e anotei as regras, acredite, são estranhas.
1 - O personagem deve ter aspectos e aparência reais.
2 - A morte deve ser possível.
3 - Não pode determinar o local da morte.
4 - Você pode escolher a roupa do personagem.
5 - Você pode escolher o objeto de morte.
6 - O objeto deve ser real.
7 - Pode matar um personagem por vez. E deve esperar o tempo necessário.
8 - Você mata apenas o personagem que você cria.
9 - Você pode assistir de outros usuários e comentar.
10 – Se é a primeira vez, não se assuste. Somos um site de entretenimento e nossa equipe trabalha para trazer realismo.
Aquiles leu rapidamente, consultou o relógio novamente e disse:
- Não leve a sério Gi, é como diz no final, é puro entretenimento, sangue falso forever. E eu preciso voltar, já tem gente na fila.
Ele a beijou discretamente no rosto e caminhou com passos largos para o balcão de atendimento da biblioteca da faculdade.
Para Giane não parecia entretenimento. – “Quem se diverte com uma coisa dessas?” – Mas ela tinha criado um personagem e tinha matado. Porém não teria feito se soubesse que o som da voz engasgando com sangue, ficaria ecoando em sua mente.
Quando em casa, acessou novamente o site e resolveu ler todas as informações a respeito. Algo perturbava a razão de Giane desde a cena da mulher decapitada na cadeira.
O nome do site era em inglês, mas inteiramente em português brasileiro. – “Será que Aquiles não viu?” – A página inicial não informava nada. Somente depois de informar o usuário que era possível visualizar os personagens morrendo. Constava agora com quatro personagens. Um era o dela.
“ É um site recente, poucas pessoas conhecem, deve ser por isso que estou estranhando.” “Provavelmente daqui um mês vai viralizar” – Pensou.
Ela clicou no vídeo do homem amarrado em um poste com arame, mas pausou antes que o corpo do homem ficasse igual a um tomate espremido com fios.
- Extremo mau gosto essa merda. Eu é que não vou fazer parte disto. – Falou sozinha, apontando o mouse no botão para abandonar a conta.


Em um terreno baldio.
Alguns curiosos tentavam ver o que estava acontecendo, mas a polícia tinha isolado a área do terreno, e ninguém conseguia chegar perto. Uma repórter tentava tirar informações de um policial.
Oliveira estava absorto olhando para mais uma cena macabra.
Era um homem de joelhos, com uma longa estaca de ferro enterrada no chão e transpassada na região submentoniana. A cabeça estava abaixada apontando para o peito, o sangue tinha escorrido pela boca, nariz e o ferimento da perfuração. Ferimento grande embaixo do queixo, talvez a ponta da estaca tivesse chegado até o cérebro.
A vítima tinha as mãos amarradas em volta da estaca, olhando de longe, parecia alguém rezando.
- Pelo jeito, a vítima foi amarrada a estaca com a ponta próxima ao rosto, e só depois o assassino encaixou o queixo da vítima e empurrou a cabeça para baixo. Como uma picanha no espeto... Bem era medieval – Disse Jorge.
Oliveira lançou um olhar de repulsa para o companheiro, três dias atrás tinham acompanhado um corpo picotado e misturado com arame, e isto quando os outros dois crimes brutais ainda não estavam solucionados.
Na delegacia, as fotos das três vítimas estavam pregadas como desaparecidas. Oliveira era a favor de avisar os familiares da vítima, mas o delegado não autorizou, pois tratavam de assassinatos brutais não solucionados, que atrapalhariam a imagem na cidade.
- Ninguém viu não é? Nenhum curioso, sem reportagem no jornal local. Então para que deveríamos estampar um crime desses para qual nem resposta temos ainda? – Disse o delegado encarando Oliveira.
- Mas senhor, os familiares...
O delegado fez um movimento com a mão interrompendo Oliveira.
- Por enquanto, a vítima será uma desaparecida. Alguém virá aqui fazer boletim de ocorrência e é isso que faremos. Pega menos mal para nós, ter uma desaparecida na nossa lista, do que um corpo de uma jovem sem cabeça.
- Política senhor? – Pergunto Oliveira com receio da resposta.
O delegado lançou um olhar reprovador por cima dos óculos de aro prateado e disse:
- Não seja um idealista ignorante. Não sabe o quanto uma cidade pode perder com má fama.
O diálogo tinha acontecido na ocasião da mulher decapitada, e do corpo de um adolescente esmagado em um gramado, depois um homem em pedaços, embromado com arame no poste, e agora outro homem vestido inteiramente de branco com uma estaca transpassada na mandíbula. Em duas semanas, e são quatro crimes sem explicação.
Mesmo assim, com os três mortos e logo mais um no mural, o delegado não quis divulgação do caso.
“Entendo que ele não quer sujar a imagem da cidade, principalmente quando será um candidato a prefeito, mas estamos passando do limite, ao esconder os mortos dos parentes.” – Pensou Oliveira.
- Estamos lidando com um psicopata? – pergunto Jorge interrompendo o pensamento de Oliveira.
- Não sei. Parece, mas não sei. Psicopatas têm padrões. Você identificou algum padrão?
- Fora a escrota brutalidade, não.
Oliveira o encarou:
- Não seja jocoso, isso é sério. Até agora tivemos quatro crimes, as vítimas não tem relação ou características semelhantes. Os corpos sempre são encontrados após uma denúncia anônima, os locais do crime são desertos e isolados, normalmente as vítimas estão amarradas, a área do crime mostra atividades como pegadas, marca de pneu, e outras coisas... Mas não dá para concluir que todos os crimes foram ocasionados pelo mesmo criminoso.
- A vítima do gramado... Tinham três furos no gramado, sugere que sejam marcas de um tripé. Mas as vítimas da guarita e do poste morreram em um solo sem a necessidade de fixar o tripé. – Disse Jorge. – Se tivéssemos a certeza do uso de um tripé nas cenas dos outros crimes, então seria o mesmo homem.
Oliveira esfregou o pé direito no chão, observando o solo.
- Aqui é um solo arenoso, se alguém usou um tripé, pode ter deixado marcas, procure enquanto eu tento descobrir um pouco da vítima.
Sem encostar-se à vítima, Oliveira chegou mais perto para observar e ver se Jorge tinha razão sobre a estaca. Ele estava tentando ver se a estaca tinha perfurado o céu da boca, quando levantou assustado olhando para Jorge.
- ESTÁ VIVO! CHAME A EMERGÊNCIA MÉDICA, ELE ESTÁ MORRENDO!
De fato, o homem ali pregado a uma estaca respirava lento e quase inaudível, tentando sobreviver à dor e hemorragia.

Enquanto a equipe de bombeiros tirava a vítima da medonha estaca de ferro, o delegado vociferava através do rádio para Oliveira e Jorge.
- Avisem todos, temos um padrão. O assassino age à noite em áreas isoladas. Eu quero tocaia em cada ponto desta cidade que couber nesta descrição.
- Todos os pontos? Temos homens para tanto? – Questionou Oliveira olhando para Jorge.
- Descubram isso, e se não der usaremos todo o departamento. Chamem quem estiver de folga, fora de escala, sei lá. Temos que pegar o filho da puta sem alarmar a população. Não quero pânico, não agora.
Jorge estendeu o mapa da cidade sobre o capô do carro e com a caneta começou a desenhar círculos nos possíveis locais que poderiam ocorrer crimes.
- Temos uma repórter na área senhor. Que faremos? – Perguntou Oliveira.
- Fale com ela invente alguma coisa, descubra qual jornal ela trabalha e me fale depois. E não dê nenhuma informação para essa gente. – O delegado fez uma pausa para pigarrear. – Você está totalmente encarregado deste caso, use tudo o que temos para resolver, apenas me mantenha informado.
O delegado desligou o rádio, Jorge riu ao dizer:
- Está nervoso o homem!
- Ele tem os interesses político dele, e eu só a vontade de dar um tiro no assassino.
- Não vai ser fácil. – Jorge apontou os pontos no mapa. – Galpões abandonados, terrenos desertos, vielas de pouco acesso, campo de futebol, viaduto, sobrados, tem até um aterro aqui.
- Para cobrir tudo isso, o melhor são dois homens em cada ponto, faça o cálculo e veja quantos serão necessários.
- Tem lugares duvidosos também, pode ser uma perda de recurso vigiar esses lugares. – Disse Jorge apontando para um parque.
- Não importa, você ouviu o homem. Usaremos tudo e todos.
A ambulância arrancou do lugar, fazendo o mapa voar com o vento, Oliveira observou os curiosos dispersando enquanto a ambulância ganhava a estrada.
- Monte a patrulha necessária, repasse nossas ordens, vou até o hospital. Pode ser que a vítima recobre a consciência e de tempo de montar um perfil do monstro, antes que ataque novamente. – Disse Oliveira pegando o mapa do chão.

...

- Você filmou tudo? – Perguntou Renata segurando o microfone.
- Mais ou menos, daqui não deu um bom ângulo. – Respondeu o Cameraman.
Renata encarou com raiva um dos policiais que impediam qualquer um adentrar para o terreno.
- Não podem fazer isso! Nós temos o dever de noticiar. As pessoas tem o direito de saber o que está acontecendo.
Antes que o policial pudesse responder, ele ouviu a voz do investigador Oliveira.
- Você quer uma reportagem senhorita? Está liberada, me acompanhe até a cena do incidente.
- Mas agora a ambulância já foi! – Ela protestou.
Oliveira fez sinal para o policial deixar a jornalista passar.
- Exatamente por isso que ninguém poderia aproximar, atrapalhariam o trabalho de resgate da vítima e também contaminariam o local de investigação. Mas me acompanhe senhorita... – Ele leu o nome no crachá. – Senhorita Renata, que vou relatar o ocorrido.

...

Ele acordou com fome, faltava pouco para as 21h00min. Ligou a televisão e foi preparar um lanche. Quando voltou ao quarto, estava passando na televisão o final de uma programação local, algo relacionado à cultura. Ligou o computador, e entre mordidas no lanche e olhadela na televisão, esperava o computador carregar.
Acessou o site, e seus olhos brilharam quando viu a lista de espera.
“Vinte e cinco pedidos, isso vai dar trabalho... ”
Ele colocou os pedidos em espera e depois fez upload do vídeo. Enquanto esperava o arquivo de vídeo concluir, olhou para a televisão que agora começava o programa de notícia.
Quando o mostrador informou 95% enviado, uma bonita repórter apareceu na tv:
- Hoje, por volta das 10 horas uma briga quase acabou em morte. Um homem procurado atingiu o outro homem com uma barra de ferro. A briga aconteceu aqui no terreno baldio, apesar do sério ferimento na maxilar, o homem atacado foi socorrido e está se recuperando. O agressor está foragido, mas a policia já tem pistas e espera efetuar a prisão em breve. Os moradores aqui da vila...
Ele desligou a televisão e ficou pensando.
“Vivo”? “Como pode?” “Será mentira, assim como todo o resto da notícia?”.
Mas ele viu na reportagem a ambulância no local, aquilo não poderia ser armação.
Ele pegou a máscara de ferro e ficou a encarando, pensando nos detalhes. Os lugares da filmagem tinham que ser remotos e noturnos, e a policia deveria ser a primeira, a saber, do ocorrido. Assim evitaria que a mídia barulhenta estragasse tudo, afinal ele sabia que não era do interesse do delegado candidato a prefeito preocupar-se com assassinatos. Não em época de eleição.
Ele ficou olhando por um tempo a mensagem que dizia, o carregamento do vídeo foi bem sucedido.
“Os usuários da outra cidade não podem relacionar os crimes com o site, mas a noticia é mais mentirosa que verdadeira, então será impossível alguém relacionar, vou correr o risco e deixar o vídeo público.”
Ele terminou o lanche.
“Vivo?” “Será que o maldito está vivo mesmo?”

Por: Fernando do Amaral - 12/06/2014

Parte 4 – Anjos nunca descansam.

- Ei cara! Cara? – Chamou o cobrador.
O motorista estava descendo do ônibus, olhou para o passageiro enterrado na poltrona enquanto o cobrador tentava acordar o homem.
- Melhor sacudir o dorminhoco, deve ter bebido.
O homem estava em um sono profundo, abraçado a uma urna prateada. Entre as pernas segurava uma mala e no banco ao lado tinha um cantil de aço.
O cobrador colocou as mãos no ombro do passageiro e o balançou. O passageiro abriu os olhos e encarou o cobrador.
- É terminal. – Disse o cobrador, tentando não rir do semblante sonolento do homem.
Quando Emílio saiu do ônibus, respirou fundo contemplando o preguiçoso sol da tarde. A viagem de 450 km tinha cansado um pouco, sentia que as nádegas estavam quadradas por manter a mesma posição.
Ele preferia ter dirigido, mas não estava se sentido muito bem nos últimos dias. Olhou para a urna prateada e sussurrou:
- E cá estamos... O instante é o arremedo de uma coisa perdida.
Emílio caminhou a pé até a casa da dona Glória, ela ia gostar da visita surpresa do filho.

...

Ele estacionou o carro próximo a uma favela, jogou a chave no banco e fechou a porta. Admirou a imagem refletida no vidro, depois pegou o martelo na mochila e quebrou o vidro do carro.
Não poderia mais cometer erros, se a última vítima estivesse viva, na certa descreveria um Voyage. Teria que arrumar outro carro. Mas não hoje, por sorte do destino, a próxima vítima tinha um carro.
Ele pegou uma lotação na outra rua, acomodou-se no banco admirando novamente o reflexo no vidro, estava se sentindo bonito.
Uma mulher carregando uma criança e transportando uma bolsa entrou na lotação, como não tinha nenhum banco disponível ele foi solicito.
- Aqui moça, fique a vontade. – Disse ele estendendo a mão para pegar a bolsa e indicando o banco vazio.
- Obrigada. – Ela disse sem sorrir.
Ele ficou em pé, olhando nos olhos da criança. “Crianças adoram encarar” – Pensou.
- Que lindinha... Qual o nome dela?
- Isabelle. – Disse a mulher pouco à vontade.
- Quantos anos?
- Hoje ela faz três.
- Que legal! – Ele pegou nas mãos da criança. – Parabéns princesa, muita felicidade te acompanhe.
- Obrigada. – Disse a mãe da criança. – Agradeça o moço Isabelle...
Uma senhora que estava no banco ao lado, sorriu para a criança, desejou felicidades e imediatamente puxou assunto com a mãe.
Enquanto as duas conversavam, ele ficou brincando com a criança.
“Preciso adicionar uma regra.” ”Não sei se teria coragem de jogar com uma criança.” “Será que alguma mente perversa, criaria um personagem infantil?” “E eu teria coragem?” – Pensava sorrindo para a criança.
Ele desceu cinco pontos depois, em frente a uma igreja. Caminhou até a entrada e antes de entrar, fez o sinal da cruz. Tinha um sorriso debochado no rosto.
“Que seja feita a vontade deles.”
Ele entrou na igreja olhando todos os cantos, procurando o senhor Zacarias. Um aposentado devoto e que ainda trabalhava na própria oficina.
- Da última vez que o senhor colocou a mão no meu possante, ele ficou fumando. – Disse atrás de Zacarias, que virou imediatamente para trás.
Zacarias o conheceu e disse brincando:
- Faço manutenção, mas na me responsabilizo por óleo vagabundo.
Ambos riram.
- O que faz aqui jovem? Daqui a pouco vai começar...
- Eu sei. Hoje vim participar, estou precisando de fé.
- Que bom filho. Na sua idade eu só pensava em brotos.
Ele falou baixo perto do ouvido de Zacarias em tom malicioso:
- As últimas atividades na sua oficina; sugerem que continua só pensando nas raparigas.
Zacarias devolveu uma risada batendo com a mão direita nas costas dele.
- Se Deus não perdoar alguns pecados, ninguém se salva.
Ele ia comentar e prolongar a descontraída conversa, mas Zacarias pediu silêncio com a palma da mão, estava começando a missa.

...

Sentando no último banco da igreja com a urna prateada ao lado, Emílio permanecia com a cabeça baixa, estava absorvendo a atmosfera de paz da igreja e ao mesmo tempo lembrando-se da morte do insubstituível amigo.
Cristiano era um amigo de infância de Emílio, ambos tinham nascido na mesma cidade, estudaram na mesma escola. Gostavam da mesma garota na adolescência, brigaram e fizeram as pazes e conforme o tempo passava, amadureceram e fortaleceram a amizade.
Depois de formados, Emílio casou com a irmã de Cristiano. E Cristiano mudou de cidade para trabalhar no corpo de bombeiros, alguns anos depois Emílio entrou no departamento da polícia na mesma cidade de Cristiano. Era uma história para um final feliz, se não fosse à desobediência do amigo.
- Nada de heroísmo. Você não conseguirá salvar ninguém, se morrer antes. – Diziam um para o outro, sempre que se encontravam.
Mas em uma ocorrência, o galpão estava tomado por uma fumaça tóxica negra, todos os funcionários estavam salvos, e os bombeiros realizavam a última busca. Cristiano conduzia um rapaz subindo a escada do subsolo.
- Não pare, não corra. Mantenha a máscara no rosto, eu estou aqui e vamos sair dessa. – Ele disse para o rapaz que estava com medo da parede de fumaça negra.
Então uma mão agarrou a calça de Cristiano, ele olhou para baixo e mal viu a mulher deitada sufocando, tentando não inalar a fumaça.
Ele foi rápido, orientou o rapaz segurar no corrimão da escada enquanto pegava outra máscara para a mulher. Porém, devido à pressa, deixou os equipamentos caírem escada abaixo, junto com as máscaras.
Faltava pouco para subir e sair do galpão, mas a mulher não poderia esperar a recuperação dos equipamentos. Cristiano tirou a proteção e colou a própria máscara na mulher que perdia a consciência.
- Segure em mim e não solte! – Ele disse para o rapaz.
Então ele carregou a mulher e entrou correndo no nevoeiro negro. Ele podia encontrar a rota de fuga com olhos fechados, mas o problema era correr carregando uma pessoa e segurar a respiração ao mesmo tempo.
No lado de fora, os outros bombeiros olhavam impaciente para o relógio. O companheiro estava com problema.
- VAMOS ENTRAR! – Gritou o comandante
Eles entraram sinalizando e rapidamente encontraram Cristiano ofegante, com duas pessoas.
- RESPIRE! RESPIRE! – Gritou um dos bombeiros colocando uma máscara no rosto de Cristiano enquanto os outros cuidavam das vítimas.
Mas eles chegaram tarde demais. Cristiano conseguiu salvar as duas pessoas, mas o ato heroico custou sua vida.
Ele morreu internado, por envenenamento de fumaça tóxica. Enquanto corria no nevoeiro carregando uma mulher, não aguentou segurar a respiração e inalou muita fumaça.

Uma gota de lágrima brotou nos olhos de Emílio, ele não esperou terminar a missa, pediu licença para uma mulher sentada ao lado e saiu da igreja, carregando as cinzas de Cristiano.
Emílio foi caminhando à noite até uma pequena elevação da cidade, onde era possível visualizar o trilho passar por baixo da ponte. Ele sentou no gramado, colocou a urna prateada do lado e abriu a garrafa de vodca.
“Tá vendo filho da puta?” “Ali quando ainda não tinha a ponte, era onde bebíamos e fumávamos escondidos.” “Bons tempos, só não quando você me deu um soco por causa da loirinha...”
Ele riu, deu um gole na vodca.
“Vou jogar suas cinzas aqui, acho que você faria o mesmo comigo.” “Mas antes, vamos beber para as estrelas.”
Ele jogou um pouco de vodca na urna e bebeu outro gole, depois deitou no gramado com as mãos atrás da cabeça.

...

- Pode me dar uma carona até a vila? – Perguntou para Zacarias depois que terminou a missa.
- Claro filho. Mas é verdade então sobre o carango?
- É sim, mas não é culpa da sua oficina.
- Encosta o carango lá na oficina, dou um desconto.
- Faz de graça, que eu vou.
Zacarias riu abrindo a porta.
- Sempre assim, os batutas vivem na pindaíba. Entra ai.
Ele admirou o fusca por fora, e elogiou.
- Conservada a máquina... Nunca dirigi um fusca 67. Será que posso?
- É o meu xodó, não empresto... Mas, experimente. Vai querer compra-lo.
Ele segurou firme na direção, colocou na primeira e acelerou.
- Quanto quer no 67?
- Vai ficar na vontade, este não vendo. – Disse Zacarias.
Ele foi dirigindo e conversando. Quando cruzou por uma rua sem saída de uma fábrica, identificou um carro estacionado, com duas pessoas dentro e ficou alerta.
“Deve ser tocaia, mas duvido que cubram a cidade toda, em todo caso, é mais um problema agora para pensar, já não bastasse abandonar o Voyage por causa do pescoço duro.” “Maldito pescoço duro!”
- Você podia ter pegado a estreita, por aqui vamos demorar mais para chegar na vila. – Protestou Zacarias olhando a rua pelo espelho retrovisor.
- Deu vontade de pilotar o possante. Deus, como é feroz!
Zacarias riu e começo a falar sobre a primeira vez em que dirigiu o fusca.
Enquanto dirigia e ouvia, procurava um encostamento discreto, estava chegando próximo à ponte, tinha que nocautear o velho antes de sair da via. Tinha que ser fora do carro, ele era muito grande e estava sem espaço para bater com força. – “É um velho, mas é um mecânico, e pode resistir.”
- E agora? Está parando? – Perguntou Zacarias.
- Não mijei na igreja e não estou aguentando, vou descarregar aqui mesmo.
Não era de todo armação, pois ele realmente foi atrás do carro, procurou um lugar mais discreto e urinou. Quando estava voltando, olhou atrás do fusca e fez que estava observando alguma coisa. Depois voltou no banco do motorista e disse:
- O estrago na tampa do motor esta feio. Como aconteceu?
Zacarias olhou assustado.
- Está brincando? Não tem estrago nenhum...
- Não vi errado, vou ver de novo. – Ele disse saindo do carro.
Zacarias saiu do fusca e foi verificar, quando colocou a mão na tampa do motor, sentiu uma forte pancada atrás da cabeça, caiu de joelhos. Estava atordoado.
Ele agarrou o velho pelos braços e o arrastou para o banco de passageiro, então o amarrou no banco.
- O que está fazendo? – Murmurou o velho que já estava se recuperando.
Não ouviu resposta, mas sentiu um toque frio e pesado encostar-se à sua têmpora.
Ele virou para olhar e deu de cara com um revólver 38. O senhor Zacarias tremeu, tanto pela arma apontada em seu rosto, tanto como a sinistra máscara de ferro do homem que empunha a arma. Ficou em silêncio e começou a rezar em pensamento.
Ele riu por trás da máscara, tinha intimidado o velho Zacarias, podia voltar a dirigir. Estava próximo. Não podia cruzar com nenhuma viatura, por isso dirigiu rápido com faróis apagados no encostamento, a saída estava a alguns metros.
A saída era um encostamento extenso, inviável para qualquer prática, pois estava coberta por um matagal, a ideia era abandonar o fusca e seguir a pé até a ponte.
Zacarias ouvia aterrorizado o barulho do mato roçando o carro.
“O que por Deus, está acontecendo?” “É um sequestro?”
Ele parou o fusca quando julgou que estava bem escondido. Saiu do carro, o matagal cobria bem o veículo, mas no outro dia a marca de plantas quebradas poderia levantar suspeita.
Manteve o velho Zacarias amarrado no banco e caminhou até a ponte para ver se estava vigiada.
Ele passou facilmente pelo cercado que separa o trilho e caminhou furtivamente para a ponte, atento a qualquer movimento suspeito.
A imagem era desconfortável, um homem grande, de máscara andando no encostamento do trilho do trem, não era um bom presságio.
Ele verificou toda a área da ponte. Pouca iluminação e ninguém a vista. Tinha que agir rápido, alguém poderia ter a brilhante ideia de bisbilhotar embaixo da ponte. Largou a mochila no chão e correu de volta para o fusca.
“A mesa está arrumada, falta o porco da ceia.” – Pensou.
Enquanto isso, em vão Zacarias tentava se soltar do banco.
“Um rapaz gente boa, qual razão disso?” “Fazia tempo que éramos amigos...” “Ou será que não é ele?”
- SOCORRO! SOCORRO! – Gritava sacudindo todo o banco. Mas ele sabia que ali ninguém ouviria.
O homem mascarado apressou os passos, normalmente não preocupava os gritos das vítimas, mas agora que provavelmente a polícia estava em alerta, o silêncio era importante. Amaldiçoou por ter se esquecido de amordaçar o velho.
- SOCORRO – Gritou com força Zacarias.

...

Emílio levantou a cabeça assustado e apurou os ouvidos.
“Ouvi um socorro abafado?” “Como se alguém estivesse preso em uma caixa?”
Ficou atendo olhando para o trilho do trem, estava escuro, mas estava tentando mais ouvir do que ver.
-...orro! Socorro! – Ouviu de novo, e antes que tomasse a decisão de ir ao encontro do chamado, viu um vulto sair da sombra mais escura da ponte e embrenhar no matagal em volta do trilho.
Tirou a Magnum.357 do coldre e desceu escorregando do barranco até a cerca do trilho. Estava de licença, mas alguém precisava de ajuda. – “Porra, minha calça nova já era...”.

...

Zacarias viu a porta quase ser arrancada do fusca, o homem mascarado deu um safanão na sua orelha e apontou a arma, foi o jeito de ele pedir silêncio.
- Erich é você? O que está fazendo?
O mascarado amarrou um pano na boca de Zacarias e o liberou das amarras do banco. Depois apontando a arma na nuca do velho, fez com que andasse até o trilho.
Zacarias ouvia a respiração acelerada do homem por trás da máscara, no entanto minutos depois a respiração foi trocada por um assobio de música.
“Quão louco alguém pode ser?” – Pensou Zacarias ouvindo o irritante assobio. – “Custo acreditar que seja o moço Erich, mas é ele...”
Depois de pular a cerca e caminhar próximo ao trilho, Zacarias foi jogado embaixo da ponte. Acompanhava incrédulo, a atividade do homem mascarado. Ele estava ajustando uma câmera, quando ambos ouviram uma potente voz autoritária cortar o silêncio.
- MÃOS NA CABEÇA E VIRE-SE DEVAGAR!
O homem mascarado gelou, tinha subestimado a inteligência policial. Deveria ter seguido para outra cidade. Mas agora era tarde.
“Merda, no mínimo são dois homens, talvez três; como saio dessa?” – Pensou sem poder olhar para trás e ouvir o autor da voz.
O som do disparo encheu o ar, o estampido ecoou no ouvido de Zacarias que fechou os olhos e tentou rolar para mais longe do homem mascarado. O projétil afundou no solo jogando terra e pedaço de pedras na perna do homem mascarado.
“Um tiro de aviso!” – Ele pensou virando a cabeça levemente.
O mascarado agiu por reflexo, no momento em que o estampido cessou, virou o corpo, sacou o calibre 38 e efetuou dois rápidos disparos. Ele sentiu uma pancada no peito seguido de outra no abdômen, caiu sentindo a dor do impacto, arquejando tentou disparar na direção do policial, mas os braços pesaram e disparou a esmo.
Ele correu cambaleando de dor, enquanto ouvia novos disparos. Correu até a cerca, procurando o lado mais escuro para se esconder.
“Se não fosse o colete a prova de balas, eu estava morto.” “Estava morto mesmo.” – Pensava enquanto corria no meio do matagal.
Emílio correu atrás do estranho homem. Se não fosse a bala alojada no braço, teria acertado o mascarado.
“Mas eu acertei dois tiros.” “Como sobreviveu?” “Colete, o desgraçado estava usando um maldito colete e eu de peito aberto.”
O braço esquerdo sangrava, Emílio ficou em prontidão observando, e resolveu não seguir o mascarado.
“Com esse ferimento, vou morrer se correr por ai a noite.” “Mas que porra de máscara era aquela?”
- O senhor está bem? – Perguntou para o velho amarrado, sem tirar os olhos por onde o mascarado fugiu.
Emilio obteve como resposta um grunhido. Foi até o homem, e o libertou das amarras e mordaça.
Existia nos olhos de Zacarias a mais pura gratidão e alívio.
- Obrigado homem da lei. Afinal você é o guardião que ouviu minhas rogações.
Emílio ajudou o velho ficar em pé.
- Estou longe de ser um. Mas pode agradecer aquele ali. – Disse apontando para a urna que brilhava com a luz da lua. – É verdade quando dizem que anjos nunca descansam.
Emílio jogou o celular nas mãos de Zacarias.
- Peça ajuda senhor, diga nossa localização e vamos sair daqui. Estou ferido, se aquela... Aquela coisa voltar vai ser problema.
Enquanto Zacarias ligava para a emergência, Emílio pegou a mochila e a câmera do local.
- Vamos sair daqui! – Disse olhando apreensivo para o lugar mais escuro da ponte.
- Acho que ainda tenho um carro. – Mencionou Zacarias devolvendo o telefone.

...

“Dor dos infernos.” “Qual distância foram os tiros?” “Será que o impacto é esse mesmo ou é o colete que está bichado?”.
Ele estava agachado, atento e observando se estava sendo seguido.
As mãos tremiam e o coração batia ferozmente contra o kevlar. Era a primeira vez que protagonizara uma troca de tiros. E a experiência estava longe das divertidas cenas cinematográfica.
“Que diabos!” “Cadê os homens?” “Por que não estão me seguindo?”
Ele verificou o revólver, recarregou e muito atento saiu do matagal para a estrada.
“Caralho, abandonei a mochila, a câmera e o velho.” “E o velho me conhece.” “Se ao menos uma bala encontrasse o infeliz, mas seria abusar da sorte; meu três oitão contra os tiras não ia dar pé.”
Ele tirou a máscara de ferro do rosto e a deixou cair. Ouvindo o barulho do ferro contra o asfalto, retirou o colete e por último as luvas, jogou junto com máscara.
“Acabou...” “Tenho que sumir.”

Por: Fernando do Amaral - 19/06/2014

Parte 5 – A identidade

Dois meses atrás.
Ele estava de férias, aproximadamente 450 km de distância do trabalho.
“Cancun pode esperar.” – Pensou enquanto tomava café, e olhava o roteiro de férias no jornal que o tio estava lendo.
- Deveria descansar melhor nas férias... – Comentou a mulher de 60 anos.
- Eu sei tia. Mas eu quero passar alguns dias com a senhora e o tio. E o homem da lanchonete em frente à faculdade, é um amigo meu. Estou devendo um dinheiro para ele.
- Prefere trabalhar para ele nas suas férias, ao invés de pagar em dinheiro? – Perguntou o senhor de cabelos grisalhos, olhando por cima do jornal.
- Sim tio. Tenho que economizar.
- Tá vendo velha? É essa atitude que admiro. Deixe o rapaz trabalhar!
Mas a intenção estava longe de economizar. Era verdade que o dono da lanchonete era um amigo, e realmente tinha aceitado que ele trabalhasse por uns dias na lanchonete.
Erich tinha elaborado um plano e faltava pouco para concluir, ele tinha que divulgar o site para uma pessoa, especificamente um aluno da faculdade, mas não queria um vínculo direto com o divulgado. Não queria ser identificado como autor do que estava por vir.
A ideia era simples, fazer amizade com algum aluno e de alguma forma discreta mencionar o site, talvez um cartão ou panfleto. Mas quando observou que era costume dos alunos deixarem os pertences na mesa enquanto iam ao banheiro, mudou de estratégia.
“Um panfleto eles jogam fora sem ler, um cartão é pequeno demais...” “Mas um marcador de livro...” “Um marcador bem feito, chama atenção...” – Pensava enquanto inseria disfarçadamente um marcador dentro de um livro.
A dona do livro tinha levantado, fazia poucos minutos. Ela sempre pedia um cappuccino com dois pães de queijo, e às vezes, quando terminava ia ao banheiro.
- Eu já ia pedir a conta... Obrigada! – Ela disse suavemente atrás de Erich.
Surpreendido, olhou para ela. – “Que coisa linda!”
- Eu só vim retirar a bandeja moça. Mas trarei a conta. – Ele olhou de relance para o livro, conferindo se o marcador estava no lugar certo.
- Gosta de Peter Drucker? – Ela perguntou com um divertido sorriso.
- Na verdade, só estava com medo de ter derrubado sujeira em seus pertences...
Ele pediu licença para sair, não queria prolongar a conversa e lamentou por isso, a moça era muito bonita. – “Em outra ocasião, uma gostosa dessa não me daria mole.”
Enquanto anotava a conta para a aluna, Erich pensava na possibilidade de divulgar para outra pessoa. Ele a observou, sentada, de pernas cruzadas e mexendo impaciente no celular. – “Ela não tem o perfil de quem teria interesse por killthegamecharacter.com...”
Ela pagou a conta, agradeceu e atravessou a rua para a faculdade. Erich acompanhava a moça carregando o livro. – “Mas já coloquei o marcador, agora resta esperar alguém encontrar e acessar...”
Erich trabalhou por mais duas semanas na lanchonete, ele acessava todos os dias o site para conferir visitas. Existia um motivo para ele não divulgar o site killthegamecharacter.com com maior eficácia. Ele temia não ter tempo e recursos necessários para cumprir os pedidos dos usuários.

- Da próxima vez, venha para descansar. – Disse a tia.
- Mas se insistir em trabalhar, pode pintar nossa casa. – Disse o tio se divertindo.
Erich estava com a mochila nas costas, voltando para a cidade em que trabalhava.
- Pode ser que eu apareça no final de semana tio.
- Manda lembranças para sua mãe, diga que ela está me devendo uma visita. – Disse a tia.
- Vamos comigo? Meus pais vão gostar da surpresa.
- Hoje não dá querido! Mas logo iremos.
Depois da despedida, Erich entrou no Voyage e acelerou pela rodovia, estava ansioso. – “De volta para minha cidade.” “E o jogo vai começar...”

...

Agora.
Com faróis apagados, uma viatura disfarçada, trafegava lentamente por uma sinuosa rua escura. Oliveira não tinha conseguido nada da vítima sobrevivente.
“- Terá que esperar a recuperação do paciente, e pedir autorização dos familiares para qualquer interrogatório. – Tinha dito o médico na ocasião.”
- Maldito, podia ao menos responder por meio de escrita. – Disse Oliveira atrás do volante.
- O que? – Pergunto Jorge, sentando no banco passageiro.
- Estou pensando sobre a vítima da estaca. – Respondeu Oliveira.
- Às vezes, é mais fácil lidar com os mortos.
- Em nosso tipo de trabalho, você tem razão.
Jorge ia fazer um gracejo, quando o barulho do rádio alarmou os dois policiais.

Orientando pelo motorista da ambulância, Zacarias diminuiu a velocidade do fusca e parou. Atrás da ambulância duas viaturas encostaram. Oliveira e Jorge saíram rápidos do carro.
- Você cobriu essa área com quantos homens? – Perguntou Oliveira.
Jorge negou e olhou apreensivo para o fusca.
- Não mandei patrulha para esse trecho.
- Mas a central informou um policial... Quem é o policial ferido?
- Seja lá quem for, salvou a noite.
Zacarias mantinha as mãos firmes no volante enquanto a equipe de resgate socorria Emílio.
- O senhor está ferido? – Perguntou Oliveira olhando para Zacarias.
Zacarias negou com a cabeça.
- Precisa de cuidados médicos?
- Não. Eu estou bem. – Respondeu Zacarias
- Pode descer do carro senhor?

- A central informou que você é um policial. Qual o seu distrito? – Pergunto Jorge depois de cumprimentar o policial ferido.
Emílio pegou a identificação do bolso e mostrou para Jorge, que examinou sem encostar.
- Vou precisar dos dados, para registrar ocorrência.
- Sei como funciona. E quero dar um depoimento sobre o que aconteceu. Estou de folga e não esperava encontrar um maníaco...
- O senhor precisa ser encaminhado para o hospital. – Interrompeu o socorrista.
- Deixe para depois o depoimento, só me diga aonde ocorreu o conflito.
- Na ponte do trilho. As coisas do maníaco estão dentro do fusca, uma câmera e uma mochila.
- Câmera?
- Como eu disse, era um maníaco. Só Deus sabe do que aquele senhor escapou...
- Faço ideia... Se for quem estou pensado, o destino do velho ia ser cruel.
Emílio já estava sentando dentro da ambulância, olhou surpreso para Jorge.
- Já esperavam algo assim?
- Sim, mas acabou. Vamos retirar o corpo, juntar as provas e encerrar o caso.
- Corpo? Que corpo?
- Esse canhão ai na cintura, estragou tanto o sujeito, que nem corpo sobrou? – Comentou Jorge brincando.
Emílio riu, mas disse em tom severo.
- Foram dois tiros em cheio no filho da puta. Ele caiu, mas levantou atirando.

- E então aquele bom oficial disparou no Erich. – Contava Zacarias.
- O senhor conhecia o agressor?
Zacarias pareceu confuso, mas disse:
- Olha... Apesar da máscara, acho que era o Erich, só podia ser.
- Máscara?
- É, esqueci-me de mencionar. Desculpe senhor oficial. Mas eu estava com as mãos amarradas, caminhando à noite sobre um trilho com um homem apontando uma arma para minha nunca. – Ele mostrou as mãos. – Vê? Ainda estou tremendo, eu quase morri, é normal que minha história fique confusa.
- O senhor fuma? - Oliveira pegou um cigarro e acendeu. Queria recomeçar o diálogo, quando foi interrompido por Jorge, que carregava um saco preto contendo uma câmera e uma mochila.
- VIVO! O cara está vivo.
- Do que está falando?
- Estamos lidando com uma espécie de Michael Myers... O cara tomou dois balaços no peito e saiu andando.
Oliveira pareceu refletir se o companheiro estava brincando.
- Já é assustador, que tem alguém matando indiscriminadamente por ai... E piora quando esse alguém está preparado para a polícia. Não esperava um colete a prova de balas. – Disse Oliveira soprando a nicotina.
- O que é Michael Myers? – Perguntou Zacarias.
- Senhor Zacarias, uma viatura o acompanhará até a sua residência, amanhã o senhor confirmará a identidade do assassino. – Disse Oliveira pegando o rádio.
Ele apertou o botão do rádio e informou:
- Preciso de uma viatura de proteção para civil. – Ele esperou a confirmação, e depois enviou outra mensagem.
- Alerta geral, o assassino está foragido, tem quase 2 metros, usa uma máscara, está armado e com colete. Parece que tem treinamento militar.
- Intimidador. – Disse Jorge.
- Leve o senhor até o carro, depois vamos até a ponte.
Quando Zacarias ligou o fusca e viu Jorge indicando para a viatura acompanhar, ele baixou o vidro e perguntou:
- O que é Michael Myers?
- É um fã de Slipknot, sem Playstation em casa.


Em cima da ponte, debruçados sobre o beiral, Jorge e Oliveira observavam o trilho.
- Vamos descer?
- Amanhã, estou com sono. E o dia começará pesado... – Respondeu Oliveira.
- Então o que estamos procurando?
- Desculpas. Vamos precisar de uma para explicar, o que aconteceu de errado. Um civil quase morreu, um policial de outra cidade foi ferido em período de licença, e o suspeito continua solto.
- Mas temos os pertences do suspeito, duas testemunhas. E provavelmente a identidade... – Disse Jorge.
Oliveira deu uma longa baforada antes de responder.
- O delegado foi bem claro quando ordenou patrulha em lugares assim.
- Droga cara! Não tem como fazer milagre. – Jorge apontou para o trilho. – Olha essa merda, deveria ser murada, mas tem apenas uma cerca vagabunda, esse tipo de coisa não consta no mapa.
- Você tem razão. Mas vamos omitir a parte da cerca e dizer que todo o percurso aqui estava patrulhado.
- No caso, quem?
- Nós! Vamos justificar que descuidamos da parte embaixo da ponte. Por ser um lugar de difícil acesso.

...

Erich pisava fundo o acelerador do gol. Queria ter despedido dos pais, dar um beijo na mãe e pedido emprestado o gol para o pai. Ele olhou o retrovisor para ver se tinha algum carro atrás. – “Acho que ia ser estranho se eu acordasse os velhos de madrugada dizendo: Sou um assassino e estou fugindo.”
Ele riu, mas estava preocupado. Com exceção do computador e dinheiro, tinha deixado tudo para trás. – “Em cinco horas mais ou menos, serei um criminoso procurado, tudo por causa de um descuido com o senhor Zacarias.”
- Maldito velho filho da puta! – Falou em voz alta.

Por: Fernando do Amaral - 27/06/2014

Parte 6 – Arrependimento dos inocentes.

Ela estacionou em frente da delegacia. Tirou o capacete e desceu da moto. Chegando à recepção, ela mostrou o RG dizendo:
- Tem um senhor aqui, o nome é Zacarias, ele vai demorar a sair? Ele é o meu avô.
A policial conferiu a informação e respondeu:
- Não moça, faz um tempo que ele está prestando depoimento. Aguarde por favor.
Ela agradeceu, procurou a cadeira próxima ao filtro de água e ali ficou esperando impaciente. Estava cansada da viagem, e ansiosa para falar com o avô Zacarias.
Ela estava estudando para uma apresentação, quando recebeu a ligação da mãe, informando que o avô Zacarias sofreu tentativa de assassinato.
Somente a ideia sobre o assunto, fez a pele gelar, e um sentimento de angústia abateu sobre ela.
- Moça tenha calma está bem? – Disse a policial percebendo a tensão da moça. – Seu avô, está muito bem.
Ela agradeceu com um sorriso e tentou disfarçar o nervosismo tomando água.
A porta abriu, na frente caminhava o policial Oliveira, que tinha um semblante cansado, seguido por senhor Zacarias.
- Mais uma vez, obrigado por colaborar. Para sua segurança, sempre terá uma viatura em sua residência, até encerrarmos o caso. – Disse Oliveira apertando a mão de Zacarias.
- Eu ainda não acredito que passei por isso... – Ele desabafou.
Ela não aguentou esperar, assim que viu o avô falando com o policial, foi até ele e o abraçou forte.
Ambos, foram surpreendidos pela moça que apareceu inesperadamente abraçando o senhor Zacarias.
- Avô, que alívio ver o senhor... – Ela disse chorando. – O que fizeram com o senhor.
Zacarias abraçou a neta, ficou comovido pela demonstração de carinho.
- Querida fez uma viagem, para ver esse velho?
- O que aconteceu avô? Quem quis te fazer mal?
- Não foi nada de mais, deixa pra lá. O importante é que fico feliz em te ver.
Oliveira que assistia os dois abraçados caminhando até a recepção, não percebeu que Jorge fazia o mesmo, encostado no batente da porta.
- Temos que pegar o maldito. – Disse Jorge.
- Sim, a moça não faz ideia, do final trágico que o avô dela escapou.
- Tinham dois litros de gasolina, na mochila...
- Se não fosse Emílio, hoje teríamos um cadáver torrado. – Oliveira encarou Jorge. – Vamos, temos trabalho para fazer.
- Posso ajudar? – Perguntou o policial Emílio.
- Já está ajudando. Mas não em campo com o braço imobilizado, além do mais você está de folga e não é do nosso departamento. – Disse Oliveira.
Emílio pegou o telefone.
- Com uma ligação, posso ser a força tarefa.
Oliveira conferiu o colete e respondeu.
- Guarde seu telefone, ninguém vai a campo ferido. Alias, temos um problema para resolver com você, caro pistoleiro.
- Por falar em telefone, tem uma ligação para você. – Disse Jorge passando o telefone para Oliveira.
- Oliveira falando. – Ele apertou o botão viva voz.
- Os pais do suspeito não sabiam de nada, inclusive surpreendidos com a intimação, a mãe dele precisou de atendimento médico.
- E quanto os pertences?
- Temos quase tudo, pelo jeito, o suspeito levou apenas o computador.
- Alguma pista que indique para onde fugiu?
- Nada. Só um detalhe, é melhor esquecer o Voyage. Ele fugiu com um gol azul, roubou do próprio pai.
- Que filho da puta. Que seja. Pegue todas as informações do veículo. – Oliveira desligou, encarou Emílio e disse:
- Já teve um desgraçado assim? Estamos à manhã toda atrás do tal Voyage, enquanto o cara está longe.
- Mando suspender a busca? – Perguntou Jorge.
- Melhor não. Pode ser que tenha algo importante no carro.
- Qual o problema comigo? – Perguntou Emílio impaciente.
Oliveira pareceu refletir antes de dizer.
- No resultado da balística, leva a acreditar, que você efetuou o primeiro disparo.
Emílio encostou o ombro na porta, não parecia preocupado.
- É verdade, foi de aviso. O suspeito reagiu de forma incomum quando abordado.
- E você terá problema? Parece que a sua arma não é padrão da corporação.
- Vou me virar. Obrigado por avisar antes do depoimento. Claro que eu ia omitir a parte do disparo.
- Tudo bem então Emílio. Já que estamos resolvidos, me dê licença. – Oliveira conferiu a revólver no coldre. – Tenho que caçar um psicopata.
- Ele filma a morte das vítimas, e faz o que com os vídeos? – Perguntou Emílio acompanhando Jorge e Oliveira.
- Ainda não sabemos, talvez guarde com a coleção pornô das trevas. – Disse Jorge.
- Quantas vítimas até agora?
- O velho ia ser a quinta vítima. – Respondeu Oliveira.
Emílio parou no corredor.
- Tenho um palpite.
Os dois policiais também pararam de caminhar.
- Pode ser que o desgraçado, compartilhe os vídeos na internet.
- Tem como rastrear? – Perguntou Jorge.
- Depende de muitas coisas... Existe um lado negro na internet, que não dá para alcançar. Mas pode ter alguma coisa nos pertences do suspeito, que ajude.

Zacarias assinava um documento na recepção para poder ir embora, enquanto isso a neta observava o mural de ocorrências da delegacia.
Ela estava mais calma, o avô apresentava hematomas no rosto, mas estava bem.
"Graças a Deus, meu querido avô não consta nesse mural..."
Um arrepio tomou conta dela, os olhos ficaram mais abertos, o lábio inferior relaxou, deixando a boca meio aberta, começou a tremer. Um estalo na cabeça pareceu tirar ela da realidade e jogar ela em um mundo diferente. Um mundo vazio em que a única imagem, era a foto da mulher no mural de desaparecidos.
- Giane? Você está bem querida? – Perguntou Zacarias.
Ela olhou assombrada para o avô.
- Vamos embora? – Perguntou baixo.
- Sim querida. E fique calma. Viu um fantasma? – Ele sorriu. – Estou vivo ainda.

...

Erich estava cruzando a saída da cidade, tinha deixado o Voyage abandonado com a janela quebrada, para a polícia seguir uma pista falsa, assim que a vítima da estaca se recuperasse. Posteriormente, destruiria todas as provas dos crimes, contaria uma história de como foi ameaçado por um homem, a não prestar queixa sobre o roubo do Voyage. E tudo acabaria bem, com um final feliz.
Mas os planos mudaram depois de ser flagrado, e para ajudar, a vítima sabia tudo sobre Erich.
"E agora está na hora de dar adeus ao gol do papai." "Chega de cometer erros."
Ele encostou o gol em um posto. Enquanto abastecia o carro, foi comprar uma coca cola. Seu pensamento estava focado em como desfazer se do carro e ao mesmo tempo confundir a polícia. Quando voltava para pagar o frentista, achou a solução de imediato, era um motoqueiro encostando para abastecer.
Leandro estava adorando a moto nova.
"Trezentos e cinquenta cilindradas, tem a vantagem de ser leve na estrada." – Pensava enquanto enrolava o acelerador mais um pouco. E logo diminuiu a velocidade, na sua frente, tinha um homem pedindo ajuda ao lado de um gol no encostamento.
A primeira instrução que passou na mente de Leandro, foi a de ignorar o homem e continuar, mas o homem estava sozinho, e não parecia mal intencionado. Diminuiu a velocidade e parou.
- Boa tarde, graças a Deus você parou. Pode me ajudar?
- O que aconteceu?
- Parei para tirar a água do joelho, quando voltei, o carro não dá sinal de vida.
- Estava normal?
- Sim. Até então normal...
- Mas como posso te ajudar? Não entendo de elétrica ou mecânica...
- Vou pedir para você girar a chave, enquanto eu tento achar o problema.
Leandro usou o guidão da moto, como apoio para o capacete.
- Máquina nova? – Perguntou Erich admirando a moto.
- É sim, estou testando a belezinha...
- E você não tem medo de te roubarem? Digo... Andar sozinho assim por essas estradas é perigoso.
Leandro exibiu o crucifixo no pescoço.
- É a minha proteção. – Ele beijou o crucifixo. – Melhor que rastreador, segredo ou alarme.
Era exatamente o ponto em que Erich queria chegar, mas não sabia como. Então aproveitou a oportunidade.
- Não acredito! Não colocou nenhum rastreador na moto?
- Só o seguro cara. Se me roubarem o seguro cobre.
Leandro sentou no banco do motorista, uma perna estava fora do carro, girou a chave e o motor respondeu na primeira.
- Que isso? Trouxe sorte para você cara? – Leandro virou o pescoço para ver se o homem estava surpreendido, mas viu uma arma apontada para sua testa.
- O que está... – Leandro não teve tempo de pegar o crucifixo e fazer uma prece, ouviu o estampido estourar os tímpanos, enquanto sentia uma brasa pesada, queimar a testa e jogar a sua cabeça para trás.
"Puta estrago!" "E que cheiro ruim, tem um tiro a queima roupa..." – Pensou Erich.
Ele empurrou o corpo para o banco do passageiro, sentou no banco do motorista e dirigiu para fora da estrada, encostou próxima de uma árvore, desligou o carro, pegou a mochila com o notebook e fechou a porta com a chave no contato.
"Será que ainda lembro como andar de moto?" – Pensou sorrindo olhando para a moto enquanto colocava o capacete.
Erich acelerou e pilotou por aproximadamente trinta quilômetros, foi o tempo em que viu um rio. Não espera encontrar um rio, pretendia um lugar fechado com matagal, comum nas estradas. Mas o rio era ainda, mais perfeito.
Encostou a moto e esperou um caminhão passar e alguns carros, quando viu que a estrada estava livre, guiou com a moto para fora da pista até a margem do rio, desceu da moto e a empurrou na água.
Ele ficou observando a moto sumir na água. "Será que essa coisa, vai afundar por completo?"
Quando ele viu que o espelho não era mais visível, pegou o capacete, colocou uma pedra dentro, prendeu com a cinta jugular e lançou no rio.
"Hoje a polícia vai procurar por um gol azul, e depois ficará por um bom tempo procurando uma moto."
Ele voltou para a estrada, olhou para os lados e começou a andar.
"Considerando que a alguns quilômetros, tem um posto de gasolina, também deve ter um ponto de ônibus." – Pensou.
Um carro passou por ele em alta velocidade.
"Ou talvez alguém me dê carona." "Será quem alguém, vai parar para o John Ryder aqui?" – Ele riu com a própria ironia.

...

Ela gostaria de ter ficado, o plano era passar o final de semana com o avô. Relembrar algumas coisas que aprendera na oficina quando mais nova. Estava mesmo pronta, para sacrificar compromissos com a faculdade e o trabalho. Mas a foto da mulher no mural era o motivo de pilotar a moto, em alta velocidade pela estrada. Tinha que chegar logo, e conversar com certo alguém.

Aquiles voltava da farmácia, estava um pouco constrangido, não tinha verificado os preservativos. Por conta disso, saiu às pressas e deixou uma bonita loira esperando nua na cama.
"Diabos!" "Pode ser, que ela não esteja mais lá..." – Ele pensou, tirando os cabelos que caiam nos olhos.
Já estava escuro, e mais um quarteirão chegaria ao apartamento.
"Eu bem que transaria sem camisinha..."
O celular tocou, e ele atendeu sem olhar no visor quem era.
- Estou atravessando a rua! – Respondeu apressado.
- O que? – Ela perguntou confusa.
- Gi? Desculpe, pensei que era outra pessoa.
- O que você está fazendo?
- Bom, eu bem, estou... Você sabe, eu esqueci o trabalho e daí...
- Esqueça! – Ela interrompeu. – Preciso conversar sério com você.
- Tá bom. Amanhã vou à sua casa e...
- Agora! – Ela interrompeu de novo.
- Mas é que agora não dá, estou ocupado.
- Hum-hum. Ei, estou vendo você vindo pra cá! É você certo?
- Você está em frente do meu apartamento? – Ele disse, avistando de longe a moto estacionada na calçada. – Puta que Pa...
Ele desligou o celular.
- Gi, você sabe o quanto gosto de você. Mas chegar assim...
- Boa noite pra você também. – Ela respondeu encarando severamente.
Ele percebeu que ela estava muito séria. Parecia assustada. Deu um beijo no rosto e tentou ser mais delicado na próxima pergunta.
- Gi? O que te aconteceu?
Giane olhou para a ponta da própria bota, colocou as mãos no bolso, e disse:
- Eu preferia entrar e conversar, mas pelo visto, alguém aqui quer transar hoje.
- É. Não vou mentir para você, trata se disso mesmo. – Ele respondeu pouco à vontade. – Tem que ser... Agora?
Ela deu um longo suspiro.
- Será que sua excitação será a mesma, quando descobrir, que é responsável por mortes cruéis?
- Do que... Do que está falando?
- É amigo, melhor colocar o peru no gelo. Aquele maldito site, é real. – Ela disse mostrando a foto que tirou no mural de desaparecidos.

Aquela noite, não foi boa para Aquiles. Teve que inventar uma desculpa idiota, para dispensar uma mulher linda, e substituí-la por outra, provavelmente mais linda, porém, que jamais veria desnuda.
"Giane; a típica mulher perfeita, que nos homens comemos somente no pensamento." – Ele sempre pensava.
Ela tinha qualidades invejáveis, no físico e na personalidade, e extremamente exigente para relacionamentos.
- E agora? Que faremos? – Ela perguntou quase chorando.
Aquiles a abraçou. Os dois estavam olhando os vídeos do site, e comparando com as fotos do mural. Mesmo com os tremidos e a pouca claridade no vídeo, era impossível não identificar as pessoas.
- Nós os matamos... Eu a matei! – Ela disse deixando o choro tomar conta.
- Gi, não chore. Vamos dar um jeito...
- QUE JEITO? – Ela disse se livrando do abraço.
- Eu não sei... Vou pelo menos avisar todo mundo, para quem compartilhei... Vou criar um viral e espalhar a notícia.
- Olha. – Ela disse apontando para a tela. – Olha quantos pedidos de morte! Neste exato momento pode ter gente morrendo.
Aquiles observou o site, cautelosamente antes de dizer:
- Acho que não. Tem um aviso aqui no site. Diz que no momento, estão trocando os servidores e não vão poder atender aos pedidos do jogo.
- Oh meu Deus! – Ela disse colocando as mãos na boca. – Eu sei o que está acontecendo, o criminoso deixou uma vítima escapar, e provavelmente não poderá executar ninguém por um tempo.
- Como pode saber disso? – Disse ele a encarando, espantado.
- Eu não disse que tirei a foto, na delegacia quando fui visitar meu avô?
- Sim...
- Pois então, meu avô é a vítima que escapou... – Ela desatou a chorar.
- Meu Deus... – Ele disse incrédulo.
- Você percebe? Matei a mãe de alguém, assim como uma pessoa pediu a morte do meu avô.
- Mas Gi, você não sabia... Eu também não... Puta merda! QUE PORRA! – Ele chutou a cadeira com raiva.
- Maldito doente de merda! – Ele disse.
- Eu vou confessar! Vou me entregar! – Ela disse.
Ele amarrou o cabelo e disse:
- De que adianta isso? Você não é culpada.
- Mas eu me sinto. Será que você não sente nada? Não percebe que uma pessoa morreu, apenas para satisfazer seu desejo de ver sangue? – Ela disse soluçando.
Aquiles puxou a cadeira que tinha chutado, sentou, apoiou os cotovelos sobre a mesa, e com as mãos no rosto, refletiu por um tempo sobre as palavras de Giane, enquanto ela chorava copiosamente.
- Vou com você... Mas antes vou avisar todo mundo. – Ele disse decidido.
- Será que vamos ser presos?
- Eu não sei Gi. Francamente, acho que não. Não somos culpados.
- Mas nós pedimos mortes...
- Era um jogo, um jogo como qualquer outro. Só não sabíamos o que acontecia por trás disso tudo. Meu pai é advogado, vamos sair dessa. – Ele disse enquanto digitava.
Giane recomeçou a chorar, Aquiles a abraçou com força.
- Vai ficar tudo bem. – Ele disse, sem a deixar ver as lágrimas, que brotavam nos olhos.
"Puta merda, não consigo imaginar, que gostei de ver aquelas pessoas morrendo, de forma tão cruel..."
- Vai ficar tudo bem. – Repetiu com voz embargada.

Por: Fernando do Amaral - 11/07/2014

Parte 7 – Chamas do desespero.

Com as mãos nos bolsos, ele olhava o corpo dentro do saco preto, que ainda estava aberto. Mexeu o cigarro com os lábios e deu um suspiro lacônico. – "Sei quem fez isso, sei o número da identidade, sei a cor favorita, a comida, o gosto musical, sei até os livros que o cara lia". "E por que em nome do sagrado, não consigo capturar o desgraçado?".
-... motoqueiro. O idiota tentou despistar, mas deixou o documento da moto. – Disse Jorge.
- O que? – Perguntou Oliveira irritado, por alguém atrapalhar seus pensamentos.
- Eu disse que a vítima era um motoqueiro. E nosso criminoso deixou para trás o documento do veículo, temos o que seguir agora.
Oliveira tragou fundo a fumaça, depois a expeliu pelo nariz.
- Nojento isso ai sabe? Parece que a fumaça sai com meleca... Ou a meleca fica com fumaça...
- A moto deve estar abandonada, em algum lugar. – Disse, ignorando o comentário do amigo.
- Abandonada?
Oliveira balançou a cabeça positivamente, e jogou fora o cigarro.
- Não estamos atrás de um criminoso comum. É um filho da puta que calcula, planeja e executa. Ele que confundir a polícia, assim como conseguiu com o Voyage.
- Então ele largou o carro aqui, com um corpo de propósito?
- Sim, para pensarmos que ele esta com a moto da vítima. Mas sobrou um detalhe, que ele não calculou.
- Que é?
- Uma direção. Ele podia ter fugido para qualquer cidade, e dificultaria nosso trabalho. Agora sabemos para onde o desgraçado foi.
O rádio tocou, era o delegado.
- Oliveira na escuta.
- Assim que voltarem da estrada, já para minha sala. – Falou o delegado.
Jorge encarou Oliveira.
- E agora? Reunião de última hora?
- Terminamos, por aqui. – Respondeu Oliveira no rádio. – Mas pretendíamos seguir o criminoso.
- Isso pode esperar. Temos um problema maior. Espero vocês aqui. – Falou o delegado, e desligou o rádio.
Os dois policiais se olharam, não entenderam o que podia ser mais grave que um psicopata, perigoso e solto na sociedade.
Enquanto Oliveira dirigia de volta para a delegacia, desabafou com Jorge.
- Eu não entendo. O cara era um sujeito normal de 35 anos, era bem empregado, tinha uma namorada, pais, amigos... Enfim, tinha bons relacionamentos, e então de repente fica louco e começa a matar pessoas aleatoriamente. E ainda filmar?
- Você queria um motivo? Do tipo, molestado na infância...
- Sei lá! – Interrompeu Oliveira. – Qual o motivo de um homem acabar com sua vida social, dessa forma? Não usava drogas, não tinha dívidas... Simplesmente enlouqueceu depois dos 30. Não faz sentido nenhum.
- Vai ver ele tinha um botão, e alguma coisa apertou o botão.
- Você sempre leva tudo na brincadeira, mas é como se fosse isso mesmo Jorge. – Argumentou Oliveira. – Parece que um botão foi acionado.
- Tipo um cyborg em o exterminador do...
- Humano, é um mistério. Às vezes me surpreendo, com a facilidade que um ser humano pode mudar. – Disse Oliveira cortando Jorge.
- E se ele cometia crimes antes, e só agora veio à tona?
- Difícil... Mas pode ser uma hipótese.

...

Tentou abrir os olhos, mas estavam vendados, tentou abrir a boca, mas estava amordaçado, tentou mexer os braços, mas estavam amarrados. As pernas também. Tinha acordado com alguém assobiando uma música, e depois de constatar que estava totalmente imobilizado em uma cadeira, debateu-se como pode. Ouvia os próprios gemidos sufocados pela mordaça, e ao fundo, o assobio.
"Que diabos?" "Calma, calma como cheguei aqui, o que aconteceu?" "Lembro-me de ter dado carona para um rapaz na estrada, conversamos durante o percurso, rapaz agradável, com uma história triste." "Lembro que depois de atravessar a entrada da cidade, paramos em um bar, lembro que bebemos muito, lembro que fomos à zona, e bebemos mais, com a mulherada; mas e depois?"
José um homem de 57 anos, motorista de um caminhão de carga, tentava lembrar enquanto forçava a corda. Sentiu uma dor aguda na cabeça e então lembrou.
"Foi uma pancada, depois que saímos de madrugada, alguém me deu uma pancada na nuca e eu desmaie." "Será que foi para roubarem meu caminhão?".
De tanto tentar livrar se das amarras, a cadeira inclinou e caiu, fazendo barulho e batendo a cabeça de José no chão.
Se ele pudesse gritaria de pavor. Cair amarrado no escuro deu a terrível sensação de impotência sobre si mesmo. Ele ouviu que o assobio cessou, e foi substituído por um breve silêncio, seguido de passos em sua direção.
Os passos pararam, e ele sentiu a presença de alguém muito próximo. E então mãos fortes o agarram pelo ombro.
Com a cabeça doendo e a sensação do mundo girando, estava novamente sentado.
"Cheiro de mofo." "Acho que estou em um depósito." "Maldita raça de ladrão, deveria me soltar e sumir de vez com o caminhão."
José tentava comunicar se com a pessoa presente através de grunhidos. Tentava dizer para soltá-lo, que não tinha dinheiro, e que podiam ir ao inferno com o caminhão, que não tinha visto a cara feia de ninguém. Mas tudo o que saia, era um som enrolado, quase inaudível.
Percebeu que não existia esforço algum, por parte do outro para que fosse entendido, e então um frio correu pelo corpo de José.
"Será que..." "Será meu Deus, que vão me matar?".
De repente, a venda foi tirada dos olhos. José fechou os olhos e ao reabrir, a primeira coisa que viu, foi uma câmera apontada para ele.
"Mas que... Porcaria está acontecendo?"
O homem que tinha tirado a venda, estava por trás, e então caminhou tranquilamente para frente.
Era um galpão, pouco iluminado com grandes janelas sem vidro, ainda estava de madrugada, talvez 03h00min horas. Poucos objetos tinham no galpão, e pareciam com entulhos há muito tempo deixados para trás.
Mesmo visualizando somente as costas do homem, ele soube quem era de imediato, era o rapaz para quem tinha dado a carona.

...

Oliveira estava fumando um cigarro do lado de fora, enquanto que Jorge esperava pacientemente sentado na cadeira.
A porta abriu com violência, era o delegado chegando de uma reunião.
Vicente seguira os passos do pai, a tradição de trabalhar garantindo a lei. Quando jovem, teve uma brilhante carreira policial, depois de graduado atingiu o que seu pai nunca alcançou, prestou para delegado e foi aprovado. Agora, concorria cargo político, com 40% de aprovação. Os anos, o tornou um homem impaciente, nervoso e pouco tolerante.
Jorge estava distraído, ergueu a cabeça e olhou assustado para o delegado entrando, de forma enérgica.
- Onde está Oliveira? – Perguntou frenético.
- Vou chamar. – Respondeu Jorge levantando se da cadeira.
Ele caminhou pelo corredor da delegacia, quando avistou a recepção, fez um gesto, reprovando a recepcionista por não ter avisado a chegada do chefe. Abriu a porta da área em que alguns passavam o tempo para fumar, ou falar no telefone. Oliveira estava fumando e falando ao telefone.
- O estresse chegou! E digo estresse MESMO.
Oliveira desligou o telefone e acompanhou Jorge até a sala do delegado.
Eles puxaram as cadeiras, e esperaram pelo o início do diálogo.
Vicente que conferia e-mails, desviou os olhos da tela para os dois policias.
- Como estão no caso do assassino?
Oliveira ponderou antes de responder.
- Mais uma vítima na estrada, um carro abandonado, e temos suspeita de que está refugiado em outra cidade próxima daqui. Com o apoio da polícia local de lá, podemos fechar as saídas e entradas, e captura-lo através do reconhecimento facial.
- Deu trabalho, mas agora é um rato no aquário. – Comentou Jorge.
- Outra cidade? Bem... – Vicente apontou o dedo sobre a foto de Erich, que estava em sua mesa. – Não era como eu queria que terminasse, mas nossa jurisdição acaba aqui.
Os dois policiais se entreolharam, confusos.
- Tenho uma coisa mais importante para vocês. Deixem o vagabundo para a outra cidade. De qualquer forma, ele está preso no estado. A identificação dele está correndo, será questão de tempo, uma denúncia anônima levar até ele.
- Mas, temos tudo para continuar... – Protestou Oliveira.
- Repassem tudo! – Interrompeu o delegado. – Sumam com qualquer prova sobre os corpos, e passem para outro distrito. – Ele apontou novamente para foto. – Este vagabundo, não é mais o nosso problema.
Oliveira segurou firmemente as pernas, como se estivesse obrigando o corpo não levantar da cadeira. Jorge olhava pensativo para o delegado, que abriu uma gaveta, tirou um jornal e entregou para os dois.
- Estão vendo essa página? Pois bem, é fruto da nossa última operação.
Era uma pequena matéria, uma repórter atrás de notoriedade, tinha descoberto os movimentos da polícia nos últimos dias, e sem saber a causa, afirmava que era uma operação de limpeza, antitráfico.
- Mas como essa vaca descobriu? Nenhum policial na ocasião usava farda... – Disse Jorge. – E tráfico? Da onde ela tirou essa ideia?
Vicente balançou a cabeça negativamente.
- Não sei como, nem de onde. O problema, é que ela conseguiu simpatizante através da falsa notícia, e estamos em campanha... – Ele parou, sentiu o olhar acusador de Oliveira. – É tempo de eleição, e o povo acredita em soluções mágicas.
- E então? – Perguntou Oliveira, temendo a resposta.
- Então que agora, a notícia é verdadeira. Ou a imagem da delegacia será denegrida. – Ele fez uma pausa, encarou os dois. – Montem uma operação, estourem as bocas de tráfico, e quero um ou dois cabeças do tráfico, presos.
Jorge olhou incrédulo para Oliveira, que imediatamente respondeu.
- Senhor delegado, sem querer ofender, sabe do tamanho dessa operação? Mesmo que seja bem sucedida, terá retaliação. Nossa delegacia, não está preparada para isso.
Vicente encarou Oliveira furioso.
- Como pode pronunciar tal palavra? RETALIAÇÃO? O senhor que jurou proteger a lei tem medo de vagabundo?
- Desculpe por isso, não tenho medo de bandido. – retratou Oliveira. – Mas não temos outra forma de enganar o público quanto a isso? Veja bem, ocultamos três mortes e um psicopata...
- Não enganamos ninguém. Protegemos! É diferente. E agora você tem uma ordem, vai cumpri lá?
Antes que Oliveira respondesse, Jorge comentou para acalmar os nervos.
- Talvez seja uma notícia perdida, isso saiu ontem, talvez ninguém dê atenção.
- Negativo! – Vicente virou a tela do computador. – Já estão espalhando a notícia, estamos fazendo a faxina geral na cidade, é o que diz no site giro da cidade.
Oliveira o encarou.
- Sim, estamos fazendo a faxina, até a sujeira correr para outra cidade, daí não é problema nosso.
Vicente gostava de Oliveira, era um investigador dedicado e justo, o fazia lembrar-se de quando era assim. Mas a oportunidade de subir nas pesquisas, falava mais alto e provavelmente não teria outra vantagem sobre os concorrentes. Em favor da campanha, não daria ouvidos para o policial.
- Não me importo com seu idealismo. Faça seu trabalho, e me poupe do seu papo moralista. – Disse o delegado severamente. – Com essa notícia espalhando por ai, o que você acha que irá acontecer? Ou agimos primeiro, ou os traficantes, começam a mandar recados para nós.
- Recados? – Perguntou Jorge sem entender.
- Isso. Não quero saber de viatura alvejada, ou policial baleado.
Oliveira dispensou um olhar irônico para Vicente, pediu licença e saiu da sala, acompanhado de Jorge.
- Acho que em partes, ele tem razão. – Comentou Jorge. – Se os traficantes acreditarem na notícia...
- Puro interesse político. – Disse Oliveira. – Ele está claramente aproveitando a oportunidade para subir os pontos. Traficante, não dá a mínima para boatos de jornais.
- Mas pelo visto, partido político sim.

...

"Não dê carona para estranhos!" – Foi à primeira coisa que José pensou enquanto o homem ajustava a câmera na sua frente.
"Por que não seguir pequenos conselhos?"
Depois que o homem ajustou a câmera, ele virou o rosto para José, que até então, tinha reconhecido o outro, apenas pelas costas.
Quando ele viu o homem de frente, usando uma envelhecida máscara de solda, sentiu um arrepio que jamais acharia que sentiria naquela idade.
Ser amarrado, amordaçado e ter o caminhão roubado, sem dúvida, eram o menor dos problemas. Naquele momento sombrio, a máscara de solda indicava que algo pior, estava para acontecer.
Em vão, José tentava gritar e soltar se das amarras. Ele arregalou os olhos, quando o outro pegou um galão no canto do galpão e caminhou em direção a ele.
Enquanto caminhava, voltou a assobiar a música. Que no momento, seja qual for à música, era perturbadora.
Mesmo com alguns metros de distância, ele sentiu o nítido cheiro do conteúdo no galão, era sem dúvida, gasolina.
Tomado por total desespero, tentava a todo custo libertar-se das amarras. Os braços, pernas e pescoço doíam por causa do atrito com a corda, talvez a pele estivesse em carne viva.
Se o desespero pudesse ser medido, o nível em José teria atingindo o maior grau quando ele sentiu o combustível cair livremente em sua cabeça, e escorrer por todo o corpo. Sacudiu tanto o corpo, que a cadeira pendeu e tombou novamente.
Ele mal sentiu dor, quando a cabeça bateu no chão, seus sentidos estavam todos ligados na gasolina, que parecia queimar antes do fogo.
O homem com a máscara de solda, terminou de derramar o combustível, e soltou o galão perto do rosto de José, que resmungava e lutava como podia.
O barulho do impacto do galão no chão, distanciou para muito longe as esperanças de José, ele sentia o cheiro do combustível, sentia a pele formigando, vontade de vomitar, ardência nos olhos e a respiração dolorida. Cansou de lutar e de implorar... Resignado, fechou os olhos com força e levou o pensamento para os melhores momentos que vivenciou, relembrou o amor que tinha pela família, e antes que lágrimas lavassem o combustível das pálpebras, começou a rezar com a mordaça na boca.
"Pai nosso que estai nos céus,"
Ele ouviu o barulho da caixa de fósforo.
"santificado seja o vosso nome,"
Ele ouviu a fricção da cabeça de fósforo.
"Vem a nós o vosso reino,"
Ouviu o assobio da música. E não concluiu a prece, pois o barulho das chamas no próprio corpo o desconcentrou.
A dor, surgiu depois do susto e do calor momentâneo. Ouviu o trepidar e o inconfundível cheiro de cabelo queimando. Sentiu a gordura corporal ferver, enquanto tinha a sensação, que milhares de agulhas picavam impiedosamente a sensível pele.
O ardor já estava tirando a consciência, mas sufocado com a fumaça da própria carne, o clarão vermelho do fogo, apagou para ele. E assim morreu José, inalando a si mesmo em chamas.

Por: Fernando do Amaral - 19/07/2014

Parte 8 – O Acordo.

Antes.
- O senhor gosta de fazer filmes? – O caroneiro perguntou, olhando para a câmera no banco.
- É do meu sobrinho, ele pediu para gravar a estrada. Diz que irá usar em um trabalho ou coisa assim...
- Interessante. – Ele pegou a filmadora. – E é uma boa câmera, eu gosto de fazer filmes.
- Para onde vai bom rapaz? – Perguntou o motorista do caminhão, atento com a curva perigosa.
- Preciso por minha cabeça no lugar, não sei bem para onde... – Respondeu o caroneiro colocando a câmera de volta no banco.
- Erich seu nome, certo?
- Sim. Meu nome é Erich.
Ele passou a marcha, aproveitou que a estrada estava livre e descansou o pé no acelerador.
- Confesso que fiquei com receio de te dar carona. – Comentou. – Mas eu estava solitário aqui e então...
Erich riu.
- Agradeço muito senhor... ?
- José.
- Senhor José. Eu agradeço. – Repetiu. – O senhor deveria ter uma espécie de copiloto... Aliás, já não deveria estar aposentado?
O homem ao volante deu uma gargalhada e disse:
- Ah meu jovem... Não sabe como é a previdência social... Quer um conselho? Fique rico antes de envelhecer, se não conseguir, não invista em nada, assuma a pobreza e tenha dinheiro.
- Como assim?
- É melhor ser um pobre com dinheiro, do que ser um enganador.
- Enganador?
- É enganador. Sabe essas pessoas idosas, que tem carro, casa e outras coisas, mas não são ricas?
- Sei, sim. Tipo meus pais... Ou como eram.
- Então, pessoas assim têm bens, para qual dedicam toda a aposentadoria, por isso nunca tem dinheiro de verdade.
- É uma opinião. Opinião forte na verdade. Mas ainda acho que vale adquirir bens, independente do que o futuro aguarda.
José balançou a cabeça positivamente, mudou a marcha e perguntou:
- Mas deixa disso, e me diga. O que te aconteceu? Por que precisa colocar a cabeça no lugar? E qual o sentido de vagar por ai na estrada?
Erich suspirou, olhou para o teto do caminhão, depois para estrada e então contou:
- Eu sou filho único... Ou era. Enfim, sempre morei com meus pais e tínhamos um ótimo relacionamento. Aprendi tudo com meu pai, e minha mãe, não tem o que falar sobre ela. – Ele fez uma pausa, e deixou umas lágrimas caírem. – É difícil falar sobre isso.
José reduziu a velocidade do veículo.
- Jovem, se não quiser, não fale sobre o que te fere. Mas fique a vontade se preferir desabafar.
- MATEI TODOS ELES! – Disse Erich chorando.
José olhou assustado.
- Sabe o que eu fiz? Eu ia sair, e minha mãe pediu para eu trocar o gás. Como estava com pressa, troquei de qualquer jeito e sai de casa. E quando eu voltei à noite...
Erich não terminou de falar, ficou debruço sobre as pernas e recomeçou a chorar.
- Jovem, sair caminhando por ai, como punição, não adianta. Você não teve culpa, foi um acidente. – Disse José lentamente.

Agora.
Ele chutou as cinzas, ainda tinham ossos.
"Como é fedorento."
Erich apertou mais o pano no nariz, para não sentir o cheiro. Jogou mais gasolina sobre o que restara do corpo e riscou o fósforo novamente.
"Matar é fácil, é quase uma brincadeira, mas sumir com o corpo é trabalhoso, complicado e perigoso." – Pensou enquanto admirava os ossos queimando. – "O plano inicial era bom, bastava matar, abandonar o corpo, denunciar o crime para a polícia e pronto; sem jornalistas, sem sensacionalismo, sem comprometer o jogo."
Ele verificou o filme na câmera.
"O jogo..." "Como será que anda meu site favorito?"
Depois de empurrar o resto das cinzas junto dos entulhos, ele colocou a máscara de solda embaixo dos braços e abandonou o local.
"Saudades da minha antiga máscara, porém gostei dessa coisa..." – Ele admirou a lente da máscara de solda. – "Com certeza é assustadora, o rosto de repulsa do velho, não deixou dúvidas."
Os primeiros raios de sol, despontavam na madrugada, refletidos pelo vidro do caminhão.
"Posso vender essa droga no desmanche, ou deixar por aqui mesmo..." – Ele abriu a porta do caminhão, e examinou o interior – "Aliás, com minha foto rodando por tudo que é canto, não resta muito a não ser roubar." "Roubar e jogar... Como gosto de jogar..."

...

"- Você precisa parar de fumar" – Era o impertinente conselho da esposa.
Mas ele tinha aumentando o número de maços nos últimos dias.
No momento Oliveira alternava com a mão direita, um cigarro e uma caneta.
O documento que Jorge deixara na mesa, não trazia um resultado positivo. Continham planos de estratégia para invadir os pontos de tráfico. O problema era que todos os pontos estavam bem organizados, e que dificultaria a ação.
- Não sabemos quantas armas enfrentaremos... – Ele disse apoiando os cotovelos na mesa.
- Nem o calibre. – Completou Jorge.
O capitão Roberto estava encostado no armário, de braços cruzados, olhou nos olhos de Oliveira e comentou:
- Essa operação é um risco. Durante e após. Você precisa garantir que o pelotão não ficará sobre fogo cerrado.
- Acredite capitão. Disso eu sei. – Disse enfático, relendo o documento.
O telefone tocou e os três homens da lei olharam para o aparelho, como se o telefone tivesse causado uma contravenção.
- Oliveira falando.
- É sobreo caso em aberto. Parente de uma vítima revelou ter informações importantes...
Ele desligou o telefone e apressou os passos para a porta, abandonando o documento.
- O que acontece? – Perguntou Jorge.
- Talvez, uma luz! – Disse abrindo a porta.
Jorge e Ricardo seguiram.
Acompanhada por Aquiles, ela tremia. Era visível a tristeza e preocupação em seu rosto.
- Eu conheço você! Você esteve aqui com seu... avô?
Giane olhou para o policial, ele também tinha uma grande preocupação estampada no rosto, parecia alguém que estava há muito tempo sem dormir.
- Sim, meu avô... – Disse com timidez.
- Certo! Acompanhe-me até a sala, por favor.
- Posso ir junto? – Perguntou Aquiles.
- Sim. – Respondeu Oliveira.
Dentro da sala de interrogatório, ela sentiu vontade de chorar. Abraçou a si mesma, olhando para o ansioso, porém comedido olhar de Oliveira. Ele a estava interrogando, sem pronunciar uma palavra.
- Faz um tempo, eu não sei bem quanto...
- Algumas semanas, mais ou menos. –Interrompeu Aquiles.
- É. – Ela concordou. – Acessei um site sobre um jogo. No jogo, devíamos criar um personagem, montar uma pessoa e depois de criar o personagem, tinha a opção de escolher uma morte.
- Escolher? – Perguntou Jorge.
- Descrever como o personagem deveria morrer. – Afirmou Aquiles.
Oliveira balançou a cabeça negativamente. Reprovando o que acabara de ouvir.
- Quando eu vim buscar meu avô, vi no mural, a foto da mulher desaparecida. E ela é a mesma mulher que eu vi no vídeo do jogo... Assassinada. – Ela fez uma pausa. – Minha personagem, era real. Causei a morte de uma inocente, e estou me entregando. – Ela exibiu os pulsos sobre a mesa, fazendo o gesto de quem esperava por algemas.
- Eu sou o verdadeiro culpado. Apresentei o site para ela. – Disse Aquiles.
Oliveira olhou demoradamente para os dois antes de perguntar.
- E onde você conheceu o site?
Aquiles contou a breve história da biblioteca. Jorge saiu da sala e voltou com um notebook.
Acessaram o site killthegamecharacter.com, e usando o usuário de Aquiles, assistiram sem acreditar na macabra finalidade do assassino.
Oliveira fechou o notebook, estava enojado.
- Não sou quem decide. Mas vocês são inocentes, não sabiam do que se tratava o site, e pecaram por curiosidade. Mesmo assim, minha vontade era mandar ambos para a investigação. Hoje agradeço pela confissão. Deixem seus dados, dependendo das circunstâncias serão chamados.
- Estamos livres? – Perguntou Aquiles.
- Sim, avise para os prováveis amigos para qual indicou essa porcaria. O site está sobre investigação, e a partir de hoje, qualquer atividade nele, será criminosa. – Respondeu de mau humor.
Depois que os dois saíram da sala, Jorge comentou:
- Agora sabemos, e nada faremos.
- Não penso assim. Acho que encontrei a solução para nossos problemas.
- Devido ao site?
Oliveira afirmou com a cabeça, de forma misteriosa.

...

Ele era conhecido como Taio, poucos sabiam o nome verdadeiro. Era um homem negro, conhecido por muitos e sua foto estava pregada na delegacia, com o rótulo: Cabeça do tráfico.
Com exceção do tráfico e da cicatriz que cobria parte do rosto, Taio era um homem comum, que gostava de samba, futebol, feijoada e cerveja.
No momento, ele estava em um bar, conhecido como Boca-da-fava, lugar alto e movimentando que dava uma visão quase inteira da favela.
De chinelo, bermuda e camisa vermelha, ele estava sentado, com um copo de cerveja na mão. Junto com ele estavam, Zé Doze, Luca, Magão e Branco Preto. Todos armados.
Em volta do bar alguns garotos entre 15 e 18 anos, soltavam pipa, andavam de bicicleta e conversavam. No entanto, a atividade descontraída ocultava uma arma carregada, na cintura de cada um deles.
Taio falou para Branco Preto.
- Tá tremendo maluco?
Branco Preto negou apreensivo e os outros três homens riram.
Longe dali, em uma janela de um cômodo vazio, um garoto espiava a favela com um binóculo, ele riu quando um homem tropeçou e deixou uma caixa cair. Segundos depois, ele avistou o Corsa branco passar pela entrada da favela, ele focou nos passageiros e tremeu.
O carro podia não ter nenhuma identificação, nem os passageiros. Mas era inconfundível o "ar policial" que existia naqueles homens dentro do carro. Ele pegou o rádio, ao lado do rifle, apertou o botão e falou:
- Polícia na quebrada.
Imediatamente depois do Corsa entrar, surgiu um Golf verde da viela, com quatro passageiros e seguiu o Corsa.
Uma moto com dois homens, entrou na frente do Corsa, obrigando o motorista parar. O homem de garupa na moto encarou os dois homens do carro, e depois fez um gesto, indicando para o motorista seguir a moto.
- O boato que rolou por ai, deve ser verdade. – Comentou Magrão.
- Se fosse, estaria entrando o Caveirão aqui. – Respondeu Luca.
- Tranquilo ai. Hoje o papo é responsa. – Disse Taio, para acalmar os homens.
Zé Doze foi para o lado de fora do bar e fez um gesto para os rapazes liberarem passagem.
O carro branco parou na frente do bar.
A porta do passageiro abriu, e Jorge foi o primeiro a colocar os pés fora do carro. Oliveira desligou o motor e saiu em seguida. Ambos armados e de colete.
Eles caminharam até Zé Doze, que avaliou os dois policias, e fez um gesto com a cabeça para adentrarem.
- Não eram três de vocês?
O terceiro estava a poucos quilômetros, olhando para o cronômetro, em um camburão blindado e com cinco policias, prontos para agir.
- Não pode vir. – Respondeu Oliveira.
O bar era pequeno e bem arejado, com exceção dos quatro homens e de um velho magrelo e cabeludo atrás do balcão, o lugar estava vazio.
Taio estava sentado de frente para a entrada, em sua mesa tinha um baralho, copos, garrafas de cerveja, uma faca de caça e uma garrafa de vodca.
"Se eu não mato, eu morro.
E se corro, a moral não ficava de pé.
Preferi dar um tiro na cara do cara
que me achou com cara de zé mane." – Tocava o rádio no fundo.
Luca desligou o rádio, enquanto Branco Preto empurrava duas cadeiras para os dois visitantes.
A porta do bar desceu com força, fechando o bar.
"Que é?" "Será que acham que somos uma dupla de Rambos?" – Pensou Jorge.
Oliveira parece que leu os pensamentos de Jorge, quando olhou para ele, como se pedisse para manter os comentários jocosos para ele.
- Vamos desenrolar? – Perguntou Taio de forma direta.
Oliveira refletiu, olhando diretamente para cada um dos homens, nenhum deles fazia menção que estavam armados.
- Deve estar sabendo da operação. – Comentou Oliveira olhando diretamente para a cicatriz de Taio.
- Então é verdade? – Perguntou Taio inquieto.
- Dependendo do resultado da nossa conversa, sim.
- Vocês não tem pólvora pra me encarar não. – Disse Taio colocando o revólver na mesa. – Se fosse verdade, não colocariam suas caras aqui não.
Oliveira colocou a mão por dentro da camiseta, os três homens ficaram em alerta, e Jorge cruzou os braços, olhando de forma debochada para os três.
Oliveira tirou um envelope e jogou em cima do revólver de Taio.
- É o mandato de operação e os distritos que farão parte. E logo abaixo, é a confirmação da força de operações especiais. E acredite! Você não vai querer falar de pólvoras com eles.
Taio leu todo o documento e passou para Luca. E então perguntou:
- E vocês? São o que? Mensageiros do inferno?
Jorge esboçou um riso, e Oliveira respondeu:
- Não queremos o inferno. Eu vim evitar que aconteça. Meu filho vai nascer daqui quatro meses, eu não quero ter furos no corpo quando ele nascer.
Taio olhou pensativo, guardou o revólver e disse:
- E como será isso? Quer que eu me entregue?
- Sim. – Disse Oliveira. – Mas não exatamente você, precisamos prender um patrão, e para o público, qualquer um pode ser o patrão.
Jorge tirou uma foto do bolso e a colocou na mesa.
- Basta que vocês me entreguem o cara. A operação vem aqui, troca uns tiros falsos e vão embora com esse homem dentro do camburão. Tudo filmado e documentado no jornal das sete. – Oliveira fez uma pausa para acender um cigarro. – E você alivia por algumas semanas as atividades, tempo para os jornais gastarem a notícia.
Taio pegou a foto e olhou pouco interessado.
- E quem é?
- É um matador. Um maldito psicopata.
- E qual a treta? Porque não vão atrás do cara.
- Você Taio, a prioridade agora é você. – Disse Oliveira de forma direta, tinha pensado em mentir, mas falar a verdade foi oportuno.
- Por que querem minha cabeça? O que tá pegando?
"Vai ver, é porque não pagou sua assinatura de Tv." – Pensou Jorge.
- Não é da sua conta. – Respondeu Oliveira.
- E onde tá? – Perguntou Taio apontando para a foto.
- Em uma cidade perto daqui. Uma, que sabemos que você tem negócios. E Taio, esse cara é um problema para seus negócios também. Enquanto ele estiver agindo, terá patrulha em lugares que você não quer.
Jorge olhou o relógio e falou a frase combinada.
- O tempo corre, hora de ir.
Ambos levantaram, Oliveira olhou para Taio, esperando a confirmação.
- Fale a cidade em que ele tá, e voltem daqui a dois dias. Façam o agá de vocês e sumam.
- Deveria me agradecer Taio, estou salvando sua pele. – Falou Oliveira.
Taio riu e comentou:
- Você é quem deve me agradecer. Pensa que não sei do blindado lá fora, com seis berros prontos pra entrarem aqui? Um sinal meu, e vão testar a blindagem com bazucas.
Jorge deu os detalhes, e depois saíram do local, já tinham concluído a conversa e Oliveira não estava interessado em prolongar qualquer assunto. Dentro do carro, Jorge perguntou:
- Como será que esses vermes descobriram nosso plano de resgate?
Oliveira pisou no acelerador, estava com dois sentimentos contraditórios. Sentia alívio por o plano ter dado certo, e repulsa de si mesmo, por ter que negociar com traficante.
- Não quero uma invasão, por esse motivo. É uma vergonha admitir, nosso batalhão não tem chances.
- Por falar nisso, ainda bem que engoliram o papo da força de operações especiais.
- É... Ainda bem.

Por: Fernando do Amaral - 28/07/2014

Parte 9 – A caça.

Quando Emílio soube que Erich estava na cidade, pediu imediatamente pra voltar ao trabalho. De princípio, teve o pedido negado, mas devido à insistência, conseguiu pegar o caso.
E no momento, ele conversava com um frentista apreensivo, vítima de um assalto.
- O cara parou aqui, mandou abastecer e na hora de pagar surtou!
- Surtou?
- É enfiou uma quadrada na minha cara, disse pra eu passar todo o dinheiro do caixa.
- E como ele estava?
- Armado ué!
Emílio olhou para o caminhão, que estava sobre verificação dos outros policiais.
- Saiu correndo e deixou o caminhão para trás?
- Sim. Como pode alguém fazer assalto, de caminhão?
- O indivíduo, era igual à pessoa da foto? – Perguntou Emílio exibindo a foto do Erich.
O frentista olhou a foto por alguns segundos, e respondeu emocionado.
- Sim. Era é esse mesmo!
- Para qual lado ele correu?

Dentro do carro, a policial Ana Luiza, parceira de Emílio, perguntou:
- Me permite perguntar?
- O quê? – Emílio olhou para ela. – Está pensando que voltei cheio de frescuras, depois de ser baleado?
Ela riu.
- Tem razão... Esse caso é pessoal?
Emílio lançou um olhar encabulado.
- Cara. Você estava de licença, e sabemos os motivos. E então depois entra em um caso, em que o criminoso é responsável por essa tipoia... Que, aliás, te deu charme.
- Sou casado viu? – Respondeu Emílio rindo.
Ambos fizeram um breve silêncio e então Emílio quebrou o silêncio dizendo:
- Ana seria mentira se eu negasse. O cara é um maldito psicopata, ia queimar um senhor de idade, vivo.
- Eu sei... Os policias de todas as delegacias, sabem.
- É mais somente um, ficou frente a frente com o nojento.
Ana Luiza ligou a sirene e acelerou a viatura.
- Viu algo?
- Está vendo aquele cara? Aquele de boné, mochila e andar suspeito... Pode ser nosso cara.

A viatura bloqueou o rapaz na calçada, um policial e uma policial abordaram o pedestre, e alguns minutos depois liberaram o rapaz. De dentro dos estabelecimentos, as pessoas curiosas observaram a ação policial. Em um Lan House do outro lado da rua, a maioria dos usuários, foram para o lado de fora, entre eles estava um homem de casaco, cabelo raspado e olhos castanhos. Com as mãos nos bolsos, ele fixou os olhos no policial com a tipoia. – "Será?" "Não, é muita coincidência, não pode ser..."
Ele balançou a cabeça e voltou para o computador. – "Mais importante que paranoia, é saber como diabos a polícia descobriu sobre o meu site, e meu jogo."
Erich digitou o endereço novamente no navegador, como se esperasse um resultado diferente, mas o que exibia era uma tela com informações da policia.
O site está sobre investigação. Seu IP foi rastreado, e a partir de agora está sobre averiguação.
- Porra! – Ele disse em voz alta esmurrando o teclado.
"Se não posso upar meus vídeos, e não posso continuar meu jogo, para que sirvo afinal?".
Ele saiu da Lan House furioso, tinha feito um enorme esforço para não associarem os crimes com o site killgamecharacter.com e tudo tinha ido por água a baixo.
"Como vou abrir outro site, sem identidade?" "E como descobriram?"

...

- Como assim Emílio? – Perguntou Oliveira para Jorge.
- Pois é. O cara encarregado para o caso, do cremador de velhinhos é Emílio. Puta coincidência, eu diria... – Jorge coçou o nariz. – Acho que o universo está tirando uma com nossa cara...
- Talvez, se conversarmos com ele, e explicar a situação. Pode ser que não se envolva. – Disse Oliveira pensativo.
- Tá brincando? Qual tipo de pessoa, que em luto, durante a folga encararia um psicopata no meio do nada? – Disse Jorge. – O tipo como você! Imagine o que você faria se um policial informasse que fez uma espécie de pacto com um cabeça do tráfico, para entregar outra pessoa no lugar...
- É. Tem razão, eu ia achar estranho. E causaria problemas... Mas o que faremos?
- Bom você plantou a rosa, prepare-se para os espinhos.
- Virou filósofo? – Perguntou Oliveira de mau humor.
- Posso atrapalhar a operação de Emílio com dados falsos, e torcer para que o psicopata caia nas mãos do Taio. – Disse Jorge.
- Tem ideia de como fazer isso?
Jorge deu de ombros.
- Óbvio, antes nos inteiramos do andamento da operação deles, se estiverem no escuro...
- Podemos inventar que de alguma forma, ele voltou para nossa cidade. – Completou Oliveira.
- Não pensei nisso, mas é uma ótima ideia. – Jorge balançou a cabeça. – Se acreditarem, é uma excelente ideia.

...

Vire! – Ordenou Emílio. – Dê a volta, alguém acabou de acessar o site do criminoso. E o endereço é por aqui.
- E se for só outro usuário? Pode ser qualquer um... – Disse Ana Luiza entrando na contra mão.
- Não me importo, vamos assim mesmo.
Eles pararam em frente da Lan House, informaram que se tratava de uma operação policial e pediram informações sobre os usuários.
- Não tem como saber. O número de IP que vocês me forneceram, é do servidor, pode ser qualquer computador... Vocês não tem o media access control? – Perguntou o atendente.
Emílio e Ana Luiza se olharam.
- O que é isso? – Perguntou Ana.
- Deixa disso. Você lembra se algum cliente seu, parece com essa pessoa? – Disse Emílio mostrando a foto de Erich.
O atendente pegou a foto e a observou por um longo tempo antes de dizer.
- É um pouco difícil reconhecer, mas entrou um cara aqui, parecido com esse. Mas ele tinha a cabeça quase raspada, não tinha tanto cabelo assim... Usava um casaco verde. E era meio estranho, falou comigo o tempo todo olhando para baixo, parecia que não queria ser visto.
- Quanto tempo saiu? – Disse Ana Luiza pegando o rádio.
- Acho que uns quinze minutos...
- Avise! – Ordenou Emílio. – O filho da puta não pode ter ido longe.

Encostado em um taxi, ele observava os policiais saindo da Lan House.
"Quem diria, com certeza, estão na minha cola." "Preciso bater asas e sumir dessa cidade."
- Para onde? – Perguntou o taxista.
Erich afundou o corpo no banco de trás, pegou uma quantia de R$200,00 e colocou nas mãos do taxista.
- O que me diz? No momento só quero relaxar um pouco, vou tirar uma soneca aqui por umas duas horas, e depois quando eu acordar, você liga o taxímetro e me leva para longe daqui.
- Duzentos contos pra dormir no meu carro? Feito. Mas vê lá. Se quiser ir pra algum lugar depois, terá que pagar a corrida.
- De acordo. – Disse Erich ofertando uma nota de R$50,00. – Mais isso se prometer que ninguém perturbará meu sono.
O taxista pegou a nota de dinheiro, sorriu e disse:
- Nem o papa te acordará. Durma em paz.

O nome dele era Getúlio para a maioria das pessoas, mas para o mundo do crime, era conhecido com o Xerife. Dono de uma concessionara andava sempre de terno elegante e muito discreto com as atividades paralelas.
Ele era quem dava as ordens, era quem ditava as regras e controlava os ladrões e traficantes da região. E ele devia satisfações somente para uma pessoa; certo homem da pele negra, com uma enorme cicatriz no rosto, Taio.
- Então tenho que me preocupar com esse ninguém. – Ele disse olhando para a foto de Erich.
- Taio disse que esse cara ai, pode abalar tudo. – Falou um adolescente de cabelo tingido de amarelo.
- Que seja! Se o cara está aqui, e foragido "dos home", uma hora vai aparecer tentando vender alguma tranqueira, e é ai que se fode. – Ele olhou para um rapaz vestido de azul. – Avise todo mundo, não quero esse mané atrapalhando meus negócios.

Erich realmente dormiu, por uns vinte minutos.
Depois do cochilo, continuo deitado no banco de trás do taxi. Com os olhos fechados, fingindo dormir, arquitetava algum plano. A verdade, é que estava totalmente perdido. A única coisa da qual tinha certeza, é que deveria manter a calma.
Não podia mais usar o site, não fazia mais sentido filmar mortes, os policiais estavam atentos, provavelmente vigiando as entradas e saídas da cidade.
Existia somente uma opção, viver oculto e esperar esfriar o assunto.
"Onde posso me esconder?"
Mas Erich já sabia da resposta, existem vilas que é possível alugar um cômodo, e ninguém faz perguntas. E o dinheiro, é o mais fácil quando se sabe usar uma arma.
Ele abriu os olhos, viu que o motorista estava conversando com outro taxista. Observou que aparentemente as ruas estavam calmas. Fez um gesto para o motorista do taxi e esperou.
- E então? Para onde vamos? – Perguntou o taxista.
- Me leve até o quilômetro vinte um.
Durante o percurso, Erich ficou calado, estava frustrado e cansado. O taxista, por outro lado, parecia muito interessado em conversar. E narrou várias histórias sobre a vida por trás do volante. O passageiro, a tudo ouvia e respondia com um falso sorriso.
Quando estava próximo do local, Erich pigarreou e disse:
- Perdoe o meu silêncio, normalmente gosto de conversar. Mas hoje, estou bastante desmotivado.
- Ora, não ligue para isso! Eu que peço desculpas pelo falatório.
Erich sorriu um sorriso medonho.
- Bom que seja compreensivo. Então compreenderá que estou armado, e posso facilmente te matar, levar o carro e deixa-lo por aqui. Mas não farei nada disso, se devolver meu dinheiro, junto com tudo o que tem ai.
O taxista gargalhou.
- Você tem senso de humor. Negro, mas é um bom senso de humor. – Ele virou para olhar Erich, e o coração quase saiu pela boca, quando viu o cano de aço encostar-se ao seu nariz.
- Vai São Tomé. Pare ai e faça o que te digo, e não morre. Ou reaja e morra, pra mim tanto faz. Se não fosse por economia de bala, você já estaria morto.
As palavras eram mais frias que o cano do revólver, diante a isso, o taxista pegou todo o dinheiro que tinha e entregou para o homem.
- Boa viagem. – Falou Erich saindo do táxi.
Ele poderia ter matado o motorista, mas a verdade, é que a prioridade era desaparecer e deixar um defunto para trás, não era uma boa ideia.
Ele desceu a rua de terra, tinha um borracheiro na entrada. O quilômetro vinte e um correspondia com a quilometragem da rodovia, mas era também conhecida como um pequeno vilarejo, que estava em expansão nos últimos anos. Algumas casas estavam em situação irregular com a escritura na prefeitura, e existiam alguns trechos, muito semelhante com favela.
- Estou procurando uma casa. Para alugar, conhece alguma? – Perguntou Erich para um homem que fazia reparos em um fusca branco.
O homem apontou o braço grosso, sujo de graxa, e disse:
- Vai até o final da rua, e fala com o João do gás.
Erich agradeceu e caminhou para o lugar indicado.

...

- E está precisando de ajuda? – Perguntou Jorge no telefone para Emílio.
- Perdemos uma oportunidade hoje. Se ele desconfiar que o número do IP, pode ser rastreado, o site perderá a utilidade. E então precisaremos de ajuda.
- Creio que depois que ele ver aquela mensagem no site, saberá e não acessará mais. – Disse Jorge.
Emílio suspirou.
- Eu sei, mas não tínhamos outra opção. Aquela imundice não podia ficar publica.
- Isso é... Vou desligar Emílio, precisando da liga da justiça, é só ligar.
Jorge desligou o telefone e falou para Oliveira:
- Estão na cola dele.
- Vamos esperar, o assassino é esperto. Ele sumirá, e quando a pista esfriar, colocamos nosso plano em ação.
- Mas e se antes disso, os capangas do Taio o encontrarem?
- Então será ponto nosso.

...

Era quase 02h00min da noite, quando ele entrou em um lugar conhecido como, o armazém, mas que de armazém não tinha nada. Era um beco, escuro e fedido. Tinha algumas pessoas noturnas por ali, a grande maioria usando algum tipo de droga. No meio tinha uma barraca montada com caixas e lona, ali tocava funk e vendia bebidas. O homem de boné branco, encostado na parede com um cigarro não mão, conversava descontraído com uma menina, no máximo de 18 anos. Ela usava um vestido justo amarelo, que deixava amostra mais da metade dos seios. Parecia um pouco dopada.
Ele caminhou até o homem de boné branco, e dois homens entraram na sua frente, barrando a passagem.
- Negócios. Preciso encher o tambor de um três oitão.
- Está armado?
- Não.
- Sabe o que vai te acontecer, se eu encontrar, certo?
- To sabendo. – Disse Erich, abrindo os braços e pernas para ser revistado.
Depois da revista, ele percebeu que o homem de boné branco não estava mais ali. E seguiu o homem que permaneceu em silêncio.
Ele foi conduzido para uma pequena casa, próxima do beco. Quando entrou no cômodo, tinha uma mesa e duas cadeiras, em uma delas, estava sentado o homem de boné branco. Seguindo a orientação, sentou de frente para o homem.
- Eu cobro caro. – Disse o homem, sem levantar a cabeça, e sem olhar para Erich.
- Preciso de duas caixas de balas para 38.
O homem levantou a cabeça e encarou.
- Duas?
Erich confirmou, e então notou um estranho brilho nos olhos do outro. Como se o homem acabasse de receber uma boa notícia. Ele fez um gesto com a mão e Erich foi segurado por dois homens.
- Mas o que... ? – Falou Erich surpreendido.
- É que de repente, o prêmio é meu. – Disse o homem de boné branco rindo. – Chamem o Xerife.

Por: Fernando do Amaral - 06/08/2014

Parte 10 – Estocástico.

- Então, esse é o grande problema do Taio? – Perguntou Xerife de pé, com os braços cruzados, olhando para Erich amarrado a cadeira.
- Agora só falta transportar. – Disse o homem de boné branco.
Xerife deu a volta na cadeira, observando Erich.
- O que você fez para ser tão procurado?
Erich não respondeu, estava disfarçando um comportamento frio, mas na verdade, estava sentido medo.
"Taio, eu sei quem é..." "Mas o que será que ele quer comigo?"
Ele olhou para os homens da sala, que o examinam como se ele fosse uma espécie de troféu.
"Será que matei alguém importante, para Taio?" "Se for isso, é o fim da linha"
- Como vamos transportar o cara? As estradas estão todas bloqueadas.
Xerife pensou por um tempo, antes de responder.
- Usaremos o caminhão, das encomendas que enviamos todo mês... E de uma caixa maior para ele.
Erich percebia que estava ficando sem saída, tinha que pensar em uma forma de não chegar às mãos de Taio. Das piores possibilidades, ser preso é melhor do que morrer.
Todos saíram da sala, apagaram a luz e trancaram a porta.
Erich ficou sozinho, no escuro e amarrado. Sua mente trabalhava duramente.

...

- Algo aconteceu ontem? –Perguntou Emílio logo de manhã.
- Assaltos, um homicídio, pichadores, acidentes, brigas domésticas... O que você quer? – Disse Ana Luiza.
Emílio colocou o copo de café na mesa, colocou açúcar e mexeu.
- É impressionante a dificuldade, em fazer qualquer coisa com o braço assim... – Ele tomou um gole do café. – Vamos apostar nos assaltos, qualquer um na região que ele estava ontem.
Ana Luiza disse:
- Uma banca de jornal, um pedestre e uma farmácia.
- O pedestre. Nas condições de Erich, é o mais fácil de ser assaltado.
Ana Luiza ficou um pouco pensativa, examinou outro boletim e disse.
- Tem um taxista, foi assaltado no quilômetro vinte um. – Ela fez uma pausa. – Adivinha o ponto dele?
- Onde? – Perguntou Emílio interessado e tomando o café de vez.
- Do outro lado da rua, da Lan house que visitamos.
Os olhos de Emílio brilharam.

A porta abriu, e Erich viu a luz do sol entrar antes dos homens.
"Pode ser a última vez, que verei o sol."
O homem, que todos chamavam de Xerife, estava de terno marrom. E Erich teve um momento nostálgico, lembrou-se decapitando a mulher de terno marrom.
- Esta na hora de viajar. – Xerife disse.
Então, falou pela primeira vez:
- Preciso pegar minhas coisas. Posso?
Todos riram na sala. O homem, que antes usava boné branco exibia uma cabeça raspada e disse:
- E vai querer o que no café da manhã? – Todos riram.
- Não ligo para onde vão me levar. Mas eu preciso muito do que está na minha casa.
- O que é? – Perguntou Xerife curioso.
- É meu dinheiro.
Todos riram.
- Acho que você não entendeu. – Falou Xerife, sério. – Não estamos interessados em seu dinheiro.
- Você não, mas eu preciso. Não sei o que Taio quer comigo. Seja lá o que for, acho que com 800 mil, posso negociar com ele.
Todos calaram imediatamente na sala. Xerife descruzou os braços e perguntou:
- E onde está? – O tom de voz, era manso de alguém surpreendido e ansioso ao mesmo tempo.
- Aluguei uma casa ontem, não sei o endereço, mas sei chegar até lá.
- Só pode ser mentira. – Falou um dos homens.
- Mas não é. E se não me levarem lá, farei questão de dizer a Taio o que ele perdeu. – Erich fez uma pausa. – Por que acham que todo mundo está atrás de mim?
O Xerife ficou em silêncio, pensativo, depois chamou o homem careca para outro cômodo.
- Sabe o que fazer? – Perguntou Xerife.
- Acreditar na conversa do cara? Mas e se for mentira?
- Se for mentira, vocês trazem ele de volta e pronto. Taio deve estar sabendo desse dinheiro, e se não estiver, ficará sabendo. Daí terá problemas. Melhor é prevenir.
- E se batermos nele para revelar o local? Aposto que ele está tramando algo...
- Não. A encomenda deve ser entregue inteira.
Escoltado por três homens, Erich foi encaminhado para um carro parado do lado de fora. Ele marcou mentalmente o carro e a placa.
Dentro do veículo, ele arquitetava os momentos finais do plano, enquanto indicava o caminho.
O carro entrou no quilômetro vinte e um e Erich mandou seguir direto, até o final da rua.
- Maldito, podia ter falado o caminho, até um asno saberia indicar. – Falou o homem careca.
- Como eu disse, não sabia indicar o endereço. – Ele falou, tentando ser o mais natural possível.
Quando eles entraram na pequena casa, Erich disse:
- Vou ao banheiro.
- Calma lá espertão. Cadê o dinheiro?
- Está embaixo da minha cama. – Ele disse caminhando para o banheiro.
Um homem o segurou pelo ombro.
- Que foi cara? Quero mijar, tira a mão, ou vai ajudar sacudir meu pinto?
- Deixem o mijão ir. Vai fugir por onde? Pela descarga? Vamos buscar a grana. – Disse o homem careca, depois de examinar o banheiro.
Erich entrou no banheiro, fechou a porta e correu para a caixa da descarga, então pegou um celular e uma arma. Discou rápido para a polícia e disse assim que foi atendido.
- Tenho uma informação importante sobre o assassino Erich, ele está fugindo em um Golf preto com quatro homens juntos. Está saindo do quilômetro vinte e um nesse momento...
Batidas, gritos e chutes na porta do banheiro. Erich desligou o celular, esqueceu-se de falar a placa, mas agora era tarde. Ele jogou o celular dentro da privada, tirou a munição do revólver e as jogou na privada também, deu a descarga...
"Hora de ser um ator." – Pensou enquanto via a porta do banheiro caindo violentamente.
- Arma! No chão. Jogue a arma no chão. – Gritaram os homens apontando as armas.
Erich deixou o revólver escapar, colocou as mãos na cabeça e disse:
- Achei que ainda tinha balas. Se fosse o caso, vocês já estariam mortos.
Um dos homens avançou furioso para Erich.
- O dinheiro. Cadê o dinheiro?
- Afaste-se do desgraçado, não percebeu que era um truque? – Disse o homem careca. – Eu sabia que era mentira do safado.
O homem careca guardou o revólver, foi até Erich e o esmurrou:
- Se você não fosse importante para Taio, eu te encheria de furo, seu monte de merda. - Ele olhou para os outros homens. – Levem de volta para o carro.


- ACELERE! – Gritou Emílio. – ACELERE.
Ana Luiza pisou fundo no acelerador e disse:
- Não é melhor esperar reforços? São cinco homens. Estamos em desvantagem.
- O reforço está chegando, vamos bloquear a entrada do quilômetro vinte e um. Se abrirem fogo, respondemos.
- É arriscado. – Disse Ana Luiza, parando e bloqueando a estrada.
- Nossa profissão é arriscada. – Disse Emílio conferindo a Submetralhadora MT-40.
Ana Luiza saiu do carro engatilhando a arma e acenando para os curiosos ficarem longe.
- São cinco homens, e um deles é um psicopata sangue frio. Acho que fomos um pouco além do "arriscado".
- Parece que estamos em desvantagem, mas estou do lado da melhor policial do estado. – Ele riu. – Você vale por uns dez homens.
- Olha. Se não fosse casado, eu até transava com você. – Ela riu, olhou para frente e ficou apreensiva. – Opa, parece que estão chegando.

- Mas que porra? Polícia? Ah vá se foder. – Disse o homem careca quando viu a viatura, bloqueando a passagem.
- Uma policial e um cara com o braço enfaixado. – Disse o homem que estava do lado de Erich. –Vai ser moleza.
- Você não conhece os caras? Dê cinco segundos e vai encher de viaturas por aqui. Só temos uma chance, atacar pra valer. Peguem as armas. – Disse o homem careca.

- Problemas. – Disse Emílio. – Não vão parar, estão colocando armas pra fora.
- A situação está ficando tensa aqui. – Disse Ana Luiza no rádio. – Vai começar tiroteio, estamos em desvantagem.
- Vamos para outro lado do carro. – Disse Emílio correndo. – Vão atirar.
Assim que os dois policiais se protegeram, os tiros começaram. E a viatura foi inteiramente alvejada.
- Droga. Se continuar assim, não vamos aguentar. – Falou Ana Luiza atirando contra o Golf preto que avançava.
- O que diabos eles querem fazer? – Disse Emílio disparando, tentando acertar o motorista do carro em movimento.

- Pare. – Ordenou o homem careca. – Vamos usar uma surpresinha, eles vão adorar, ou o meu nome não é Orlov.
"Então, Orlov é o nome do homem careca, será que é por causa do filme senhor das armas?" – Pensou Erich, ele estava tenso, com a cabeça entre as pernas e mãos amarradas, enquanto ouvia os tiros.
Quando o Golf parou, Emílio conseguiu um ângulo melhor e disparou contra o motorista, que dirigia o tempo todo se protegendo.
A rajada acertou em cheio, e transformou a cabeça do homem e um monte de carne.
- Filho das putas!
Orlov, o homem careca, abriu a porta do carro, e protegido pela porta, pegou e lançou granadas, uma caiu dentro do carro, e a outra caiu perto de Ana Luiza.

Emílio teve somente o tempo de fazer sinal para Ana Luiza se proteger. A explosão foi simultânea, explodiu o carro espalhando estilhaços e explodiu entre os dois policiais, que voaram em direções opostas. Ambos morreram imediatamente.

Orlov deu um grito de triunfo. E depois disse:
- Atividade. Deixem o carro, vamos pegar outro e dar no pé.
Erich foi empurrado para fora, e pode ver a viatura destruída e os corpos dos dois policiais, o plano tinha falhado.
Entraram em uma Kombi branca e fugiram, antes que a entrada do quilômetro vinte e um ficasse tomada por policiais.

...

Oliveira e Jorge comemoraram cedo demais, assim que souberam que os homens de Taio tinham capturado Erich, souberam a seguir, que dois policias foram mortos em ação. E um deles, era Emílio.
- Aquele bom policial... – Disse Oliveira. – Como foi isso?
- Você não vai gostar de saber. – Comentou Jorge. – Morreram na troca de tiros contra os homens de Taio.
Oliveira estava de pé, olhou incrédulo para Jorge.
- Não é possível! – Ele sentou na cadeira, e apoiando a cabeça com as mãos, permaneceu por um longo tempo em silêncio.
Jorge resolveu sair da sala e deixar o amigo sozinho.
Ele estava amargurado, tinha arquitetado um plano, para evitar que qualquer homem da corporação morresse nas mãos dos traficantes. E seu plano tinha feito duas vítimas.
"Maldito seja!"

Por: Fernando do Amaral - 22/08/2014

Parte 11 – O fim?

No outro dia, a operação estava em andamento. Oliveira, de pouca vontade dava as coordenadas da invasão.
- Temos o alvo, não precisam procurar nada. É entrar e buscar o traficante.
Jorge e Oliveira, eram os únicos que sabiam a verdade sobre a operação.
- Você está na boa? – Perguntou Jorge.
- Quero acabar logo com isso. – Respondeu Oliveira sério, em seu rosto, eram visíveis as longas noites em claro. Ele olhou para o relógio, e depois para a equipe.
- Quinze minutos!
- Ligação para você Oliveira. – Disse Jorge, passando o telefone.
- Quem?
- É um agente infiltrado na operação. – Falou, olhando desconfiado.
Oliveira achou estranho, não tinha nenhum agente infiltrado.
- Oliveira falando.
- Só escute. Estou sabendo que dois policias, foram mortos na captura do seu homem. Não tive nada com isso, e para que mantenha o nosso acordo, posicionei alguns devedores, pode matar todos. Eles vão atirar, mas são poucos e com pouca munição.
- Quem eles são? – Perguntou Oliveira.
- São devedores já disse, vão morrer de qualquer jeito.
O telefone desligou.

"Já tá enchendo essa merda." – Pensou Erich dentro de uma sala, vigiado por dois homens armados.
Ele tinha seguido a viagem contra a sua vontade, tinham o colocado na sala e esperava desde então alguma coisa acontecer. Pensava que a qualquer momento a porta ia abrir com violência, e por ela entrar um homem, do qual conhecia somente a má fama. Pensava que a qualquer momento, seria um espírito, assistindo pessoas limpando os restos da sua massa cefálica no chão.
E ali estava ele, por um longo tempo, sem saber o que estava esperando. E os homens presentes, não falavam nada. Só pareciam nervosos. Erich quebrou o silêncio:
- O que está acontecendo?
Não responderam, e o silêncio tomou conta por mais alguns minutos, até que os dois homens nervosos ficaram em alerta. Alguma movimentação estava acontecendo do lado de fora.


Ele sentia uma incômoda dor de barriga, e não era indigestão. Era o peso da arma nas mãos e a sensação que estava fazendo algo muito errado. Não estava habituado a carregar uma arma, a primeira vez que atirou, foi com uma espingarda velha, e o alvo, eram garrafas. E isso era quando tinha uns doze anos.
Mas ele não tinha escolhas, estava devendo para a pior pessoa que poderia dever; Taio.
O prazo do pagamento, ia vencer em uma semana. Mas antes disso, foi acordado no meio da noite, com socos e pontapés. Pensou que tinha chegado a hora, mas então recebeu uma estranha proposta. A dívida seria perdoada, desde que fizesse um pequeno serviço, vigiar a entrada do bar Boca-da-fava por um dia e sem fazer perguntas.
Ele não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que tinha algo estranho. O movimento estava parado e as casas fechadas.
Ele acendeu um cigarro para acalmar os nervos, deu um trago e antes que soltasse a fumaça olhando para cima, sentiu algo queimar e furar suas costas. Pensou em usar a arma, mas caiu com o rosto no chão, e antes de tudo ficar escuro, viu a alguns centímetros do rosto, botas militares.


A porta do bar abriu, e por ela entrou um homem de baixa estatura, ele carregava um fuzil, mas apesar da arma, estava visivelmente perturbado. Ele fechou a porta com pressa e encarou os outros dois homens, ignorando Erich.
- Vocês sabem o que tá rolando?
Os outros negaram.
- Alguma coisa tá errada. Estou sentindo...
Antes que ele concluísse o resto da frase, um objeto entrou voando pela janela, bateu no chão rolando e explodiu. Era uma bomba de gás.
Erich tampou o rosto com a camisa, e deitou no chão. O homem que tinha fechado a porta correu para abri-la. E os outros dois, recuperados do susto, empunharam as armas e correram para a porta.
"Esses caras vão morrer, será que não percebem que o gás era pra correrem pra porta?" – Pensou Erich, segundos depois, ouviu os disparos e com certeza, não eram dos ingênuos e desesperados carcereiros.
Gritos, mais alguns tiros e muitos passos. Erich tinha uma noção do que estava acontecendo, mas não entendia os motivos.
"Será que a polícia, invadiu a boca só para me capturar?" "Se for o caso, fui salvo."
Ele ouviu passos pesados aproximarem, e a seguir sentiu um puxão forte, o obrigando levantar.
Os olhos estavam lacrimejando, o que dificultava a visão, mesmo assim, encarou um agente policial, que estava de capuz preto.
O policial o examinou por um momento, e então deu um soco no estômago, que o fez voltar ao chão. Preparou o corpo para o chute, mas não aconteceu, outro policial interveio e impediu.
Confuso e com dor, foi algemado e levado para fora do bar.

...

- Se não fosse eu lá, você ia matar o cara. – Falou Jorge.
- Não... Só estava simulando. – Respondeu Oliveira, irritado.
Jorge suspirou.
- Bem, agora, definitivamente acabou. Aceita uma cerveja?
- Pode ser para depois? Vou conversar com o delegado.
- Você? Ou nós?
- O problema é comigo Jorge. Meu plano matou um homem justo. E uma mulher que eu nem conhecia.
- E o que pretende falar?
Oliveira pensou um pouco.
- Ainda não sei. Seja o que for não me sinto mais um policial.

Vicente.
Ele estava enérgico como sempre, andava de um lado para o outro na sala falando ao telefone, mas o diferencial, é que estava feliz.
Depois que desligou o telefone, lançou um olhar grato, para o homem sentando na frente da sua mesa, e disse:
- Tudo graças a você Oliveira. Os jornais só falam disso. É a melhor campanha que podia acontecer.
- Você sabe que dois policias morreram? – Pergunta retórica de Oliveira.
- No cumprimento do dever... Ora, não venha entristecer e tirar o mérito, do bom trabalho em campo, desses dois homens.
Oliveira sorriu sarcástico.
- Acredita mesmo no que diz?
O delegado sentou, encarou Oliveira antes de dizer:
- Você acha mesmo, que faz diferença no que eu e você acreditamos? Somos homens da lei, e a lei é só um freio, que impede a violência de sair por ai esmagando os inocentes. Às vezes, o freio falha, e então a violência foge um pouco do controle, mas isso não é motivo para homens como nós não continuar em frente. – Ele fez pausa, abriu uma vodca, colocou em um copo e ofereceu outro a Oliveira. – O que aconteceu, foi triste e necessário. Quando você luta contra a violência usando a lei, tem que estar preparado, a lei é como um guarda chuva no temporal. E o temporal é a violência. Mas, esqueça-se disso, o que quer falar comigo?
Oliveira pareceu refletir, então rejeitou o copo de vodca. Ficou em pé, tirou o distintivo e colocou junto com a arma, em cima da mesa, ao lado do copo.
- Não entrei na polícia, para ter aulas de filosofia. Eu me demito.

...

Erich.
O cerco estava formado, desde a tentativa em concluir o vídeo com o Zacarias. Ser preso era questão de tempo. Mas ele pretendia adiar o tempo o quanto possível. E teria conseguido se não fosse à intervenção de um traficante de drogas.
"O que Taio queria comigo?" "E por que, estou sendo acusado de tráfico?"
Sentando em uma sala de visita, Erich tentava desvendar perguntas que corroíam sua mente.
A porta abriu, e entrou um homem, aparentando ter uns trinta e cinco anos, tinha o cabelo curto e arrepiado e um olhar severo.
Usava uma roupa formal e discreta. O homem parecia ter superioridade e tinha um semblante de poucos amigos, preocupado e triste. Ele sentou na frente de Erich com os braços cruzados.
- Esperava ver o meu pai. – Disse Erich. – Ou um advogado. Você não pode ser meu advogado né?
- Não sou seu advogado. Só quero respostas.
- Só falarei, com a presença de um advogado.
O homem fechou os olhos e suspirou, depois de abrir os olhos, disse:
- É o seu direito. Mas espero receber uma concessão, do homem que arruinou minha carreira policial. E me fez tomar atitudes, que jamais esquecerei.
Erich ficou surpreso e interessado.
- Fiquei curioso. Pergunte, acho que será interessante... Mas antes, quem é você?
- Meu nome é Oliveira, e estou seguindo seus rastros, desde a primeira vítima do seu jogo.
- Vamos supor que existe um jogo. Como vocês descobriram? – Disse Erich, demonstrando cautela e surpresa na voz.
- Uma das vítimas tinha parentesco, com alguém que solicitou o jogo no seu site.
Erich ficou pensativo, encarando Oliveira. Depois sorriu e disse:
- É claro. Uma variável previsível, que o criador do suposto jogo, descuidou.
- Pare de falar suposto isso e aquilo. Mesmo que eu quisesse arrancar uma confissão sua, eu não poderia fazer nada com ela, já que não deveria estar aqui. Só estou aqui, por conta de amizades.
- Que seja. Não me importo. Respondo como eu quiser.
- Tudo bem... – Oliveira olhou para cima refletindo. – Me diga. O porquê de tudo isso?
- O que quer saber exatamente?
- As pessoas que você matou. Qual o motivo? Mata-las para que?
- Não matei ninguém.
Oliveira apoiou o cotovelo na mesa, coçou o rosto, e depois disse:
- Não vai mesmo, me dar um prêmio de consolação?
- Eu entendo. Você quer a verdade. E estou falando a verdade, não matei ninguém.
Oliveira olhou confuso, era incrível a ausência de culpa, somada ao ar inocente do criminoso.
- Estou perdendo meu tempo. Queria encerrar o episódio de vez, mas...
- O jogo. – Interrompeu Erich. – O jogo foi quem matou.
- Do que está falando?
Erich limpou a garganta, e olhou por um tempo o rosto de dúvida do triste homem, e então disse:
- Nós humanos, vivemos dentro uma carne falsa. Feita de uma bondade mentirosa, só porque tememos a dor. Existe um ou outro que mostra por compaixão, mas o prazer sádico de ver as vísceras de outro ser, sempre será maior. Nós apreciamos ver o sofrimento e a morte. Você não imagina as crueldades, que foram solicitadas no jogo. E as pessoas que solicitaram? São pessoas normais, em roupas normais, com trabalhos normais, que estudam em escolas normais e famílias normais...
Mas por dentro de cada atitude normal, o que existe é o desejo de assistir um ser vivo agonizando até a morte.
A vítima no saco preto, era o resto da diversão para uma pessoa, que estava cansada no final do dia. Simples assim.
Quem matou, foi o jogo.
Oliveira ficou por um tempo com olhar vazio, fixo nas mãos algemadas do prisioneiro.
- Você parecia um cara normal. Pelo menos, com uma vida normal. Esperava outro tipo de resposta, mas isso que você falou... Você é só louco mesmo.
- Sou? Então me diga. Como era a pessoa que entregou o jogo?
Oliveira se lembrou de Giane, e o rapaz que a acompanhou, lembrou que na ocasião, tinha sentido vontade de prender os dois.
- A pessoa entregou o jogo, porque não sabia o quanto era doentio. A pessoa achou que era ficção quando participou.
Erich riu.
- E só porque é ficção não é cruel? O prazer que você sente quando vê a atrocidade, não faz distinção do que é real.
- Você é louco. E mesmo que não fosse eu não participaria do seu jogo e certamente, muitos repudiariam a ideia.
Erich riu.
- Carne falsa senhor ex-policial. O jogo é só uma versão, para tantas outras coisas.
- Versão?
- Pois é. Não percebeu que o que mais faz sucesso, são histórias que mostram a miséria e o lado podre da humanidade? Você mesmo deve adorar um filme, cheio de violência. É bom não é? Estar fora da cena e ver o mocinho cortar a cabeça do bandidão e vice-versa.
- Quanta asneira...
- Você sabe que não é. Desde criança, a graça é ver o quanto o vilão é mal, para depois desejar que o herói mate o vilão...
- Vai falar tudo isso, para o advogado fazer sua defesa?
- Você quis a verdade. Falei-te a verdade.
Oliveira ficou em pé, colocou as mãos no bolso e disse:
- Bom, vou indo embora. Pelos menos, você está preso.
- Vai fazer o que agora? Ir para casa, e assistir um filme de zumbis, trucidando pessoas? Ou vai jogar algum jogo, em que você explode a cabeça deles?
- Talvez faça isso. Mas antes vou tomar uma cerveja.
- Não acabou senhor ex-policial, existe um livro muito inspirador sobre o assunto, pena que não posso recomendar a você. Mas certamente não acabou.
- Para você e para mim, acabou. E que livro é esse?
Erich riu misteriosamente.
- Não encontrará em minhas coisas. E quem encontrar, saberá como usar.
Oliveira virou as costas para Erich e caminhou pouco interessado para a porta.
- Tudo bem. Já cansei de ter papo de maluco.
- Ei! Poderia pelo menos trazer o meu CD de músicas? Queria muito ouvir uma música.
Oliveira não respondeu, abriu a porta e antes de sair e fechar ouviu Erich começar assobiar uma música.

Jorge.
Depois de urinar, ele lavou as mãos e olhando no espelho, resolveu lavar o rosto também. O barulho da música e conversa do bar ficavam abafados com a porta fechada. Era uma ocasião especial, e estava comemorando com Oliveira. Mas o amigo, não estava feliz e conversava pouco, ainda estava abalado com a morte dos policiais.
"Ele precisa dar uns tiros." "Não, ele tem que dar uns tiros." – Pensou examinando os pinos de cocaína no bolso da calça.
Jorge ouviu alguém bater na porta, a fila para usar o banheiro, devia ter aumentado.
Ele saiu sem olhar para o autor das batidas. Foi até o balcão e pediu duas doses de conhaque.
Quando Oliveira o viu voltar com os copos, perguntou:
- E o que estamos comemorando mesmo? Ah é! Lembrei; minha demissão.
- Veja pelo lado positivo, pode trabalhar de segurança.
Oliveira devolveu um sorriso triste.
- Pois é! Um brinde a isso então.
Jorge virou o conhaque, e então perguntou:
- Por que fez isso cara?
- Não sinto que sou mais um policial. – Disse Oliveira jogando as costas na cadeira.
- Não precisa sentir. Basta ser.
- Ah não. Não me venha com essas conversas filosóficas, já tive o bastante. – Disse Oliveira, enchendo os dois copos de cerveja.
- Mas cara, e agora? O que vai fazer?
- Vou te contar. Você é o meu amigo, e não terei problemas. Mas eu vou jogar a merda toda no ventilador.
- Como assim? – Perguntou Jorge, tomando um gole de cerveja.
- Vou revelar tudo. Desde as primeiras mortes. Vou dizer que teve armação por interesse da política... Mas você pode ficar despreocupado. Vou dizer que somente eu, conhecia os planos de Vicente.
- Mas cara. Isso vai ferrar você para sempre. Pode até ser preso.
- O que é justo é justo. – Disse Oliveira tomando outro copo de cerveja.
Jorge deu de ombros, tomou um pouco a cerveja e disse:
- Se é o que você quer... Não vou te desmotivar. Mas como seu amigo peço, por favor, espere um pouco. Deixe a cabeça esfriar e não faça isso.
- Minha cabeça esta fria Jorge. Vai ser bom para a delegacia.
- Um escândalo, jamais será bom.
- Não terá escândalo nenhum. Quem vai cuidar de mim e Vicente, é a própria corregedoria.
- Deus... – Disse Jorge, e depois riu. – Você sabe que eles vão investigar todo mundo né? E você será o inimigo número um.
- Eu aceito. Chega de sujeira... E peça mais uma dose de conhaque, por favor.
Já era quase 01h00min, Jorge e Oliveira já tinham saído do bar. Conversavam agora no carro, tinham mudado a conversa para outros assuntos.
- Você ainda curte? – Perguntou Jorge mostrando um pino.
- Rapaz... Estava quase perguntando, que horas você ia me oferecer.
- Vamos encostar aqui. Não tem nenhum movimento.
- E depois, ainda vamos para a zona?
- Claro. Hoje a noite é nossa.
Eles encostaram. Jorge usou a carteira e um cartão para desenhar carreiras de pó. Oliveira enrolou uma nota e entregou para o amigo, que pegou e cheirou a primeira carreira em cima da carteira.
- Vixe! Dá boa. E fazia tempo.
- Onde pegou? – Perguntou Oliveira se preparando para cheirar.
- Do morro alto.
Jorge, antes de cheirar a segunda, comentou.
- E então amigo. Ainda está com a ideia perigosa de entregar Vicente?
- Não acho perigosa. E vamos parar com esse assunto? Como você mesmo disse, hoje a noite é nossa.
Jorge riu, cheirou a carreira de pó e passou para Oliveira.
- Pois é, queria muito que você desistisse. E peço sinceras desculpas por isso. Você foi um grande amigo.
- Do que merda está... – A frase de Oliveira, foi interrompida por um disparo.
A cabeça dele foi para cima, bateu no vidro e pendeu sobre o volante do carro.
Jorge, segurando o revólver, sentia o cheiro da pólvora e do sangue. Depois de se recuperar da adrenalina, ele esvaziou todos os pinos da cocaína em um saco plástico, jogou os pinos no banco e guardou o saco plástico no bolso. Feito isso, limpou a arma e com náusea, a encaixou como pode nas mãos mortas de Oliveira.
Verificou qualquer vestígio que pudesse ficar no carro, saiu e fechou a porta.
Olhou para o céu escuro da noite, não tinha lua e nem estrelas. Era somente um céu escuro e abafado. O barulho urbano da noite ecoava. Ele pegou o celular, fez uma ligação e esperou atender, assim que atendeu disse apenas uma frase.
- Ele disse que vai mudar de ideia. – Desligou o celular, lançou um olhar triste para dentro do carro, virou as costas e caminhou para longe. Duas ou talvez mais, lágrimas rolaram de seus olhos.

Vicente e Jorge - Antes
Depois que Oliveira saiu da sala fechando a porta, ele ficou pensativo.
"Que policial justo." "E que problemão." "Nem me deu oportunidade de oferecer uma proposta..."
O plano, foi um sucesso, maior do que o esperado. A chance de ser eleito aumentou e muito, mas se um policial insatisfeito tornasse público, algumas particularidades, comprometera bem mais do que a eleição.
Ele pegou o telefone, e ligou para Jorge. Provavelmente, a única pessoa que poderia fazer Oliveira mudar de ideia.

...

Jorge estava descrente das palavras que acabara de ouvir.
- Pediu demissão? Cara, você é louco?
- Você sabe, não vou conseguir viver com isso, como se nada tivesse acontecido.
- Não acredito que você sabe o que está fazendo. Sua mulher não vai gostar.
O telefone tocou, Jorge olhou e disse:
- O delegado quer falar... Comigo?
- Atenda, acho que ele quer falar sobre mim. – Disse Oliveira.
Jorge atendeu e em seguida, desligou o telefone e disse:
- Está me chamando na sala.
- Vai lá. Depois de tudo isso, vamos tomar umas hoje?
- Assim será! – Disse Jorge preocupado, pegando na mão de Oliveira.
Jorge sentou na cadeira em frente à mesa do Vicente, que estava gargalhando no telefone.
"Como é incrível o humor da pessoa mudar tanto." – Pensou Jorge.
Depois que Vicente desligou o telefone, tratou Jorge com tanta polidez, que não era comum.
- Desculpe por fazer você esperar. Mas estava conversando com um amigo deputado. Você precisa conhecer, é uma figura.
- Ora, podia esperar mais, não demorou. – Respondeu Jorge, um pouco sem jeito.
- Bem... Você deve imaginar o porquê te chamei.
- Faço uma ideia sim.
- Oliveira. Ele não me deu a chance de oferecer uma proposta. E eu não estava tentando compra-lo. Só quero oferecer o que eu acho que ele merece.
- Proposta?
- Sim, minha posição na política é certa, e reconheço que foi graças ao trabalho de vocês dois. Vou precisar de alguém para trabalhar comigo, alguém que possa confiar.
- Mas ele pediu demissão.
- Justamente, agora não posso fazer mais nada por ele. Por isso, quero pedir pra você aceitar a proposta de trabalhar comigo. Mas vou precisar de um favor.
- Qual?
Vicente baixou um pouco do tom da voz, e disse de forma cautelosa.
- Acho que Oliveira pretende fazer alguma coisa. Talvez tornar público nosso problema.
- Eu o conheço, não creio que tomaria uma atitude assim.
- Espero que não, mas não posso arriscar. Preciso que descubra o que pretende, e se necessário, o faça mudar de ideia.
- E então, o cargo será meu?
- Você tem a minha palavra. Só precisa evitar que Oliveira, exponha assuntos internos. Pode fazer isso?
Jorge pensou por um tempo, olhando para a mesa e para os pertences de Oliveira, que ainda estavam na mesa. Depois disse:
- Vou conversar com ele.

Vicente e Jorge - Agora.
O sol do lado de fora, lembrava um dia feliz, mas dentro da delegacia, todos estavam chocados e tristes com a notícia.
- Sempre achei que ele estava triste. – Comentou uma policial.
- Mas colocar uma bala na cabeça, foi exagero. – Comentou outro policial.
- E logo depois de ter feito uma prisão tão importante. – Disse outro.
- Nunca sabemos o que se passa na cabeça de outra pessoa. –Comentou a policial.
Dentro da sala. Vicente encarava um homem, que antes tinha um ar zombador, mas agora estava sério, quase como se fosse outra pessoa.
- Acho que você foi um pouco além, não acha? – Perguntou Vicente.
- Ainda não. Além eu vou caso o meu novo salário, não me impressione positivamente.
- Espero que isso não seja uma ameaça.
- Não é ameaça. Só não quero que as pessoas saibam que meu melhor amigo, cometeu suicídio por causa das sujeiras do delegado Vicente. – Respondeu Jorge.
- Você jogou bem rapaz. O cargo é seu, não precisa prolongar o assunto.
- Também acho desnecessário. Você vai ao velório de Oliveira?
- Claro, era um grande policial. – Respondeu Vicente, sem pensar.
- É. – Disse Jorge pensativo. – Uma pena que morreu dessa forma.


Anos depois.
Era um domingo quente. As pessoas estavam fazendo churrasco, alguns assistindo televisão. E tudo corria normal, menos dentro de uma casa, um homem alucinado tentava quebrar a porta do quarto. Mãe e filha tremiam no canto do quarto. Ela tinha chamado à polícia, mas os pontapés na porta pareciam durar uma eternidade.

- Vamos entrar. – Disse a policial com a arma na mão.
O policial Guilherme, era um jovem truculento, que compensa a falta de experiência com a força e a vontade de agir. Ele arrombou a porta da casa sem dificuldade, e assim que entrou na casa com a policial dando cobertura, ele ouviu um disparo.
- O filho da puta está armado! – Falou Guilherme.
A policial sorriu e disse:
- Então. Não preciso me conter.
Ela correu abaixada, e foi até o corredor. Quando ela viu o homem surgir atirando com uma espingarda, não pensou e agiu.
Disparou dois tiros no peito do homem, que caiu morto.
Ela olhou o corpo do lado da arma.
- Acha que dava para desarmar? – Perguntou Guilherme.
- Talvez. – Ela respondeu, guardando a arma. – Vou atrás da mãe e da filha. Será que você pode cobrir o corpo com alguma coisa?
Ela caminhou até o quarto. Bateu na porta e disse:
- Pode abrir, está tudo bem.
Enquanto esperava, tirou a carteira e abriu, dela retirou uma foto de uma mulher. Ela examinou um pouco e então disse baixo, como um sussurro.
- Fui responsável por tua morte. E não tive como pedir desculpas. Assim, quero que saiba que sinto todos os dias a culpa. E até o final da minha vida, vou dedicar cada vagabundo morto para a sua honra.
- O que você está rezando ai Giane? – Perguntou Guilherme.
- É isso mesmo, estou rezando. – Ela respondeu.

...

Um fragmento.
João encostou o carro, a esposa dormia e roncava no banco ao lado e não percebeu o carro parar. Ele olhou a estrada, abriu a porta e foi caminhando para a beira da estrada. Achou um lugar discreto e começou a urinar.
Depois que terminou, viu um volume estranho no matagal, foi até lá e pegou o objeto sujo e cheio de mato. Era uma estranha máscara de ferro, rude e desagradável de olhar.
Ele a limpou como pode e voltou para o carro, à esposa já estava acordada.
- Olha que bonito! Acabei de comprar.
Ela olhou enojada para a máscara.
- Credo, que coisa feia. Passa uma energia ruim. – Ela disse sentindo a pele arrepiar. – Jogue isso fora.
Ele deu risada, colocou a máscara no banco de trás e disse:
- Pare de bobagem, é só um souvenir que alguém perdeu.

Por: Fernando do Amaral - 31/08/2014

FIM

NOTA: Caro leitor, se chegou até aqui, espero que tenha gostado do que leu. E caso tenha curiosidade para saber o que aconteceu com a máscara, veja também: O último romance com ela. Obrigado por ler, um abraço!

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