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Gênero: Romance, Drama, Mistério.
Contém: Tema depressivo e linguagem imprópria.

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O último inverno com ela

Parte 1 – Aiya

Já era noite quando a garoa engrossou, e virou chuva. Ele estava dentro do carro, parado no encostamento, observando o barulho das gotas baterem contra o para brisa.
- Será que ela já está saindo?
- Quanto nervosismo. Melhor você ficar calmo, vai espantar a garota.
Ele esfregou uma mão na outra com ansiedade, como se estivesse frio, olhou novamente para a entrada da empresa de comunicação visual. Era quase 19h00min e ele a viu saindo.
- Rápido, vá para o banco de trás. – Ordenou.
- Você está brincando certo?
- Vá de uma vez.
Ele balançou a cabeça reprovando a situação e disse rindo:
- Vou facilitar para você amigo. Dê-me um cigarro, vou seguir a pé. Não quero atrapalhar seu lance com a Aiya.
- Não tem lance nenhum Tomás. – Respondeu, entregando o maço de cigarros, sem olhar. – É só uma amiga.
- Tá bom... Depois me conte como foi.

Aiya olhava para o céu escuro enquanto acelerava os passos, temia que a chuva ficasse mais forte até chegar ao ponto de ônibus.
Ela era uma mestiça japonesa, tinha vinte e um anos, morava com o conflituoso pai. Formada em publicidade, trabalhava integralmente na empresa VisonDigital. Comunicativa e muito sociável, com um bom relacionamento profissional. Não se enquadrava totalmente nos padrões da beleza, mas era atraente, tinha carisma e certo tom de mistério que conquistava, e ao mesmo tempo inibia os homens. Caminhava com desenvoltura, tentando ganhar tempo, e foi quando viu os faróis do carro piscar três vezes para ela.
"Alguém me esperando?"
A porta do motorista abriu, e apesar da distância visual ela soube quem era.
Era o melhor amigo dela. No primeiro dia de trabalho, ela tinha encontrado com ele no corredor e trocaram algumas palavras, a impressão que ela teve, era de que era um homem reservado e interessante. Conforme os dias passavam, os encontros no corredor eram frequentes e demorados, até o dia em que ele a convidou para almoçar.
Era com ele que ela desabafava sobre problemas profissionais, e na maioria das vezes, sobre os pessoais. A Amanda era uma ótima amiga também, mas era uma mulher com pouca paciência para assuntos corriqueiros.

Henrique demorou um pouco os olhos no sorriso de Aiya.
Ela estava caminhando em direção a ele, usava uma calça justa preta, um Allstar e uma blusa azul com um desenho japonês. Ela era um pouco alta, e por ser magra, dava a impressão de ser mais alta quando usava calça jeans justa.
"Sabe que, você é tudo o que eu pediria nos três desejos da lâmpada mágica?" – Foi o que ele pensou, mas não teria coragem de pronunciar. Não na frente dela.
- Rique! Caiu do céu!
- Estava de passagem, daí eu vi uma coisa assim, meio japa meio índia andando por ai...
Ela riu, o abraçou e beijou no rosto. Depois entrou no carro.
- Opa! Quase amassei seu maço de cigarros... – Disse Aiya entregando o maço para Henrique.
- Que folgado, acho que Tomás pegou só um cigarro e largou ai no banco.
- E para onde vamos? – Ela perguntou.
- Pensei que você só queria uma carona, até a sua casa.
- Eu ia pra casa mesmo. – Ela disse pensativa. – Mas já que você está aqui, poderíamos ir ao cinema. O que você acha?
- Uma boa ideia. Não sei o que está em cartaz, mas será divertido.

Henrique chegou tarde, se jogou no sofá e ficou olhando a televisão desligada. Era como se estivesse assistindo um filme mudo. As cenas eram a Aiya rindo na fila da bilheteria, os dedos dela tocando o braço dele para não desviar a atenção, o jeito que ela virava o pescoço para olhar as vitrines, o brilho dos olhos dela em frente da livraria, a demora em escolher pipoca, com manteiga ou pimenta, a estranha mania de soltar os cabelos toda vez que sentava. Lembrou na hora da despedida depois que voltaram do cinema. Ele a beijou na face e sentiu o cheiro adocicado do perfume. Teve vontade de abraça-la e parar o tempo.
E pensando em Aiya, ele dormiu.

Em um bar.
Ele estava sentado do lado de fora do bar, olhava os carros e as pessoas que transitavam. Era um olhar vago e triste.
- E então? Não me vai dizer como foi ontem? – Perguntou Tomás.
Henrique bebeu um copo de cerveja antes de responder.
- Está um sábado bonito hoje, não quero desperdiçar com bobagens.
- É um bonito sábado mesmo. – Concordou. – E ficaria melhor, se estivesse com Aiya. Certo?
- Você insiste, por que não toma uma cerveja e para de encher?
- Hoje não estou bebendo. – Respondeu rindo.
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos, olhou para Tomás sentando em sua frente, baixou a cabeça e disse olhando para o copo. Como um sussurro.
- Não sei o que devo fazer. Quero mais dela, mas tenho medo de perder o que já tenho. E para mim, o pouco que tenho dela é tudo o que importa em minha vida.
Tomás riu a vontade.
- Você este apaixonado meu amigo, finalmente se abriu comigo.
- Assim é. Mas se for pra ser seu "stand up" particular, deixa pra lá.
- Não se ofenda, só estou descontraindo. Posso te dizer algo?
- O que? – Ele perguntou verificando a garrafa de cerveja vazia.
- Se você a ama mesmo, esqueça o medo de ter tão pouco dela. Amizade, você arruma fácil por aí, mas um grande amor, você pode perder para sempre, por um descuido.
- Não sei... – Ele disse pensativo. – Você não está em minha pele, não sabe o quanto tenho a perder.
- Você só tem a ganhar. Se ela disser sim imagine como será feliz?
- E se ela disser não?
- Então você poderá libertar se. Amor não correspondido é bem melhor do que a dúvida. Você será livre para odiar, esquecer, aceitar e seguir em frente.
Henrique devolveu um sorriso triste.
- Você não faz ideia do que eu sinto. Ninguém sabe. Não fale como se pudesse sentir o que eu sinto.
Tomás ficou em pé, alongou o corpo e disse:
- Meu caro, eu te entendo e só quero ajudar. Mas preciso ir agora. Não é todo mundo que fica de folga no sábado.
- Se não for fazer nada importante à noite, venha beber comigo. – Disse Henrique.
- Veremos amigo, veremos. Até breve! – Disse Tomás ajeitando o chapéu.
"Tomás e seu impecável estilo clássico." – Pensou Henrique observando o amigo atravessar a rua. – "Sempre de sobretudo, chapéu, sapatos e cabelo arrumado..."
- Mais uma? – Perguntou a moça que servia o bar.
- Claro! Obrigado. – Ele respondeu olhando para a estampa da blusa da moça. Era um tigre cinza com olhos verdes.
- Moça? – Ele chamou, enquanto ela ia buscar outra cerveja. – Por favor, cancele a cerveja e me traga uma vodca com dois gelos?
- Qual vodca?
- Qualquer uma...

O nome dela era Kátia, servia o bar do tio e com o dinheiro que recebia, pagava a faculdade. Era uma bonita moça de cabelos cacheados e ruivos, o que justificava o apelido "Fire".
Enquanto ela coloca as pedras de gelo no copo de vodca, pensava no cliente. – "Um moço bonitão que vive triste e bebendo..." "Qualquer dia, tomarei coragem e perguntarei se ele quer colo." – Ela olhou para os próprios seios, que eram fartos e os balançou sorrindo. – "Acho que ele não recusaria esses dois belos travesseiros."
- Que diabos está fazendo Fire? – Perguntou Rodrigo presenciando a cena.
- Não é da sua conta veado! – Ela respondeu rindo.
- Já ganhei você de olho no bofe. – Ele disse insinuado com a cabeça em direção a Henrique. – E acho que ali está se descobrindo viu?
- Não fale besteira.
- Então me diga por que ele nunca olha para sua bunda?
- Sei lá! Vai ver ele é educado, ou não gosta de ruivas...
- Meu bem. O bicho homem não dispensa uma olhada de bunda, nem que seja de uma veada horrorosa igual a você.
Ela riu, balançou os cabelos e disse:
- Sai pra lá inveja.
Kátia foi até a mesa, ensaiou um sorriso na hora de servir e depois um rebolado para Henrique. Ela colocou o copo na mesa e sorriu, mas Henrique não viu.
Ele estava pensativo, olhando para o celular.
- Desculpa a demora.
- Ah? Demora? – Disse assustado. – A sim, minha vodca. Obrigado. Ele tomou um gole da vodca e o celular tocou. "Aiya!" – Pensou de imediato. Mas era o Leandro, um grande amigo e também amigo de Aiya.
Os três trabalhavam juntos e tinham um ótimo relacionamento.
- O que está fazendo carinha? – Perguntou Leandro.
- Tomando umas no bar do Beco.
- Logo cedo carinha? Mas então, estou afim de um bate volta para a prainha. Vamos?
- Volta amanhã?
- Amanhã.
- Quem vai?
- Por enquanto, eu, minha mulher, você e minha cunhada Júlia.
- E como é a sua cunhada?
- Só posso dizer que você vai gostar carinha. Está confirmado?
- Confirmado.
Ele desligou o celular, mexeu as pedras de gelo no copo de vodca, e a tomou de uma vez. – "Aiya com certeza ia gostar do convite." – Ele procurou o nome dela no celular, mas não teve coragem de chamar. "Não, ela certamente está fazendo algo mais interessante."
Enquanto pagava a conta, notou novamente os olhos verdes do tigre cinza da blusa da moça. E permitiu viajar com a imagem. Imaginou que era o tigre correndo livre na floresta.

- Ele estava olhando para meu peito! Você viu? – Kátia perguntou para Rodrigo, depois que Henrique passou pela porta.
Rodrigo estava pensativo e respondeu sério.
- Definitivamente não. Fire acho que o bofe está passando por alguma dificuldade. Tinha muita tristeza naqueles olhos, uma espécie de angústia.
- Que medo. – Ela disse encarando Rodrigo. – Você está falando sério?
Ele balançou a cabeça.
- Pode ser que seja somente uma má impressão...
- Seja como for, você me deu um bom motivo para puxar assunto com ele. É um desperdício se aqueles lábios amargarem.

Por: Fernando do Amaral - 05/12/2014

Parte 2 – O diálogo

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Henrique já estava cansado de beber, de pisar na areia, de sentir o cheiro do mar e de ver pessoas que se divertiam. – "Que saco!"
o sol já estava se pondo e sentado na areia ele olhava pensativo para as ondas, queria esquecer, mas a imensidão e o barulho do mar o fizeram fantasiar com Aiya.
Ele visualizava ela com um vestido florido, com a água batendo no tornozelo. Ela tinha um sorriso deslumbrante e era para ele, os raios de sol passavam pelos cabelos soltos dela. E então ela caminhava em direção a ele, cada passo dela na areia o fazia sentir uma leveza indescritível.
" – Oi Rique, posso sentar-me com você? "
Ele fica em pé, e a abraça. Sente o cheiro doce do perfume no pescoço enquanto sussurra no ouvido dela: " – Eu te amo tanto, que não tenho espaço para mais nada, a não ser você."
Aiya ri do jeito que Henrique gosta e vai falar algo, mas então Henrique sente alguém tocar em seu braço, alguém que o tira da melhor parte da fantasia.

- Está em outra dimensão carinha? – Perguntou Leandro.
- Só relaxando.
Leandro riu.
- Então... E a Júlia cara? Não curtiu?
- Ela é bonita. – Respondeu honestamente. – Divertida também.
- E gostosa. – Completou Leandro rindo. – Mas e então, já estamos quase indo embora, chega nela carinha.
- Estou tranquilo Leandro, vim pela praia.
- Às vezes acho você gay.
- Ache o que você quiser, não preciso beijar nenhuma garota que eu não queira, só para provar minha opção sexual.
- Ficou nervosinho? – Perguntou Leandro rindo.
- Você é um pé no saco. Mas eu gosto de você.
- Senti um clima! Tem um motel aqui perto. Vamos?
Ambos riram.
Leandro ofereceu uma lata de cerveja para Henrique.
- Daqui a pouco é estrada... E amanhã marasmo.
- Verdade, e que marasmo. – Comentou Henrique.
- Eu precisava falar um negócio com você. Tem uma fita aí que está tirando o meu sono faz uma cara já.
- Fala aí. – Disse Henrique pouco interessado.
- Mas tem que ficar só entre nós!
- Sei guardar segredo.
- Na verdade preciso do seu conselho. – Disse Leandro olhando fixamente para a praia.
Henrique pegou no ombro do Leandro antes de dizer:
- Sou teu amigo. Se eu puder te ajudar, pode apostar nisso.
- Estou querendo separar da minha mulher.
- O sol fez mal para sua cabeça? – Perguntou Henrique surpreso.
- É sério. Eu não estou muito bem com ela. Já faz um tempo que estou empurrando o casamento com a barriga.
- Muito repentino. Aconteceu alguma coisa entre vocês, da qual você não quer falar?
- Nada demais. Mas acho que é a rotina mesmo, cansei do humor dela.
- Você já falou com ela sobre isso?
- Falar o que? Não dá para ter essa conversa, "Querida, estou cansado de você e não te quero mais."
- Mas você vai precisar. Talvez você reconsidere se dialogar.
- O problema, é que não quero reconsiderar, nem dialogar. Quero terminar mesmo. Ela é muito egoísta e eu não conhecia esse lado dela. No começo, quando eu descobri o quanto ela era egoísta e possessiva eu tentei conviver, mas de uns tempos para cá está impossível.
- Eu não sabia disso. Assim fica difícil eu dizer qualquer coisa.
- Bem, na verdade não é sobre ela que quero seu conselho. E sim sobre outra pessoa.
- Não estou entendo.
- É simples. Eu estou apaixonado pela Aiya, e estou disposto a terminar meu casamento por ela. Já que você é amigo dela também, o que acha de nós dois juntos?
- Acho... – As palavras não queriam sair. - Acho que pode dar certo.
- E será que você poderia descobrir se ela sente alguma coisa por mim?
Henrique ficou olhando para Leandro, sem saber o que dizer. Era difícil digerir o que tinha acabado de ouvir. Precisa responder alguma coisa, qualquer coisa que não fosse um palavrão ou um ataque de riso histérico.
- Posso tentar. – Respondeu afinal.
- Obrigado carinha, fico devendo pra você. – Disse Leandro batendo nas costas de Henrique. – Está na hora de pegar estrada, vamos embora?


Depois do pedágio, ele parou. Encostado na traseira do carro e fumando um cigarro ele refletia. Tentava entender o motivo do Leandro, e como poderia explicar para o amigo que o pedido dele era impossível. E quanto a Aiya, o que ela acharia disso tudo?
"Será pedir muito, que as coisas não sejam tão complicadas?" – Pensou enquanto jogava a bituca de cigarro.

Henrique colocou uma música da banda 3 Doors Down e tentou distrair a mente enquanto dirigia.
Na hora do refrão, cantou junto:
"I'm here without you, baby
But you're still on my lonely mind
I think about you, baby
And I dream about you all the time
I'm here without you, baby
But you're still with me in my dreams
And tonight, it's only you and me"

Por: Fernando do Amaral - 12/12/2014

Parte 3 – Amigos

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Ele não lembrava exatamente quanto tempo tinha desde aquele episódio. Para esse tipo de coisa, ele acreditava que era o tempo de uma vida.
Porém lembrava nitidamente que não estava em um estado muito bom de espírito, tinha abandonado muitos projetos e sonhos e entrara em uma de curtir a vida a qualquer custo. Trabalhava em uma livraria, passava grande parte do tempo olhando capas de livros, sem interesse em ler nenhum e indagando se os clientes ávidos por leitura, não eram anormais.
O que ganhava, era reservado para as noites semanais em bares com música dançante.
Consumia quantidade exagerada de bebida alcoólica, e tentava ser feliz falando com estranhos, atrás de uma breve amizade.
Em uma noite dessas, sentou ao seu lado um rapaz loiro de cabelos encaracolados. O rapaz parecia apreensivo, mexia as mãos nervosas atrás de algo no bolso, e então lançou um olhar desolado para a moça do balcão.
- Merda! Esqueci minha carteira. – Ele levantou se da cadeira. – Só queria tomar uma dose.
- Uma dose eu posso te oferecer. – Disse Henrique sem pensar.
- Quem é você?
- Prazer. Meu nome é Henrique. – Ele disse estendendo a mão.
O rapaz ficou desconfiado, mas também estendeu.
- Sou o Leandro. É sério mesmo? Vai pagar bebida para um desconhecido?
- Aproveita cara. Quem está falando por mim é a cerveja.
Leandro riu uma risada que eliminou a desconfiança.
- A sim, a cerveja. A velha é boa cupido dos amigos.
- Cúpido?
- Foi meio gay isso né? – Comentou Leandro rindo.
- Não tenho preconceito, mas só convido para beber, motel não.
Ambos riram.

Alguns copos depois e já estavam se tratando como velhos amigos. Leandro estava nervoso, tinha pedido a namorada em casamento e esperava a resposta. Era um rapaz bem estruturado, formado em administração, com casa própria e carro, tinha um bom emprego e agora queria casar. O oposto do novo amigo, que tinha como expectativa torrar o salário em farra.
A conversa entre os dois transcorria muito bem, até o momento em que Leandro tocou o braço de Henrique e fez um gesto com a cabeça, indicando para ele olhar para outro lado.
- Está vendo aquela gostosa de shortinho? Ela está secando você já faz um tempo.
- Eu? – Ele disse olhando discretamente. – Será?
- Vai lá que é certeza. E ela está acompanhada da morena de blusa branca, se você for eu também saio ganhando.
- Mas você não vai casar?
- Não significa muita coisa, se ainda não recebi um sim.
- Mesmo assim...
- Vai logo carinha. – Disse Leandro, sem deixar o outro concluir a frase.
Henrique levantou-se pouco à vontade, passou a mão direita no cabelo e verificou discretamente se não estava com bafo. Colocou as mãos no bolso e caminhou confiante ao encontro da moça.
- Boa noite. – Ele disse olhando fixamente para os lábios da moça. – Pergunto se você e sua amiga aceitam um drinque, comigo e meu amigo.
O semblante descontraído da moça mudou para algo similar ao medo.
- Moço vá embora, por favor. – Ela disse baixo olhando com receio para os lados.
- Mas por quê? - Perguntou Henrique jovialmente. E então ouviu cadeiras empurradas, copos caindo e um estranho alvoroço. Virou para o lado para ver o que estava acontecendo e viu um homem partindo em sua direção como uma locomotiva desgovernada.
- Ei calma. – Ele disse abrindo os braços em sinal de paz. – Já entendi, desculpe!
O homem chutou uma cadeira, que vou violentamente contra as pernas de Henrique, que ao se proteger da cadeira sentiu um pesado soco acertar seu nariz. A pancada doeu e o sangue escorreu livremente, ele ficou atordoado, sentiu as pernas fraquejarem.
- PARE LUIZ! – Gritavam as duas mulheres.
Mas o brutamonte Luiz estava interessando em espancar a vítima, principalmente por razão de nenhum curioso demonstrar que ia interferir.
Ele preparou mais um soco, mas seu braço foi impedido por uma mão que o segurou com firmeza. E ao mesmo tempo suas pernas foram levantadas no ar, bateu a cabeça com força no chão. Tentou levantar se, mas Leandro o pressionava com os joelhos em seu peito.
- Promete que vai se acalmar, ou te arrebento.
Ele tentou desferir um soco em Leandro enquanto esperneava, mas então sentiu a pressão de um punho esmagar os lábios, a dor do impacto o fez desanimar da investida.
- Vai ficar quieto?
Ele não nada disse, e o corpo respondeu ao ficar imóvel.
Mais tarde, Leandro contou que treinava jiu jitsu e não precisava ter quebrado os dentes do agressor, bastava imobilizar, mas o fez por pura raiva.
E esse foi o verdadeiro início de uma grande amizade entre Henrique e Leandro.
De certa forma, Leandro salvou Henrique, oferecendo um emprego melhor e uma amizade despretensiosa.
- Você é um irmão que nunca tive. – Disse Leandro certa vez. – Um grande irmão, não esqueça jamais disso.

Henrique balançava o líquido dentro do copo enquanto olhava a garrafa vazia. Lembrar-se do passado não o ajudava muito, mas falar sobre, podia inspirar um bom conselho do ouvinte.
Tomás tinha ouvido tudo, sem interromper com perguntas. Ele estava sentando de frente para Henrique, com as pernas cruzadas e postura perfeitamente ereta, como se fosse para não amassar o elegante terno cáqui.
- E então? – Ele perguntou desfazendo-se do semblante pensativo. – Tem mais sobre Leandro, ou uma garrafa de vodca é tudo?
- Ah cara. Muita coisa vivencie com o Leandro depois disso. Depois do casamento, ele me transformou numa espécie de irmão confidente. E tudo que ele faz em família, tenta me incluir.
- Só em família? – Perguntou em tom malicioso.
- Não me faça falar mal do meu amigo, no entanto se quer saber, sempre o achei mulherengo. – Henrique olhou para o chão, como se procurasse uma desculpa por estar falando do outro amigo ausente. – Todo mundo tem defeitos, isso não importa, o que é realmente importante, é que ele me considera como um irmão.
- Você foi adotado. – Comentou Tomás rindo. – Um irmão adotivo.
- Algo do tipo. Quer abrir outra vodca?
Tomás fez que sim com a cabeça e então disse:
- Aprecio a amizade de vocês. Você deve ter considerações por ele sim, mas tem que pensar em você também. Não deve aceitar ser o cúpido entre a mulher que você ama e seu amigo.
- Ele não sabe disso.
- Tenha uma conversa franca com ele.
- Não é fácil, não sei nem por onde começar. – Disse Henrique abrindo a garrafa de vodca.
- É rapaz. As palavras mais difíceis são aquelas que carregam a sinceridade. E um homem não deve temer falá-las e nem as ouvir.
Henrique colocou uma dose de vodca para Tomás, que virou de vez, depois limpou a boca com os nós dos dedos e disse:
- Está aconchegante seu lar. Mas preciso seguir meu caminho.
- Já que está de saída, vou aproveitar o resto do domingo para dormir.
- Tenha bons sonhos meu amigo. – Disse Tomás pegando na não de Henrique. – E lembre-se de uma coisa importante, o Leandro já tem uma mulher. Não preciso nem comentar, que se ele não a valoriza como esposa, não é problema seu.
Henrique concordou com um sorriso indeciso. E Tomás concluiu:
- É problema seu abdicar um possível futuro feliz com Aiya.
- Possível?
- É rapaz. – Disse Tomás caminhado para a porta. – Ao invés de descobrir se ela gosta dele, descubra se ela gosta de você!
Henrique abriu a porta para Tomás e ficou pensativo.
- E se ela gostar dele? E se ela sente algo por Leandro?
Tomás pareceu não se importar.
- Se for o caso, então será assunto para outro dia. Por agora, preciso ir. Até breve!

Parte 4 – A paixão de Fire.

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“Me diga sim, que incendiarei tudo o que te aflige, com o ardor do meu coração.”

Henrique estava trabalhando no automático, visualizava as planilhas no computador, e não se concentrava. Faltavam alguns minutos para a hora do almoço, quando Leandro entrou.
- Carinha, vamos almoçar?
Ele não estava à vontade para almoçar com Leandro e ser questionado sobre “problemas amorosos” do amigo. De fato, estava inclinado a recusar o convite.
“Porra, porque eu tenho ajudar meu amigo conquistar a mulher que amo?” – Pensou antes dizer não.
- Como assim você não vai almoçar com a gente? – Era Aiya quem apareceu de repente na porta, ao lado de Leandro.
Ela estava usando um Ray-ban enorme, um chapéu branco, que combinavam com a blusa azul celeste, e a calça xadrez. Estava deslumbrante.
Diante a presença hipnotizante de Aiya, Henrique respondeu.
- Verdade. É que estou tão absolvido no trabalho. Vamos sim.
- Meninos. Vou perguntar se a Amanda quer ir também.
Leandro lançou um olhar malicioso para o corpo de Aiya enquanto ela caminhava, e depois devolveu um sorriso insinuativo para Henrique.
- Pensou no que eu te disse carinha?
Henrique levantou-se da cadeira dizendo:
- Pensei. – Ele arrumou a gola da camisa. – E acho que não devo me envolver. Cara você é um homem casado, não um adolescente inexperiente.
- O que quer dizer com isso?
- Que referente a uma mulher, você não precisa da ajuda de ninguém.
Leandro sorriu concordando com a cabeça.
O almoço era em um restaurante acolhedor, mantinha uma decoração clássica, tocava música MPB em volume baixo e as cadeiras eram confortáveis. Henrique estava pouco à vontade, enquanto olhava o cardápio. Amanda comentava algo sobre um filme, e o Leandro fingia que prestava atenção no comentário, enquanto seus olhos focavam os seios de Aiya, que balançava a perna inquieta.
- Acho esse ator incrível! – Comentou Leandro.
“Sei o que você acha incrível.” – Pensou Henrique olhando por cima do cardápio.
- O que vai pedir Rique? – Aiya perguntou.
- Acho que vou de virado à paulista.
- Boa ideia. – Falou Amanda.
- Vou pedir também. – Concordou Aiya.
- Vamos todos então. – Disse Leandro entusiasmado. – Alguém aceita um vinho para acompanhar? Eu pago.
Durante o almoço, Amanda iniciou diversos assuntos, e Leandro aproveitou todos para chamar a atenção de Aiya com comentários que julgava significativo.
Aiya ria sempre, de forma inocente sem mostrar nenhum conhecimento sobre as diferentes emoções que a presença dela causava nos dois amigos.
- Se me dão licença, vou fumar. – Disse Henrique levantando-se.
- Posso ir com você? – Perguntou Aiya.
- Vocês vão mesmo me deixar sozinha?
- Não amiga, só vou fumar um cigarrinho, se não se importar com a fumaça, então venha.
Amanda fez um gesto de contrariada.
- Podem ir, vou esperar o Leandro voltar do banheiro.

- Não sabia que estava fumando... – Comentou Henrique.
Ela colocou o cigarro de forma desajeitada nos lábios.
- Existe primeira vez para tudo, não?
- Não vou ser moralista, dizendo que fumar faz mal e tudo mais. Porém é um vício feio para você, e homens não gostam muito de mulheres que fumam.
- Por isso que adoro você Rique. – Ela disse rindo. – E quantos aos homens, eu não estou nem aí. A maioria é hipócrita demais para merecer minha preocupação.
- Nossa. Quanta raiva... E quanto a mim? Sou hipócrita?
- Não Rique, você não.
- Então não sou homem?
- Bobo. – Ela disse rindo.
Depois que ela parou de rir, o encarou severamente e disse:
- Preciso conversar com você.
- O que é?
- Tem que ser depois, agora tem que voltar ao trabalho.
- Você sabe que isso ai é sacanagem certo? Não pode falar pra outra pessoa que precisa falar com ela depois. E se você morrer hoje? Como vou ficar?
- Bobo. – E ela riu.

Henrique esperou a tarde toda, a curiosidade estava atrapalhando o desempenho no trabalho. Sentia um misto de agonia com esperança.
“Ela quis ficar fumando comigo e ela nem fuma. E do jeito que ela disse que queria falar comigo...”
Ele suspirou.
“Aqueles lindos olhos me encarando seriamente. Será que estou exagerando?”
Ele riu para a tela do computador.
“Será que ouvirei daqueles lábios a palavra te amo?”
- Falou carinha! – A voz de Leandro trouxe Henrique de volta, que olhou imediatamente para o relógio.
“É agora! Agora que saberei.”
- Tá surdo carinha?
- Falou Leandro, estava concentrado aqui. – Ele disse desligando o computador. O batimento cardíaco estava forte, as mãos tremiam um pouco e sentiu o suor escorrer vagarosamente nas costas.
“Deus! Estou até parecendo um adolescente virgem.”
- Rique?
Ele estava olhando a tela do computador desligar e ao mesmo tempo pegando a chave do carro, quando ouviu a voz de Aiya, sentiu um frio percorrer o corpo e uma indescritível vontade de gritar, como se pudesse colocar para fora todas as emoções. No entanto, o que antes fora agonia, agora era uma espécie de alegria contida. Passaram em sua mente muitas cenas fantasiosas e românticas, em uma delas teve um lapso, e pode ver o amigo Leandro.
“Que direi para meu amigo?”
- Rique você está bem? – Perguntou Aiya.
- Desculpe Aiya, hoje estou um tanto avoado.
- Vim me despedir. – Ela disse depois de beija-lo no rosto.
- Mas... Mas você não queria conversar comigo? Pensei que eu ia te levar até sua casa.
- Amanhã Rique. Hoje o Leandro me convidou. Na verdade ele convidou antes do almoço.

O que durou alguns segundos, ela virando as costas e caminhando, para Henrique pareceu uma eternidade. Ficou absorto olhando a moça caminhar, seguindo os cabelos dela, que balançavam a cada passo. Em sua mente um turbilhão de pensamentos contraditórios, e todos eles destruíam impiedosamente as cenas românticas que criara minutos antes.
Ele pegou a chave do carro e caminhou para a saída, o corpo parecia movimentar se sem sua vontade. Sentia uma bola castigando a garganta, sufocando o peito e teve vontade de chorar, mas era como se no lugar de lágrimas fossem sair pedras, e então não chorou.

- Fire horrorosa! Olha só quem vem entrando... – Disse Rodrigo.
Ela o olhou procurando um lugar para sentar. Ele estava de calça jeans e camiseta branca, por um momento o associou com um pôster que tinha na parede do quarto, era a foto de Marlon Brando no filme Selvagem. Na verdade não tinha nenhuma semelhança, mas a mente às vezes faz estranhas comparações.
- Você perdoaria se eu te deixar um pouco sozinho?
- Hoje é um dia tranquilo, eu dou conta. Vá conversar com o bofe.
- Obrigada. – Ela disse tirando o avental.
- Não seja muito direta. Garotos ficam sem reação quando vocês divas tomam a iniciativa.
- Hum... Então agora sou diva? – Perguntou Kátia rindo.
- É só pra aumentar sua estima. – Respondeu Rodrigo piscando um olho. – Ah e levante esses peitos.

“Por milhões de diabos, acho que minha vida deve ser uma divertida sátira para as entidades superiores.” – Pensou se jogando na cadeira. – “Será que interpretei mal os sinais que recebi dela?”
Ele colocou as mãos na testa e fechou os olhos.
“Talvez não tinham sinais, eu é quem os criei e agora estou aqui como um idiota.”
“Um maldito idiota apaixonado.” – Ele deixou escapar um sorriso do canto da boca. – “É tão difícil admitir essas duas coisas, resumindo, não passo de um idiota apaixonado.”
- Vai querer o que hoje? – Perguntou Kátia, com a voz amigável.
“A moça do tigre cinza com os olhos verdes...” – Ele a olhou por alguns segundos. – “Hoje não tem tigre, hoje é só uma blusa preta da Jack Daniels.”
- Boa tarde, me traga uma cerveja e uma dose de vodca, por favor.

Kátia voltou com o pedido, colocou na mesa de Henrique, pegou em uma cadeira e perguntou:
- Você está esperando alguém?
- Não moça, pode levar a cadeira.
- Nossa! – Ela disse surpresa. – Acho que comecei mal.
- Não entendi. – Ele disse a olhando nos olhos.
Ela sorriu.
- Posso sentar aqui, com você?
Ele olhou surpreendido, ficou em pé e disse:
- É claro moça. – Ele puxou a cadeira para ela. – Sente-se, por favor.
- Obrigada.
- E quero saber por que sou merecedor da sua companhia.
“Assim, ela ficará verdadeiramente apaixonada.” – Pensou Rodrigo observando do balcão. – “Que bofe polido!”
Kátia tinha ensaiado aquele momento, porém o imprevisível atrapalhou o roteiro decorado.
“Por que você bebe tanto?” “Por que você é tão bonito?” – Era só o que vinha em mente.
- Meu nome é Kátia, as pessoas preferem Fire. – Ela pegou nas pontas do cabelo ruivo. – Por causa disso, acredita?
“Droga, estou parecendo uma aborrecente.” – Ela pensou ao ver no rosto de Henrique uma expressão de como quem diz: E daí?
- É diferente! – Ele disse. – Gostei.
Ele tomou de uma vez toda a vodca e depois se apresentou:
- Meu nome é Henrique. E as pessoas me chamam de Henrique mesmo.
“Ele tem senso de humor também!” – Ela pensou. “Gostei!”
- Pegue um copo, beba comigo. – Ele disse.
- Agora não posso... Ainda estou em serviço.
- Entendo... E veja bem, se eu falar alguma bobagem daqui para frente, não é que estou bêbado, mas sim você que está sóbria demais. – Ele riu.
Kátia também riu.
Ela tinha se preparado para quebrar o gelo, no entanto era ele quem tinha feito isso de forma natural. Decididamente, ele não era uma pessoa tímida.
- É estranho se eu revelar que quero conhecer você?
- De forma alguma Fire. Só espero não te desapontar.
Ela olhou o copo de cerveja na mão dele.
- Me permita dizer, você é tão jovem, bonito... Não deveria beber tanto.
- Direta você. Gosto disso. – Ele bebeu um gole. – Tirando a parte do jovem e bonito, também acho.
- Você tem algum... – Ela olhou preocupada. – Estou sendo inconveniente e chata?
Ele riu.
- Não. Você está sendo autêntica, e isso é melhor que bebida.
- Você tem algum motivo para beber?
Henrique pensou um pouco.
- Tem razão, é estranho mesmo um cara vir sozinho quase todos os dias em um bar e beber tanto. Eu também ficaria preocupado. Quer me revistar? Ver se estou armado? – Perguntou sorrindo.
“Olha que eu aceito o convite!” – Ela pensou.
- Respondendo a sua pergunta, eu não tenho motivos. – Encheu o copo novamente. – Gosto do efeito do álcool na minha mente.

Henrique e Kátia conversaram por horas, durante o diálogo ele pediu mais duas cervejas.
Ela ficou sabendo que ele morava sozinho, preferia ouvir rock, não tinha nenhuma aversão por outros estilos musicas, e não era muito ligado em livros, preferia assistir filmes em casa a ir ao cinema. Tinha compromisso com o trabalho e não tinha planos para o futuro.
Kátia não teve sucesso ao tentar descobrir sobre laços familiares. Ele não mencionou nenhum membro da família, e ela achou melhor não entrar no assunto.
“Por enquanto não.” – Ela pensou olhando a boca dele enquanto falava. – “Um mistério por vez.”
- E você Fire? Suponho que você tenha... Alguém? – Perguntou Henrique. Ele tentava esquecer a decepção com Aiya, mas essa pergunta o fez imaginar o que ela estava fazendo com Leandro no momento. Sentiu um impulso de inquietação.
- Não. Já teve a sensação de uma coisa normal, que não funciona para você?
- Acho que sim. – Ele respondeu olhando para o relógio.
- Então... Para mim, é essa coisa de ter alguém.
- Eu acredito em você. Geralmente pessoas feias ou chatas, ou ambas, tem uma incrível facilidade de se darem bem no amor.
- Não entendi se isso foi um elogio ou uma ironia.
- Só posso dizer que o “alguém” que entrar na sua vida, terá muita sorte.
Eles ficaram por alguns instantes em silêncio, ela estava se preparando para falar de uma vez o que queria, precisava ser mais objetiva, mas tinha medo de ser cedo demais e ele interpretar tudo errado. E então Henrique interrompeu o pensamento dela.
- Se existiu algo de bom hoje, foi ter conhecido você. – Ele se levantou, pegou na mão dela, a convidando para ficar em pé também. – Preciso ir, e estou feliz em saber que agora tenho outro motivo para vir aqui. – Deu um abraço e um beijo no rosto dela.
Ela o acompanhou até o balcão para pagar a conta.
- Conheça o Rodrigo, meu amigo. – Ela disse indo para o outro lado do balcão. – E Rodrigo, conheça Henrique.
- Prazer cara. – Ele disse cumprimentando Rodrigo com um aperto de mão.
Depois que ele pagou, despediu se dos dois e foi embora.
Kátia com os cotovelos apoiados no balcão, admirava as costas dele enquanto passava pela porta. Era um rapaz charmoso, interessante, gentil e bonito. Mas por alguma razão tinha um ar tão triste, como se conhecesse o sofrimento mais que outras coisas.
“Me diga sim, que incendiarei tudo o que te aflige, com o ardor do meu coração.” – Ela pensou.
- Pelo visto, esse te fisgou Fire. – Comentou Rodrigo.
- Seja franco comigo Rô. O pouco que você viu dele, é um cara que merece ser conhecido.
- Todo gentleman... Raridade hoje em dia. – Ele comentou.
- Você também é gentleman.
- Ui! Eu sou uma dama meu bem.

Por: Fernando do Amaral - 15/01/2015

Parte 5 – Frenética ilusão.

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Em um campo abandonado.
- Hoje eu devia estar trabalhando. – Disse Henrique.
- Ruim pra você, eu estou de folga. – Disse Tomás. – E então o que te aconteceu para não ir trabalhar?
- Desculpe por atrapalhar sua folga e te chamar até aqui.
- Eu gosto desse lugar. – Comentou Tomás. – É tranquilo, é bom para pôr os pensamentos em ordem, embora tenha alguns adolescentes namorando, bebendo ou fumando. Mas na maioria das vezes é bem silencioso aqui.
- Também gosto desse lugar. – Henrique apontou uma goiabeira. – Tá vendo aquela ali? Já transei umas duas vezes ali.
- Sem detalhes. – Pediu Tomás rindo. – Não quero imaginar a desventura da pobre goiabeira.
- Pois é. Bons tempos.
- E o que faz aqui? Resolveu faltar um dia no trabalho em prol da nostalgia?
- Aquele assunto sabe? – Disse Henrique pensativo. – Parece estranho, não me sinto muito bem olhar para ela depois de ontem.
- O que mais poderia ser? A sempre adorada ladra do coração do meu amigo. – Ironizou Tomás.
Os dois estavam sentados em uma pequena elevação, que em alguns dias era usado como uma arquibancada natural para assistir os meninos jogando bola no campo. Ao lado de Henrique, tinha uma garrafa de vodca e um maço de cigarros. Já fazia algumas horas que estava no frenético consumo de ambos. Ele passou a mão na grama alta, e com um olhar abatido, começou a falar.
- Eu não entendo. – Fez uma pausa para puxar a fumaça. – Será que é normal eu gostar tanto assim dela? – Soltou uma longa baforada. – Eu nunca dei um beijo nela, não tenho nenhuma espécie de história de vida com ela, e mesmo assim, estou perdendo o meu rumo por ela. Não pode ser normal, deve ser uma doença mental, uma fixação ou obsessão... O que você acha?
Tomás tamborilava a garrafa de vodca e antes de responder olhou por um tempo uma ave no céu. Parecia não prestar atenção no amigo.
- Você acha estranho gostar tanto assim de uma mulher?
- E não é? Digo, seria normal se eu fosse uma adolescente... Eu nunca vi ninguém sofrer assim por outra pessoa como eu sofro.
- E o que você sabe sofre o sofrimento alheio?
- Tudo bem... Sei que algumas mulheres se acabam por um amor. Mas neste caso, ela teve uma história com o cara, e por outro lado é uma mulher... Nós homens não somos de ter essas fraquezas de amor.
- Não seja tolo. A maioria esconde esses sentimentos. Fraqueza mesmo é não se permitir sentir o amor, que aliás, é uma palavra muito forte para associar com fraco.
Henrique lançou um olhar de compreensão.
- Não deveria te falar essas coisas. É tão... Tão desinteressante. Deveríamos falar de futebol, mulheres gostosas, carros...
- Por ora, estou interessado em ouvir você falar sobre Aiya.
- Não estou chateando você?
- De forma alguma, grandes odes, as melhores foram feitas por um coração igual o teu. É preciso ter coragem para falar sobre os sentimentos bonitos.
- Eu não sou poeta. – Disse Henrique rindo um pouco. – Sou um bêbado apaixonado por alguém que não sente o mesmo por mim. – Bebeu um bom gole da vodca.
- Você pensa demais. Considera muito e julga todo o quadro só por sua perspectiva.
- O que quer dizer exatamente?
- Você fala como se ela tivesse te dispensado. Já tentou conhecer ela melhor? Já disse a ela sobre os seus sentimentos?
- Não. Ela está ocupada demais com um cara casado.
- É o que acha que aconteceu?
- Bem... – Henrique vacilou um pouco. – Ela disse que queria falar comigo, e depois quando eu a estava esperando, ela veio se despedir, dizendo que o Leandro a convidou para sair. Provavelmente, ela ia me contar que estava tendo um caso com ele.
Tomás acendeu um cigarro.
- Disso você não sabe. Criou um mundo fantástico na sua cabeça. Você me disse que ela queria falar com você não é?
- Sim.
- E não passou por sua cabeça, que o ela tinha para falar, pode derrubar seu mundo fantástico?
- Não pensei nisso. – Falou pensativo. – E você não respondeu se é normal o que eu sinto por ela.
- Você não é um anormal, se quer saber. E o que você sente ninguém pode compreender, talvez nem você mesmo. É uma coisa que o tempo te dará a resposta. Talvez seja uma ilusão, uma paixão ou realmente amor. Mas seja o que for não deixe isso acabar com você antes do tempo.
- Você deveria escrever um livro de autoajuda. – Brincou Henrique.
- Sim. E você será meu personagem principal.
Eles riram.
- Viu? Já está até fazendo piadas.
- Na verdade fica oscilando. Tem horas que esqueço um pouco, mas logo eu me lembro do sorriso dela e então tenho vontade de ouvir Air Supply no escuro.
- Bryan Adams? Phil Collins? Elton John? Richard Marx? – Brincou Tomás.
Henrique sorriu triste.
- É amigo. A lista vai longe.
Fizeram silêncio enquanto colocavam vodca no copo.
- Por falar nisso, sabe que às vezes eu imagino Aiya cantando Cyndi Lauper para mim?
- Como?
- Ela está sozinha no quarto, deitada de pijama, pensando em mim e cantando.
A risada de Tomás foi um tanto escandalosa, e depois de rir ele disse:
- Deixe-me adivinhar... If you're lost you can look .And you will find me, time after time. – Cantou.
- Você adora um standup particular… – Lamentou Henrique.
- Brincadeiras melhoram um pouco sua autoestima. E você vai precisar.
- Vou?
- Vai sim. Pare de perder seu tempo aqui comigo, vá ouvir o que Aiya tem a dizer meu caro.
- Amanhã eu falarei com ela, hoje não estou pronto.
- Então vamos terminar de beber. – Disse Tomás virando o copo.
- Conheci uma garota ontem que reprovaria sua atitude, assim como reprovou a minha.
- Ela não gosta de quem bebe?
- Não sei direito, acho que ele deve ter passado por alguma experiência ruim.
- Você gostou dela?
Henrique pensou um pouco.
- Tem uma personalidade cativante, além disso, talvez eu esteja enganado, mas acho que ela está afim de algo além de amizade comigo.
Henrique olhou a expressão divertida no rosto do Tomás e continuou:
- Eu sou muito atraente não é mesmo? A Aiya deveria perceber isso.
Tomás mostrou a garrafa vazia.
- Você fica mais atraente enquanto bebo vodca. – Tomás balançou a garrafa no ar. – Está vendo? Acabou...
- Boa ideia. Tem um bar aqui perto, vou comprar mais bebidas.

Por: Fernando do Amaral - 23/01/2015

Parte 6 – Estranhos iguais.

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Ela insistiu, ligou mais uma vez para o número, e aguardou ser atendida, e como das outras vezes, caiu na caixa postal. Guardou o celular na bolsa, olhou pensativa para o ponto de ônibus. Tinha um ar triste àquela tarde, talvez o dia por inteiro, estava sem graça. A ausência do amigo no trabalho podia ser sentida na empresa, como se sem ele, o lugar não fosse o mesmo.
“Claro, quando comecei a trabalhar aqui, ele foi com quem me simpatizei primeiro.” – Ela pensou pegando o celular novamente. – “É óbvio que eu sinta a falta dele, por que será ele faltou hoje?”
“Não é de faltar... E raios, podia pelo menos atender o celular.”
Aiya fez sinal para um táxi. Ela não pretendia ir para casa, queria encontrar com Henrique, e fazia uma ideia de onde começar a procurar.

Ela parou em frente ao bar do Beco, pagou o táxi e saiu do carro. Olhou desconfiada em volta, nunca tinha frequentado o bar, mas o conhecia de tanto ouvir Henrique falar, que era ali onde costumava beber sozinho e refletir.
Não tinha muitas pessoas, um casal tomava vinho logo na entrada do lado de fora, do outro lado três amigos bebiam chope e falavam alto.
Dentro do bar, ela viu mais algumas pessoas conversando e bebendo, o lugar era aconchegante.
Ela sentou se pouco à vontade ao lado de uma janela decorativa, o lugar imitava um bar mexicano.
“Bonito, mas eu trocaria a cor das cadeiras” – Ela pensou. – “E ele não está por aqui, achei que seria mais fácil, vou tomar alguma coisa enquanto espero, vou confiar em minha intuição.”
- Boa noite. O que vai ser?
Aiya olhou para a moça e imediatamente gostou da cor do cabelo dela.
- Vou querer... Vocês tem cerveja artesanal? – Ela perguntou confusa, mas antes que a garçonete respondesse, mudou de ideia. – Esqueça, vou querer tequila e uma coca cola.
Ela gostava de tequila, gostava de limão e sal e se tinha um momento para beber, era aquele.
Apreciou a generosa dose de tequila que a moça de cabelo vermelho depositara na mesa, sentiu o cheiro do limão e se preparou para tomar.
Ficou um pouco tímida, lambeu as costas da mão, colocou o sal na área lambida e quando ela pegou o limão, o viu entrar pela porta.

Henrique deveria ir para casa depois de beber tanto. Porém ele queria conversar com Kátia, não estava se sentindo exatamente sóbrio, mas se conseguia dirigir então ia conseguir falar com a bela moça de cabelos cor de fogo.
Tomás tinha advertido que ele deveria ser sincero com Fire. Deixar claro para ela que pretendia ficar somente na amizade.
- Seja um homem e não a deixe alimentar uma paixão que você não pretende. – Tinha dito Tomás.
E agora ali estava Henrique, com um semblante abobado, procurando por Kátia. Ele queria falar com Aiya no outro dia, antes precisava livrar sua consciência de decepcionar uma pessoa tão singular como Kátia.

- Fire... – Disse Rodrigo com voz zombeteira. – Acho que você tem visita.
Ela virou a cabeça para olhar para entrada, e o viu em pé, parado e sorrindo para ela.
Depois da conversa, Kátia tinha pensado muito em Henrique. Existia algo de especial no rapaz, porém um algo a mais. Era aquela tristeza que ele não conseguia esconder com o charme e beleza. Ela também considerou se existia uma possibilidade de ele ter algum interesse por ela, e embora acreditasse que sim, existia aquela voz sábia no fundo da mente que dizia o contrário.
Mas era uma mulher que estava ficando apaixonada, e estava agindo como tal.
Foi ao encontro dele, o abraçou e deu um tímido beijo no rosto. Tinha colocado um perfume diferente, usava blusinha branca decota e uma calça jeans cintura baixa. Não estava vulgar, estava sexy.
E ela vibrou por dentro quando Henrique a olhou admirado.
“Ele percebeu que me vesti para ele.”
Talvez, se não fosse a emoção falando mais alto, ela teria percebido o cheiro de vodca pura em Henrique.
- Oi Fire. Vim conversar com minha nova amiga.
A palavra amiga não era esperada por ela, mesmo assim não deixou que isso atrapalhasse o sorriso.
Henrique ia a convidar para sentar, e ao procurar um lugar, seu olho encontrou com os de Aiya que o encarava sorrindo.
Ela estava sentada no mesmo lugar que ele costumava se sentar. As pernas cruzadas e balançando um pouco, usava um vestido preto com bolinhas brancas e uma bota marrom.
Para ele, estava com sempre, inexplicavelmente maravilhosa. Por um instante, esqueceu que estava confuso por ela ter saído com Leandro, esqueceu o sentimento de tristeza que tinha alimentado todo esse tempo, e deixou ser tragado por uma espécie de gratidão por poder ver aquele sorriso sendo dirigido a ele.
- Está tudo bem com você? – Perguntou Kátia, surpreendida pela súbita mudança em Henrique.
- Está sim Fire, venha comigo, vou apresentar você para Aiya.
Kátia olhou em direção a mesa que Henrique estava olhando, e quando viu aquela moça que acabara de servir, entendeu tudo. Talvez não exatamente tudo, mas entendeu principalmente a estranha tristeza dentro de Henrique.
Não importava o quanto bebia, ria, falava ou se divertia. Existia em Henrique uma insatisfação, como um espinho no peito, que somente pessoas mais sensíveis conseguiam perceber. Pessoas como Kátia.
E ela percebeu que aquele espinho cravado em Henrique, deixara de existir assim que ele viu aquela moça mestiça.
“Eu posso me perfumar, me vestir melhor, ficar mais sexy e até fazer os gostos dele. Porém, definitivamente não posso fazer nada contra um coração que já tem dona.” – Pensou Kátia, olhando para Aiya, sem deixar transparecer tristeza.
“Que irônico, queria tanto saber o que perturbava ele, mas não queria que ele me transferisse esse vazio.” – Pensava Kátia enquanto cumprimentava Aiya. – “Bobeira da minha parte, ele nem é tudo isso, é somente um futuro alcoólatra.”
- Ainda bem que ela está aqui. – Disse Kátia olhando para Henrique. – Hoje estou bem ocupada, não poderia sentar-me com você.
- Adorei seu cabelo. – Ela disse com sinceridade quase tangível, se existiam sentimentos confusos por ali, Aiya não percebera.
- Obrigada. – Disse Kátia.
- Eu queria falar antes, só que tive receio de você interpretar errado. Se você é amiga de Henrique, então também será minha amiga.
Kátia sorriu.
- Então pode começar a me chamar de Fire. E você caro amigo de bar? Vai beber o que hoje?
“Amigo de bar? E eu que pensei que ela estava afim de mim.” – Pensou Henrique. – “Acho que me enganei, ela só queria amizade mesmo. Que gafe eu ia cometer...”
- Vou querer uma cerveja mesmo.
- Você está com uma cara cansada... Porém me parece que está bem. – Disse Aiya depois que Kátia saiu.
- Sim eu estou bem. – “Melhor agora.” – Pensou.
- E qual o motivo do senhor não ir trabalhar hoje e me deixar sozinha?
- Acordei com uma sensação estranha, e não quis levar o meu mau humor para o trabalho.
- Que bonito. Sensação coisa nenhuma, você se deu folga.
Ambos riram. Ela começou a falar sobre o dia e como sentiu falta do amigo no trabalho. Ele inventou uma história que passou o dia arrumando as coisas em casa.

- Tudo bem Fire? – Perguntou Rodrigo preocupado. Não era exatamente um sensitivo, mas captou em Kátia uma mudança de estado de espírito. E provavelmente, o culpado estava sentado ali na frente com uma garota japonesa, ou mestiça.
Ela pensou por um tempo antes de responder.
- Sinto que algo bom evaporou, e deixou no lugar um vazio. E ao mesmo tempo, me sinto grata por ter acontecido cedo, antes que fosse alimentado e ficasse maior do que eu. Pensando assim, posso dizer que está tudo bem.
Rodrigo ficou sensibilizado, desejou abraça-la, e faria isso em outro momento de descontração. Pegou nos ombros dela e disse:
- Boba. Não existe nada maior que você. O que existe a rodo, são pessoas que não merecem ganhar seu coração.
Ela sorriu. E ele continuou:
- Minha Madonna não perca tempo aqui, aposto que lá na faculdade tem muitos bofes maravilhosos.
- Tem sim. Você ia se sentir em um harém de putos.
Ela não voltou mais a mesa de Henrique.

- Rique. Você sabe que é proposital eu estar aqui? – Ela falou de repente depois de falarem alguns assuntos da empresa.
Ele ficou realmente admirado.
- Liguei para você o dia todo, não me atendeu uma única vez. Então achei que te encontraria aqui.
- Me desculpe, eu não olhei o celular, achei que ninguém me ligaria. E também é novidade para mim que você fique preocupada.
Ela já estava um pouco alta por causa da bebida e demonstrou indignação.
- Nossa, obrigada por pensar assim.
- Não quis... – Ele começou a dizer, mas foi interrompido quando ela bateu na mesa. Estava realmente indignada.
- Você é o meu amigo, meu melhor amigo. É claro que eu me preocupo com você. Já dividimos tanto um com o outro e vem você me falar isso. Francamente...
- Me perdoe. Acho que fui injusto mesmo nas palavras.
Depois que ela ficou mais calma, disse:
- E por falar nisso, em dividir. Lembra que eu disse que queria falar com você?
Ele fez uma encenação, como se tivesse esquecido e então algo súbito o fez lembrar.
- Ah sim, lembro... Foi ontem, quando você estava fumando comigo. – Disse como se não desse muita importância para o assunto, somente ele sabia o quanto aguardava ansiosamente conversar sobre isso.
- E podemos falar agora?
- Sim, por favor, não me mate mais de curiosidade.
Ela pegou o copo de cerveja e tomou, não gostava muito.
- É sobre o Leandro. – Ela fez uma pausa incomoda, encarando Henrique. – Eu queria perguntar a você, se achava se ele estava confundindo as coisas comigo. Porém ontem resolvi aceitar o convite dele, talvez fosse uma má impressão minha. E que surpresa eu tive quando ele confirmou que está mesmo afim de mim...
- Que tipo de surpresa? – Perguntou com receio.
- O cara é casado. Claro que é uma péssima surpresa.
Henrique respirou com alívio, teve a sensação que o sol despontava depois de uma forte tempestade.
- E se fosse diferente? Digo e se ele não fosse casado?
Ela deu de ombros.
- Não vem ao caso. Nem pensei nisso. O que importa, é que ontem tive um momento desagradável com ele. Hoje nem falei com ele. Como pode me tratar como se eu fosse uma amante? – Ela bebeu mais um gole de cerveja. – Nojenta essa atitude de vocês homens.
Henrique concordou com a cabeça, e fez um gesto pedindo mais uma cerveja.
- Eu te contei de como minha mãe ficou quando descobriu que meu pai tinha outra. – Ela falou. – Jamais uma mulher sofrerá dessa forma por minha causa.
- Infelizmente, nem todos ou todas pensam igual a você. – Henrique afirmou. – Por falar nisso, você não errou em aceitar sair com ele?
- Sim eu errei em aceitar, não deveria... Pensei que talvez fosse coisa da minha cabeça. – Ela disse com as mãos na testa. – Sempre fomos amigos, e da forma que ele me abordou, achei que tinha algo importante para desabafar. Além disso, não é a primeira vez que eu aceito uma carona sua ou dele.
- É verdade.
Eles fizeram alguns minutos de silêncio, como se estivessem avaliando o que deveriam dizer a seguir. Henrique pensou em pegar na mão dela para confortá-la, tomou o impulso no momento em que ela afastou a cadeira para trás e perguntou:
- E você sabia que o Leandro... – Ela fez mais uma pausa, a bebida começava atrapalhar. – Sabia que ele estava com esse propósito? Não o apoiou, espero.
- Ele é muito meu amigo. Devo muito a ele. Mesmo assim, não me envolvo nesse aspecto da vida dele. – Disse Henrique convincente, não queria responder que sabia sobre os planos do amigo.
- Acho bom. – Ela disse tentando sorrir. – E agora? Diz-me o que farei a partir de hoje para não tornar a convivência profissional uma merda.
Aiya não era de falar palavrão. Raramente Henrique a flagrou praguejando ou usando termos obscenos durante um diálogo.
- Bem... Está feito. Ele disse o que disse você gostando ou não. E agora ambos terão que se entender. – Ele vacilou um pouco olhando para os lábios dela. – Peço para não me envolver, valorizo a amizade dele e... Gosto muito de você.
- Adoro você Rique. Sua sinceridade é doa a quem doer.
- Mesmo? Adora-me? – Ele riu. – As veze eu percebo você me olhando na empresa, daí quando eu te olho, você para de olhar ou faz alguma brincadeira, tipo uma careta.
- E? – Ela perguntou.
- Eu fico imaginando. O que você vê quando olha para mim?
Ela riu, aparentemente tinha esquecido sobre Leandro.
- Algo estranho que não posso compreender e que ao mesmo tempo adoro.
- Hum... – Ele olhou o relógio. – Bem, o estranho aqui vai pagar a conta e levar a senhorita para casa.
- É o mínimo por ter faltado hoje. Dá próxima vez, avise. Eu falto com você para tomar vodca.
Ele a olhou curioso.
- Como sabe que bebi vodca?
- Você está com cheiro de quem tomou banho de vodca mocinho. – Olhou apreensiva. – Não beba tanto assim Rique, te fará mal.


Depois que ele parou em frente da casa dela, Aiya deu um abraço demorado em Henrique, e o beijou no rosto dizendo:
- Obrigada por existir, às vezes me sinto tão sozinha. E você sabe que eu tinha uma ótima amizade com Leandro, nós três éramos especiais e ele estragou tudo... Ainda bem que tenho você Rique.

Ela saiu, fechou a porta do carro, e acenou para Henrique antes de sumir pelo portão da casa.
Quando ele estava dirigindo de volta para casa, não sabia descrever exatamente o que sentia. Não estava feliz, tão pouco triste, estava confuso e inquieto. Precisava conversar com o amigo Tomás.
Segurava o volante com firmeza e quando viu a estrada livre, resolveu aumentar a velocidade, queria chegar logo em casa, tomar banho, talvez assistir a um filme e dormir. Era uma rua escura e não tinha curva, quando passou a quarta marcha, um pequeno cachorro amarelo entrou na frente.
- Filho da puta!
Henrique era um bom motorista, mesmo em condições adversas, seu reflexo foi instantâneo e tirou o carro para a esquerda sem diminuir a marcha, porém antes que pudesse corrigir o curso, outro carro bateu contra ele e o jogou no muro. Bateu com força a cabeça no volante e tudo ficou escuro.

O outro motorista em alta velocidade conduziu como pode o carro desgovernado, mas não parou. Se estivesse devagar, não teria causado acidente, e mesmo assim se os faróis estivessem ligados, certamente Henrique teria visto.
Poderia ter parado e prestado socorro, se não tivesse motivos para não querer contato com a polícia. Através do espelho viu que o homem não estava se mexendo.
“Será que ele morreu?” – Pensou enquanto acelerava a picape sem sinalização.

Por: Fernando do Amaral - 29/01/2015

Parte 7 – O retorno de Tomás.

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- Podemos ver ele doutor? – Perguntou um senhor barbudo, abraçado a uma elegante senhora. Ambos com cabelos grisalhos.
- Os senhores são os pais?
- Sim. – Respondeu o senhor barbudo. – Como ele está?
- Senhor João e dona Lourdes? – Perguntou o médico examinando a ficha do paciente. – Henrique já está acordado, desmaiou com a pancada na cabeça, está reclamando de dores musculares, nada sério. – Respondeu o médico.

“Só pode ser uma lição.” – Pensou Henrique olhando para o teto do hospital. – “Com tantas coisas para ocupar a mente, e eu bancando um apaixonado. Se ainda fosse real...”
Henrique estava sentindo todo o corpo doer, tinha a sensação que levara uma violenta surra.
Quando acordou mobilizado na maca, teve confusão momentânea, não sabia o que estava acontecendo. Demorou um pouco cair à ficha, e perceber que estava dentro de uma ambulância e tinha sofrido um acidente.
“Merda!” – Foi o primeiro pensamento lúcido que teve.
Agora deitado na cama, pensava o que deveria depor para a polícia depois de receber alta.
“Vou dizer que desviei por causa de um cachorro e um filho da puta com faróis apagados me pegou em cheio.” – Pensou olhando para o braço. – “Se fizerem exame de sangue, vão encontrar álcool.”
Enquanto pensava no posterior, não percebeu a porta que abrira lentamente e duas pessoas entrara.
- JH? Como está rapaz?
Somente uma pessoa o chamava assim, seu pai. Henrique olhou assustado e com pouco esforço, sentou se na cama. Seus pais o encaravam.
- Ora então para meus queridos pais me visitarem, tem que morrer? – Brincou Henrique abrindo os braços para abraçar a mãe.
- Não diga isso menino. Você é quem se esqueceu de nós. – Disse Lourdes. – O que te aconteceu?
João o pai, deu um abraço forte em Henrique, que o fez sentir as dores musculares correndo pelo corpo.
- Pai, não é assim que se abraça um doente... – Protestou. – Quase quebra minha espinha.
- Frescura sua JH, e responda tua mãe. O que te aconteceu?
Henrique ficou feliz com a visita repentina dos pais, fazia um tempo que não os via.
Moravam próximos, mas não tinha o hábito de visitar os pais. Principalmente porque já fazia certo tempo que começara a ingerir bebida alcoólica em excesso, e ele queria evitar passar essa imagem para os pais.
- Um cachorro entrou na minha frente, quando desviei um carro bateu em mim.
- Podia ter usado o freio.
- Mas não usei pai...
João olhou para Lourdes, como se esperasse a autorização dela para fazer uma pergunta, estava um pouco nervoso. Lourdes fez um discreto movimento com a cabeça, e João interpretou que seria um sim.
- Preciso que seja sincero. – Falou João sério.
- É para seu próprio bem João Henrique. – Começou a dizer Lourdes. – E também estamos preocupados com você.
- Quanto suspense... Pois perguntem, nada tenho a temer.
João fez um breve silêncio, pegou na mão de Henrique e perguntou:
- Quando o acidente aconteceu, Tomás estava com você?
- Não. – Respondeu de imediato, revelando irritação na voz.
- Tem falado com ele? – Perguntou a mãe.
- Não mãe, é claro que não. Tomás é coisa do passado, por favor, parem de me perguntar sobre isso.
- Tudo bem, tudo bem. Não fique nervoso. – Disse João. – Você vai sair que horas?
- Acho que meio dia, o doutor vai passar aqui ainda.
Lourdes sorriu.
- Então hoje você vai almoçar com nós!
- Mas mãe, eu preciso fazer tantas coisas, tenho que ver o carro...
- João Henrique. – Ela interrompeu. – Hoje você vai almoçar e passar à tarde com sua família e fim de conversa.
João esboçou um sorriso. O filho não era muito de ouvir o pai, já mãe a história era diferente.
- JH. – Chamou o pai. – Eu e a mamãe vamos lá fora esperamos o médico liberar você. Enquanto isso tente cochilar um pouco.
- Prefiro que fiquem. Não estou com sono. – Protestou Henrique.
Mas os pais sorriram, e ignorando o protesto com um argumento do tipo, “você precisa descansar”, deixaram o quarto.
Henrique sabia o que eles queriam. Na realidade os dois precisavam de um momento para conversar sobre a situação de Henrique, eles não acreditavam totalmente nas palavras do filho. E Henrique não podia culpa-los, no passado, durante a infância e adolescência era um grande motivo de dor de cabeça para os pais. Depois que entrara na fase adulta, demorou conquistar a confiança dos pais, teve que provar que estava bem, e com a ajuda de um especialista convencer os pais, que morar por um tempo sozinho, poderia resultar em um benefício perpétuo.
Mas ainda assim, os pais temiam que ele estivesse falando com Tomás.

Desde que Henrique lembrava, “tempo de uma vida”, Tomás fizera parte da sua vida. Lembrava nitidamente daquele triste dia, tinha oito anos e estava jogando bola no quintal com José Henrique seu irmão.
Eles estavam gritando, correndo e chutando a bola um para o outro. Foi o chute de João Henrique que jogou a bola para fora do portão, do outro lado da rua. O irmão, como estava mais próximo do portão, olhou com receio para ver se os pais não estavam olhando, e como um gato, escalou o portão e correu para a rua pegar a bola.
Ele já tinha colocado a bola embaixo dos braços, e João Henrique quis fazer uma inocente brincadeira.
- Corre! Mamãe está chegando!
Diante ao aviso, José Henrique correu apavorado para o portão e não olhou.
O garotinho João Henrique estava rindo, quando de súbito, seu largo riso deu lugar ao terror e desespero, viu perfeitamente quando um pequeno caminhão azul apareceu de repente e parou e cima do irmão, fazendo um pavoroso barulho de pneus em fricção no asfalto.
- Jo... Ir... Irmão? – Gaguejou – Henrique.
Ele não sabia o que tinha acontecido, não sabia explicar, mas no exato momento em que o homem abriu a porta do caminhão, ele sentiu uma terrível ausência, uma pontada dolorosa no peito e um tremor no corpo todo.
Ele sentiu a presença do irmão desaparecer, sentiu como se parte dele deixasse de existir. Caiu de joelhos e gritou chorando, até desmaiar.

Acordou mais tarde na cama, seu pai estava abraçado a ele e chorava dolorosamente.
Ele não quis interromper o choro do pai, continuou com os olhos fechados, disfarçando que ainda dormia. Após um tempo, que parecia nunca terminar, seu pai o deixou sozinho.
Ele abriu os olhos, a sensação do vazio o perturbava. Estava confuso, estava sentindo frio e dor. Sentou-se na cama, apoiou o queixo nos joelhos e começou a chorar.
- Não foi sua culpa. – Afirmou uma voz tímida.
Henrique levantou a cabeça assustado, as lágrimas corriam. Deveria estar sozinho, mas ali na sua frente, estava um garoto vestindo um macacão marrom, por baixo uma camisa branca, usava também um chapéu marrom, uma gravata borboleta e sapatos.
Ele estava com as mãos no bolso do macacão e sorria para Henrique.
- Você não matou seu irmão. Fique em paz. – Ele voltou a dizer.
- Quem é você? – Perguntou Henrique. – Algum primo?
- Sou Tomás. E sou seu amigo.
- Não te conheço...
Tomás foi até Henrique e o abraçou.
- Conhece sim, você deve ter esquecido. Vou te deixar agora, depois conversamos.
- Vai onde? – Perguntou Henrique.
- Vou deixar você um pouco sozinho. Só vim para dizer, que não foi culpa sua.
- Fique aqui comigo...
- Agora não, depois eu volto. – Disse Tomás caminhando para a porta.
Assim que o estranho menino bem vestido fechou a porta, ela foi aberta novamente. Eram João e Lourdes que entraram apressados.
- Com quem... Com quem estava falando meu amor? – Perguntou Lourdes. A voz de carinho, também demonstrava um peso, de quem tinha chorado muito nas últimas horas. Os olhos fundos e vermelhos pareciam transformar aquela mulher, vinte anos mais velha.
- Estava falando com Tomás... – Disse Henrique com voz chorosa.
João lançou um olhar despreocupado e triste para Lourdes, que perguntou:
- Que Tomás querido?
João segurou Lourdes carinhosamente pelo braço e disse:
- Deixe o menino. Acabou de acordar, devia estar sonhando.
Não era um sonho.
A partir desse dia, Tomás tinha se tornado um grande amigo de Henrique. Brincavam juntos, conversavam o tempo todo, iam para a escola, faziam bagunça e toda a atividade que Henrique tinha com o irmão, tinha agora com Tomás.
Seus pais estavam preocupados, o filho não se relacionava bem com outras crianças, vivia afastado brincando sozinho, e jurava que convivia com Tomás.
Lourdes, cada vez mais preocupada, acordou certa noite com as risadas do filho. João roncava e ela decidiu não o chamar, e então caminhou até o quarto do menino. Quando ela viu Henrique sentado na cama conversando e rindo sozinho, subiu um frio pela espinha e sentiu os pequenos pelos da nuca arrepiarem. Ele não estava sonhando, nitidamente estava bem acordado e interagia com alguém que ela não podia ver. Segurou com força no batente da porta, fechou os olhos fazendo uma prece. Depois correu até o filho, o tirou da cama com indelicadeza e correu de volta para o quarto, como se a fugisse do ser invisível.
João acordou com Lourdes chorando, abraçada ao filho. O choro contido estava ficando histérico.
- O que aconteceu? – Perguntou sonolento.
- Acho que José Henrique... – Começou a dizer. – Ele está aqui, não foi embora por causa do irmão. – Disse aterrorizada.
- Do que está falando?
- Mãe... Não é meu irmão. É meu amigo Tomás.
A mãe recomeçou a chorar.
- Viu? Não existe nenhum Tomás, e sim o espírito do pobre menino.
- Mas mãe, ele estava lá comigo, daí quando a senhora entrou, ele ficou assustado e se escondeu... – Explicou Henrique.
João não era muito de dar credibilidade para histórias de fantasmas, mas aquilo era diferente. Ser acordado a noite daquela forma e o comportamento estranho do filho o fez acender a luz. Certamente não dormiria mais naquela noite.
Ele tirou Henrique dos braços da mãe e o colocou no colo.
- Filho, diga para seu pai. Quem é esse Tomás?
Lourdes soluçou.
- Já disse pai. – Falou irritado. – É meu amigo.
- Ele parece com você?
- Não parece comigo, acho que ele tem minha idade.
- Como ele é? Com quem se parece?
Henrique contou tudo o que sabia sobre Tomás. Descreveu a roupa, o cabelo, cor dos olhos. Contou como o conheceu, o que eles conversavam e do que brincavam.
Após o relato, interrompido poucas vezes pelo soluço de Lourdes, João decidira que o filho não deveria mais ficar sozinho. O aconselhou para não comentar com ninguém sobre Tomás.
No outro dia ele não foi trabalhar, procurou por informações para ajudar o filho.
As pessoas que vieram até sua casa, fizeram muitas coisas estranhas e afirmaram que não existia nenhuma presença de espírito.
Lourdes levou o filho até um médium, o mesmo que meses atrás achava tratar-se de um charlatão. O médium tocou o menino por alguns segundos e depois ouviu toda a história em silêncio. No final, após uma breve meditação, disse para Lourdes:
- Seu falecido filho está descansando em paz.
Os pais não obtiveram nenhuma resposta, resolveram comentar o problema com um padre amigo da família, que ouviu atentamente toda a história.
No final, ele disse que poderia benzer a casa, não para espantar espíritos, e sim para abençoar aquela família, e recomendou fortemente uma consulta com psicoterapia.
João de início recusou a ideia, achou ofensiva, porém motivado pelas palavras de Lourdes, resolver acatar o conselho.
Foi à solução para João e Lourdes, que quando aconselhados como deveriam proceder, fizeram de tudo para que Henrique abandonasse o amigo invisível.

- Na idade dele não é normal. – Falou o psicanalista. – Esse amigo imaginário é uma espécie de substituto do irmão. O trauma da perda ocasionou isso, provavelmente ele deu personalidade e deu vida para o amigo imaginário. Na mente dele, é uma pessoa real que o acompanhará caso não desenvolva relacionamentos reais.
- Meu filho então é um maluco? – Perguntou João.
- Não. O seu filho sofreu um trauma, talvez ele se sinta culpado pela morte do irmão, e a mente dele criou uma fuga. O que vocês precisam fazer é ajudar ele com esse trauma, fazer com que não se sinta culpado e interaja com o mundo. Com o tempo ele ficará recuperado. Mas se não for tratado adequadamente agora, pode ser ele carregue isso para a vida adulta, ocasionando assim uma deficiência muito grande em compreender as próprias emoções e interação com o meio em que vive. – Explicou o psicanalista.
- Resumindo. – Ponderou João com irritação. – Maluco!
- Em absoluto, não. – Começou o especialista. – O que impede o seu filho de ser um maluco, é justamente esse amigo imaginário. É como eu disse, é uma fuga. Tanto, que ele sabe no inconsciente, que o amigo existe apenas na mente dele, exatamente por isso que a interação só ocorre quando ele está sozinho. Se você lembrar, todas as vezes que você aproximava se do seu filho, ele dizia que o amigo Tomás tinha ido fazer alguma coisa.
- É difícil entender... – Lamentou João.
- Entender é o meu trabalho. – Disse o especialista sorrindo. – Para você e sua esposa, basta que sigam minhas recomendações.

Henrique não voltou a falar mais de Tomás para os pais. Tinha entendido que o amigo não existia. Porém o mantinha sempre por perto, e quando estava sozinho, aproveitava para comentar e rir de alguma coisa engraçada, que ambos presenciaram.
A vida dos pais e de Henrique estavam bem, até o dia em que o filho, com dezoito anos espancou outro rapaz e quase o matou.
Mais tarde, talvez por descuido da emoção, Henrique confessou para os pais que teria matado o outro, se não fosse impedido por Tomás.
João ficou atordoado com o que ouviu.
Porém, Henrique percebeu que tinha falado demais, e resolveu corrigir, dizendo que estava brincando com os pais, que queria ver a reação deles.
Os pais disfarçaram uma crença, mas continuaram a observar mais o filho, que tinha poucos amigos, não gostava muito de sair e preferia ficar em casa assistindo televisão. Era desmotivado para as atividades escolares, e parecia não ter nenhum interesse, nem mesmo para entretenimento.

Já fazia algum tempo que ele queria morar sozinho, e teve que realmente abandonar o amigo Tomás para ser o mais fiel possível.
- Você tem que ir embora Tomás. – Ele disse.
- Mesmo? Você não pode só fazer de conta que fui?
- Não funciona. – Henrique respondeu pensativo. – Parece que meus pais sentem em mim que eu ainda converso com você.
- Mas pra que isso? Só para morar sozinho?
- Eu quero viver a minha vida. Aqui com eles é ótimo, mas parece que estou vivendo a vida deles e não a minha.
Diante a resposta Tomás concordou, mas ponderou.
-Tudo bem. Amigos se separam. Seguem por caminhos diferentes. Eu vou então, mas quando precisar pode me chamar de volta.
- Você vai para onde?
Tomás contemplou os primeiro raios do sol nascendo, e disse:
- Sempre quis conhecer o Himalaia.
E então foi embora.

Mesmo morando sozinho, Henrique não encontrava mais com Tomás. E gostou disso, estava lidando com novas experiências que não precisava compartilhar com o velho amigo. Conheceu pessoas novas e logo começou a beber.
Teve alguns breves romances. Algumas alegrias, decepções, privações, aquisições, medos e atritos. Em seu íntimo, sabia que tudo isso fazia parte da vida que escolhera trilhar.
Tinha uma espécie de acomodação com a vida, sem levar muito a sério o que vivia, até o dia em que seus olhos avistaram Aiya.
Ele era um forte candidato daqueles que acreditam em amor à primeira vista. O problema, é que desde a morte do irmão, era a primeira vez que experimentava um sentimento tão forte. E não sabia como lidar com isso.
Perdido em especulações enquanto observava o gelo derreter no copo de vodca, não percebeu a porta abrir. Mas ouviu o barulho da cadeira ser arrastada, e então sem tirar os olhos do gelo, sorriu.
- Como foi no Himalaia?
Tomás esticou as pernas e as cruzou embaixo da mesa. Deixou transparecer no rosto o mesmo sorriso de Henrique e respondeu:
- Curioso e frio. E você meu amigo, como está?
Henrique levantou a cabeça, admirou o terno cinza do amigo.
- Bem, tenho algumas novidades... Conheci pessoas legais, arrumei emprego novo, comprei carro. – Ele olhou o copo de vodca na mesa. – E também adquiri alguns vícios.
E assim Tomás voltou.

Por: Fernando do Amaral - 13/02/2015

Parte 8 – A máscara.

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Henrique já estava saindo do hospital com os pais, quando ouviu Leandro chamando. Ele olhou para amigo e viu que ele estava acompanhado de Aiya e Amanda.
Ficou imediatamente feliz em saber que os amigos vieram fazer uma visita.
- Pai, mãe, conheçam Amanda e Aiya. – Fez uma pausa. – E o Leandro. Acho que vocês se lembram dele.
João e Lourdes se lembravam do dia em que Henrique apareceu com um amigo todo empolgado, na ocasião ele fora fazer o convite para o casamento. João ficou satisfeito por fazer parte de uma cerimônia do amigo do filho, considerando o passado de Henrique, era significativo.
- Desculpe, mas quem é Aiya e Amanda? – Perguntou Lourdes sorrindo para as duas moças.
- Eu sou Amanda. – Disse a moça vestida de amarelo. – Prazer.
- Prazer é o meu. E você japonesinha é a Aiya...
- Sim, Rique já me falou muito da senhora. Posso abraça-la?
- Espero que ele não tenha falado mal do meu feijão. – Ela respondeu abraçando Aiya.
- Anotou a placa do cara? – Perguntou Leandro rindo.
- Você se machucou muito? – Perguntou Amanda.
Aiya não perguntou nada, lançou um olhar preocupado para Henrique. Ele teve a impressão que os olhos dela estavam marejados. Ela foi até ele e o abraçou.
- Não faça mais isso viu? – Ela disse. A voz carregava um choro contido. Certamente, a notícia do acidente a tinha abalado.
Para Henrique, era completamente difícil entender Aiya, já estava considerando, que ela não nutria nenhum sentimento por ele, o último diálogo dos dois tinha deixado certo que ela tinha por Leandro e Henrique, somente amizade. Mas agora, ela estava abraçada a ele, e podia sentir o coração dela bater acelerado, e o cheiro do perfume no pescoço.
“O maldito cheiro dela que me faz enlouquecer. Que me faz ver coisas que não existem...” – Pensou confuso, não sabia o que dizer. Tinha vontade de beija-la na boca ali mesmo. Mas o medo de surpreendê-la negativamente era maior.
- Acho que também vou sofrer um acidente. – Brincou Leandro.
Amanda riu do gracejo, e Aiya ignorou.
- Vocês estão convidados para almoçarem em casa hoje. – Disse Lourdes.
- Mãe, eles precisam voltar ao trabalho.
- Sim. – Disse Leandro tocando o ombro de Henrique. – Precisamos voltar, mas se for outro dia eu aceito dona Lourdes.
Os três amigos despediram-se de Henrique na saída do hospital.
- Bonitas garotas. – Comentou Lourdes. – Aquela Aiya tem uma beleza diferente.
- Estranha, é isso que senhora quer dizer. – Comentou Henrique. – Posso ir dirigindo pai?
- Se ganhar de mim no braço de ferro, pode.
Henrique nunca tinha ganhado do pai no jogo do braço de ferro. Ele sentou se no banco de trás, fechou os olhos, e então permitiu sentir mais uma vez o perfume de Aiya. Estava decidido esquecer-se dos últimos dias, em que olhava a moça como se ela fosse um sonho intocável, esquecer que se torturava ao ouvir ela se despedir, esquecer a força interna que o impedia de agarrar e beija-la de surpresa, como acontecia somente nos filmes.
Porém, depois que ela o abraçou, as incertezas voltaram um pouco mais fortes, trazendo esperanças.
“Preciso falar com Tomás.”
Henrique almoçou com vontade, apreciou cada garfada, já fazia tempo que não comia a comida da mãe dona Lourdes.
Durante o almoço, respondeu algumas perguntas do pai, que estava interessado no futuro profissional do filho. Respondeu algumas perguntas sobre a vida amorosa para a mãe.
- Eu acho que você deveria falar com ela. – Disse Lourdes, surpreendendo João e Henrique.
- Com ela quem? – Perguntou Henrique.
- Com a Aiya.
João cruzou os braços e sorriu, sabia que a esposa tinha enxergado algo que ele jamais enxergaria.
- A Aiya? A senhora acha que ela quer algo comigo?
- Não sei filho. Nós mulheres não somos tão simples de decifrar, mas vocês homens... Às vezes são como um livro aberto.
- Eu era misterioso! – Disse João protestando.
- E eu, disse às vezes. – Brincou Lourdes. – E não é o caso do meu homem misterioso.
- Mãe! – Interrompeu Henrique. – Então a senhora está supondo que eu gosto daquela mestiça?
- Filho. Você gosta “daquela mestiça”. E não precisa ter vergonha disso. Fale com ela, pelo jeito que ela te abraçou, ela tem sentimentos por você.
- Prefiro uma ruiva. – Disse Henrique para mudar de assunto.
- Seu pai também preferia.
- Ainda prefiro. – Disse João.
Eles riram, e alguns minutos depois, Henrique pediu para descansar.
Henrique caminhou para o antigo quarto em que repousou a maior parte da vida.
O sol entrava pela janela, a cama estava arrumada e os móveis antigos permaneciam no mesmo lugar. Em cima da cômoda, que antes tinha uma televisão, agora estava alguns inexplicáveis objetos sem utilidades, que surgiam em qualquer família. O aroma do quarto estava agradável, não parecia com o cheiro de um cômodo desocupado.
Ele caminhou até a cômoda, estava interessado em saber o que eram todas aquelas tralhas.
Tinha um bonito vaso azul, mas estava com a borda quebrada.
“Podia simplesmente jogar fora.” – Ele pensou.
Tinha algumas ferramentas obsoletas do pai, algumas pratarias riscadas, caixas pequenas de madeira, relógio e outras coisas por baixo. Decidiu não mexer, para evitar bagunça, mas um objeto por baixo de um telefone chamou sua atenção.
Pegou o objeto e caminhou até a janela, para poder ver melhor. Era uma sinistra máscara de ferro, colocou a contra a luz e ficou observando, era um pouco pesada, rústica e medonha.
“Se eu encontro alguém com um troço desses a noite... Acho que morro ante de correr.”
Mas era uma máscara muito real para ser fantasia. Nem mesmo aficionados por realismo colocariam uma máscara tão rústica no rosto.
- Linda não é? – Disse João atrás dele.
Henrique estava concentrado no objeto e respondeu sem olhar para o pai.
- Horrível! Como a mãe deixou isso aqui?
- Ela pensa que joguei fora. Eu a encontrei na estrada. Acho que alguém a perdeu.
- Na estrada?
- Sim. Parei para regar o mato no acostamento. E então a vi entre os arbustos.
- Parece uma peça autêntica de museu. – Disse Henrique.
- É mesmo? Acha que posso vender?
Henrique a colocou de volta na cômoda.
- Na verdade estava pensando em pedir de presente.
- E o que vai fazer com isso?
- Vou enfeitar minha morada, é feia, enferrujada, mais gostei. Deve servir pra espantar espíritos.
João a pegou da cômoda e a observou.
- Tudo bem pode levar. Mas não deixe sua mãe ver. Alias, acho que esta me dando um golpe, você a venderá e usará o dinheiro para concertar o carro.
- Estragou muito?
- Amassou bastante, tive que rebocar até a sua casa.
- Aquele motorista louco... Se ao menos eu tivesse anotado a placa.
Depois que João saiu do quarto, Henrique tirou a calça e ao dobra-la para colocar na cadeira, percebeu que existia um papel no bolso de trás. Imaginou que deveria ser algum recibo, pegou despreocupado, e ficou imediatamente espantado ao ler o nome de Aiya. Era um recado que ela escrevera e colocara de forma discreta no bolso dele, provavelmente na hora do abraço.
Sentou se na cama, abriu o papel azul com desenhos de corações e estrelas. Ela tinha usado uma caneta preta e escreveu a mensagem:
“Rique nunca mais me assuste assim.”
“Não sei o que faria sem você.”
“Pois amizade como a sua, é uma coisa muito rara de acontecer. Ainda bem aconteceu em minha vida.”
“Amo você.”
“Ass.: Aiya”.
Não absorveu a parte do “amo você”. A única parte que captou, foi a “amizade como a sua”. Fazia pouco sentido, se ela só tinha apreço por amizade, então como explicar todas as demonstrações de carinho?
Henrique ficou por um tempo com o papel na mão, olhava triste para o preguiçoso sol da tarde. Colocou o papel embaixo do travesseiro, foi até a janela e a fechou.
Deitou e tentou apagar o que sentia por Aiya, pensou em estar em outros lugares. Imaginou se dirigindo um carro esportivo em alta velocidade, a estrada não tinha fim e enquanto pisava fundo no acelerador ouvia a música No way back da banda Foo Fighters. Logo adormeceu. Sonhou que andava por um corredor amarelo, e segurava a mão de Aiya. Ele não estava olhando para ela enquanto conversavam, até quando ela disse.
- Rique olhe para mim enquanto falo.
Então obedeceu e olhou para ela, mas o que viu era a máscara.
- Tire essa coisa medonha. – Ordenou.
Aiya levou as mãos na máscara e a tirou, mas o que apareceu, não foi o rosto, e sim uma forma redonda branca. Aiya não tinha rosto.
Henrique ficou apavorado e começou a correr pelo corredor, que parecia ficar mais escuro.

A bela policial.
A policial olhou atentamente a ficha do paciente antes de perguntar.
- Que horas ele teve alta?
- Meio dia. – Disse a recepcionista do hospital. – Ele saiu com a família, não me pareceu o tipo que se envolve em problemas. O que ele fez?
- Ele pode ter se envolvido em um acidente com um perigoso suspeito. Você tem telefones ou endereço?
- Vou imprimir a ficha dele. – Disse a recepcionista olhando para a tela do computador. – Lá tem informações de contato.
- Obrigada. – Respondeu a policial.
Dentro da viatura, o policial perguntou para ela:
- Acha mesmo que foi nosso suspeito que bateu o carro ontem?
- Possível que sim. – Ela disse olhando a foto de Henrique na ficha. – Foi o único acidente em que o causador não parou para ajudar, ou assumir responsabilidade. Cinquenta por cento de chances de ser o nosso homem.
- E? Vamos para onde agora? – Ele perguntou ligando o carro.
- Siga reto e entre na quinta esquerda.

O sol estava nos momentos finais quando João chamou Henrique.
Ele ficou agradecido por despertar dos estranhos sonhos.
- Já é hora de ir trabalhar pai?
- Não. – Respondeu João sério. – Tem dois policiais aqui, querem interrogar você.
- Eu? Mas o que eu fiz?
- Me informaram que é sobre o acidente. Acho que estão procurando o cara que bateu em você.
Henrique vestiu a calça, lavou o rosto, ajeitou o cabelo e foi conversar com os policiais.
Eles estavam em pé na sala, ambos de braços cruzados. Lourdes insistiam para que sentassem, a policial respondia com um sorriso, que não queria incomodar, e seria rápido.
A palavra policial, não sugeria a Henrique a bonita moça de uniforme sorrindo para dona Lourdes. Estava mais para dois homens iguais o outro que acompanha a bonita policial.
- Boa tarde, sou o Henrique. – Ele falou olhando para a ficha do hospital na mão da policial.
A policial deu um forte aperto de mão em Henrique.
- Você está melhor? Será que poderá nos ajudar.
- Espero que sim. – Respondeu receoso.
Eles interrogaram Henrique rapidamente, ele pouco pode ajudar, lembrou o horário do acidente, a circunstância, lembrou que era uma picape que o jogara fora da estrada, mas outras informações eram impossíveis de fornecer. Estava escuro e tinha desmaiado ao bater a cabeça.
- Obrigado por tudo. – Disse a policial. – Se caso lembrar-se de algum detalhe importante, procure por Giane ou Guilherme.
Os dois policiais saíram, e Henrique pensou que dificilmente entraria na delegacia, mesmo que lembrasse de algo. Porém poderia ser uma desculpa, caso sentisse vontade de fazer uma visita para a bonita policial.
“Estou ficando tarado, igual o Leandro.” – Ele pensou condenando-se.
- Pai, Mãe. Eu também vou ir. Amanhã tenho que trabalhar.
- Pode ir trabalhar daqui. – Falou a mãe.
- Pode pelo menos jantar. – Falou o pai.
Henrique riu. Convenceu os pais que precisava ir para casa, que precisava ver como o carro estava e agradeceu pelo maravilhoso dia.
Colocou a máscara de ferro em uma sacola e caminhou para casa. Quando chegou, não quis ver o carro, pendurou a máscara em um prego na parede e ficou a admirar. Era sem dúvida, uma decoração duvidosa, inspirava terror e mistério.
Ainda não era tão noite, o bar deveria estar aberto, precisava falar com Tomás, mas antes podia tomar uma cerveja e visitar Fire.
Tomou um banho rápido, colocou uma roupa confortável e antes de sair, olhou para máscara e disse:
- Até mais coisa horrível.

Por: Fernando do Amaral - 10/03/2015

Parte 9 – Calçada.

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Com as mãos no bolso, sentia a brisa noturna soprar com força. Por causa do carro, já fazia um tempo que não andava a pé à noite e tinha esquecido como a sensação era boa.
Correu para pegar o ônibus parado no ponto, e sentiu as dores musculares, não deveria sair à noite e muito menos ingerir bebida alcoólica. Sabia que precisava de repouso, mas gostava de ser negligente com a própria saúde.
Sentando no último banco do ônibus, observava os carros que iam e vinham, quando viu uma viatura da polícia militar, pensou na bonita policial.
Teve uma breve imaginação, em que ele também era policial e tinha uma parceira. Imaginou cenas de ação e diálogos similares aos filmes policiais.
Sorriu da própria imaginação. Era bom criar um mundo, em que não era um adulto agindo como um adolescente imaturo e apaixonado por Aiya.
Ele podia justificar a imaturidade, culpando o trauma que teve na infância, porém não aceitava isso, pois sabia que não existiam razões definidas para o que sentia por Aiya.
Desceu do ônibus e caminhou com passos largos para o bar, de repente estava com vontade de conversar com Fire.
O bar como da maioria das vezes, tinha poucos frequentadores. Do lado de fora estavam dois homens fumando, aparentemente donos das duas motos estacionadas na entrada. Próximo deles estava uma mulher falando alto ao telefone. Ele caminhou para a entrada e ficou de frente com Fire, que trazia uma bandeja com uma cerveja e dois copos. Ela mostrou surpresa, sorriu e fez um gesto com a cabeça para Henrique passar por ela.
- Eu vim conversar com você.
- Fico feliz. – Ela disse esticando se para beija o rosto dele. – Vou servir os rapazes, e logo volto.
- Vou te esperar no lugar de sempre.
- Acho que não. – Ela disse caminhando em direção aos dois homens. – Seu lugar está ocupado por sua amiga.
“Amiga?” – Pensou Henrique olhando apreensivo para o lugar que costuma sentar. Estava tocando ao fundo uma música do Djavan, a luz ambiente estava fraca, e ele viu os cabelos compridos de costas para ele, e na cadeira a frente tinha outra pessoa que ele não estava identificando. Caminhou um pouco para frente, no exato momento em que a pessoa riu e viu claramente quem era. Visualizou a forma feminina de costas para ele, e também soube quem era. Leandro e Aiya estavam juntos.
Henrique sabia que era inevitável ser indiferente com o que estava presenciando. Ouviu mentalmente o discurso de Aiya, o quanto ela achava repugnante um homem trair a esposa, e também lembrou o cartão que ela colocou discretamente no bolso dele no hospital. Sentiu raiva, experimentou uma estranha sensação de traição e principalmente ciúmes, mas queria mentir para si mesmo. Recusava aceitar que estava sentindo ciúmes da pessoa que o tinha traído. Deu meia volta e apressou os passos para fora do bar.
- Henrique...? – Perguntou Fire quando ele passou por ela, quase correndo.
Mas ele não ouviu, ele apressou ainda mais os passos e ganhou a rua.
- O que aconteceu com seu bofe Fire? – Perguntou Rodrigo.
- Não é o meu bofe... Mas faço uma ideia. – Ela disse olhando para Aiya e Leandro.
- Ele ficou ali na entrada igual a uma estátua olhando aqui para dentro. – Disse Rodrigo apontando com o dedo. – Depois virou e saiu igual um doido.
- Você já não está de saída?
- Estou... Nossa se não quer falar sobre o bofinho, não precisa me cortar assim loca...
- Não é isso! – Ela disse anotando o número de telefone no papel. – Será que você pode correr atrás dele?
- Mesmo? Tem certeza? Tipo você não tinha desistindo dele?
- E desisti. Mas quero conversar com ele. Acho que sofremos do mesmo mal.
- Por isso que não gosto de mulheres. São todas malucas. – Disse Rodrigo beijando o rosto de Fire e correndo para fora do bar.
- Espero que ele não seja homofóbico! – Disse Rodrigo antes de passar pela porta.
“Não é! Ele é somente um coração perdido.” – Pensou Fire.

Henrique sentiu dores e cansaço então parou de correr, ainda não estava recuperado. Sentou na guia da calçada, próximo a um bueiro, a luz do poste estava oscilando, mas mantinha o ambiente claro. Não queria pensar em Aiya e Leandro, as visões fantasiosas que ele criara com ela, agora pareciam ridículas. Mas era quase impossível desfazer da mente a sensação que sentia, de estar ao lado dela, o cheiro do perfume, os vacilantes e misteriosos gestos, o calor da pele nos pequenos toques e a viagem nos olhares que toda vez o deixava hipnotizado.
Com as mãos nervosas, apalpou o bolso em procura do maço de cigarros.
Acendeu um cigarro preso nos lábios, e a fumaça invadiu o ar noturno ao mesmo tempo em que algumas lágrimas teimosas, escorreram livremente pela face.
“Que merda...” – Pensou limpando o rosto com as costas da mão. – “Pare de chorar filho da puta, ela não merece nenhuma lágrima.”
Era um sentimento estranho. Enquanto lutava contra as teimosas lágrimas, olhava para os vãos dos pisos na calçada, e imaginava fazer parte daquele cenário. Era como se tudo conspirasse para que ele estivesse ali naquele momento, curtindo a solidão e incertezas. Era como se fosse o resto de um cigarro mal fumado, ainda em brasa, largado na calçada esperando ser pisoteado.
Com os olhos fixos nos próprios sapatos, ele percebeu que tinha alguém parado e o observando.
- Não vai falar nada? Não vai me dizer que eu sou um tolo e me condenar? – Falou sem olhar para o ouvinte.
- Eu... Eu acho... Acho que você está me confundindo com alguém. – Disse Rodrigo receoso.
Henrique levantou a cabeça e olhou irritado para Rodrigo, esperava que fosse Tomás.
- Em que posso ajudar? – Perguntou sério. – Espera, você é o menino que trabalha com Fire...
- Sim eu sou.
- E então? O que quer? – Perguntou Henrique um pouco mais amigável.
Rodrigo entregou um papel com o número e o nome Fire.
- Eu estava de saída quando você saiu correndo, e ela insistiu para te entregar.
- Aconteceu algo com ela? – Perguntou olhando para o número do telefone.
Rodrigo o encarou como se ele fosse um bicho estranho, antes de dizer:
- Ela está preocupada com você.
Henrique ficou surpreendido, e antes de perguntar, Rodrigo disse revelando impaciência na voz:
- Olha, não vou ficar enrolando. O papo é o seguinte, ela gosta muito de você, mas você parece que está apaixonado por aquela moça meio japonesa. Daí hoje você viu a sua paixão nos braços do outro homem, deu ataque e saiu correndo, e a Fire ficou preocupada e quer conversar com você.
- Gosta de mim e ficou preocupada? – Perguntou Henrique. – Gosta de mim como?
- Não se faça de bobo. – Respondeu Rodrigo rindo. – Você é um bonito homem, charmoso e gentil. É claro que ela gosta de você como homem, você conquistou o coração dela.
- Quer um cigarro?
- Eu não fumo...
- Você acha mesmo isso tudo de mim? Digo você é gay não é? – Perguntou Henrique. – É verdade o que disse sobre mim?
- Ei! Não me leve a mal. – Disse Rodrigo na defensiva. – Não estou tentando ser...
- E não levei. – Disse Henrique cortando Rodrigo. – Veja bem, você disse essas coisas sobre mim, será que a Aiya não consegue ver tudo isso em mim?
- Não sei responder isso... E fico triste por Fire. Já que vim por ela, falei sobre ela e você está me perguntando sobre alguém que eu sequer conheço.
- Desculpe-me. Você tem razão. – Concordou Henrique. – Vou ligar para ela.
- Seja delicado com ela. – Disse Rodrigo afastando se. – Embora assuntos do coração sejam irracionais, não justifica tratar mal quem tem afeição por você.
- Está indo embora?
- Sim. O pombo correio precisa avisar que a mensagem foi entregue.
- Até mais cara. Obrigado por me entregar o número dela.
Rodrigo fez um gesto de positivo com as mãos e voltou para o bar. Henrique ficou em pé, limpou as calças, esticou o corpo e decidiu ir caminhando para casa. Não era muito longe, e tinha muito o que pensar.

Por: Fernando do Amaral - 02/04/2015

Parte 10 – Decisões.

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- Sabe que esse enfeite na sua parede, é um pouco medonha? – Disse Tomás olhando pensativo para a máscara pendurada na parede. – É pesada, passa uma energia solitária, triste e ruim.
- Não sabia que você era voltado para essa coisa de energia... Estilo feng shui não é? – Disse Henrique estendendo um copo de vodca para Tomás.
- Não entendo de feng shui. Só estou questionando seu gosto, se não tinha nenhum pôster ou quadro, poderia não ter colocado nada.
- Não vou tirar, só porque você ficou com medinho. Eu gosto. – Brincou Henrique.
- Mas eu recomendo tirar quando Aiya vir aqui...
- Você não ouviu o que eu disse? Não tem mais Aiya, ela escolheu o caminho dela.
- Disso você não sabe. Ela e o Leandro, juntos hoje à noite, têm várias explicações diferentes.
Henrique tirou a camiseta, sentiu um pouco de dor, ainda não estava recuperado do acidente.
- Eu sei. Você vai tentar me convencer a esquecer de tudo e voltar a falar com ela. Mas dessa vez, vou manter minha dignidade. Ela é especial para mim, eu fico tonto perto dela. Jamais negarei que tudo o que desejo é o amor dela, porém, agora que se dane.
- Então você está inclinado a ligar para a Fire? – Disse Tomás mexendo a vodca no copo.
- É uma possibilidade. Acho que pode ser uma transa interessante.
Tomás parou de mexer o copo, tomou um gole, cruzou as pernas e disse pausadamente.
- Você não é assim...
- E porque não? De que adianta morrer de amores? Todo mundo só quer sexo e curtição. – Disse Henrique jogando a calça no sofá.
- Devo te lembrar, que você não sabe de todo mundo? – Perguntou Tomás.
- Tem razão. Mas de mim eu sei. – Disse Henrique sentando no sofá com a garrafa de vodca. – Sei que sou um idiota que acredita em baboseiras românticas, e ninguém tem tempo para isso.
- Você está meio amargo hoje... E por falar nisso, admirei por não ter tratado o amigo da Fire com estupidez...
- E pra que eu faria isso?
- Lembra que você começou a espancar um menino uma vez? Só porque ele era... Diferente?
Antes de responder, Henrique tomou um gole de vodca na garrafa.
- Aquela vez... Bem, você sabe que o menino estava com ideias erradas ao meu respeito, e passei um corretivo. Não tinha nada com ele ser diferente ou não. Se você está sugerindo que sou homofóbico, errou.
- Eu sei. Só estava testando você, para saber se ainda é o mesmo Henrique.
- Sim. Sou ainda o mesmo tolo Henrique.
Tomás ficou em pé, passou a mão na impecável camisa branca, abotoou o paletó e se despediu.
- Boa noite meu amigo. Sugiro que pare de se menosprezar.


Somente de cueca e largado no sofá, Henrique observava o restante de líquido dentro da garrafa da vodca. Certamente ia terminar de beber tudo antes de pegar no sono. Olhou para a parede onde a máscara estava fixada e teve uma estranha sensação de ser observado pelo objeto.
Decidiu colocar a máscara no rosto.
Ela era pesada e mesmo com os orifícios para respirar, era sufocante. Ele ficou de frente ao espelho e ficou se olhando. Era uma visão estranha de si mesmo, afinal estava sem roupa e usava uma máscara de ferro, parecia algum tipo de psicopata.
Quando cansou de se olhar, tirou a máscara e começou a admira-la. Na parte interna existia uma cavidade na testa. Por curiosidade ele começou a mexer no vão com um palito de dente, encontrou um papel dobrado embrulhado em um plástico. Com cuidado, retirou o plástico, o papel mesmo protegido parecia que ia desmanchar na mão dele. Não sabia exatamente o que esperava ler naquele papel, qualquer coisa seria uma surpresa, porém a surpresa era ainda um mistério maior que atiçou a curiosidade de Henrique. Era um endereço.
Encabulado resolveu consultar o endereço na internet. Era de uma cidade vizinha, uma residência comum de um bairro qualquer. Imediatamente achou que era o endereço do local em que ocorreu uma festa a fantasia.
"Nada demais... E afinal, que eu esperava encontrar?" – Pensou.
Colocou a máscara de volta na parede e resolveu dormir do jeito que estava.


Outro dia no trabalho.
- Como foi de férias? – Perguntou Leandro sarcástico.
- Boa...
- Que bom. Você estará ocupado hoje à noite? Queria trocar umas ideias...
- Hoje não vai dar, é muito importante?
Leandro mexeu o café impaciente.
- Acho que andei fazendo umas merdas, preciso desabafar.
- Eu posso imaginar. – Respondeu Henrique sério. – Talvez possamos almoçar junto.

Ele jogou o resto do café na pia e saiu da copa, enquanto o Leandro estava ocupado no celular. Não estava interessado em prolongar conversa.
"É mole? Bagunça a vida e quer conselho." – Pensou.
Ainda perdido em pensamentos, ele não percebeu atrás dele um vulto conhecido, sequer reconheceu o perfume que o deixava paralisado. Quando percebeu que estava sendo seguido, recebeu um apertado abraço. Era a Aiya.
Estava longe de ser desagradável, no entanto ele desejou afastá-la.
- Não esperava um abraço assim logo cedo.
Ela nada respondeu, mas iniciou um riso angustiado e então começou a chorar.
- Vamos com calma Aiya... Explique o que aconteceu, porque está chorando? – Perguntou Henrique mais confuso do que preocupado.
Ela limpou as lágrimas e disse de forma misteriosa:
- Preciso muito conversar com você.
- Parece que todo mundo quer conversar comigo. Sempre querem me falar algo... Por outro lado, raramente alguém quer me ouvir verdadeiramente. – Disse demonstrando irritação na voz.
- O que aconteceu com você? – Era a primeira vez que Aiya ouvia o tom irritado de Henrique.
- Me desculpe Aiya. Sei que devo ser seu amigo e te compreender. Mas eu não posso ignorar que eu vi você e o Leandro ontem. Vocês estavam junto depois das coisas que me disse sobre ele.
Aiya ficou corada é muito sem jeito, falou baixo com medo que alguém ouvisse.
- Rique... Dê-me a chance de explicar? – Ela disse com voz chorosa.
Antes que Henrique perguntasse por mais alguma coisa, Leandro abriu a porta da copa.
Aiya virou as costas e caminhou para a sala dela.
Leandro passou pensativo por Henrique e não fez nenhum comentário.
"O que está acontecendo aqui?" – Pensou Henrique confuso.

Ele ligou o computador, por mais que estivesse curioso, o trabalho estava atrasado. Tinha que esquecer Aiya e se concentrar no trabalho. Seja qual for o súbito interesse que ela tinha em Leandro, isso não era prioridade.
- Funcionário novo? – Perguntou Amanda sorrindo.
- Novo velho. – Respondeu pouco amigável.
- Esse ótimo humor é somente comigo? Tanto faz, só passei para desejar bom dia.
- Desculpe Amanda. – Disse Henrique se redimindo.
- Aceito. – Ela disse sorrindo. – Seja bem vindo se volta. Você faz falta aqui.

Henrique focou toda a atenção nas pendências, e até a hora do almoço, resolveu muitas coisas. Quando faltavam alguns minutos para almoçar, decidiu sair antes que Aiya ou o Leandro o chamassem. Queria almoçar sozinho, não estava pronto para ouvir o que qualquer um deles tinha para dizer. Provavelmente, Leandro ia dizer que estava tendo um caso com Aiya e ia pedir uma opinião se deveria ou não separar-se da esposa. E Aiya por outro lado, ia vir com aqueles olhos marejados falando o quanto se sentia culpada por estar com um homem casado, mas que estava amando Leandro.
“Francamente. Hoje não tenho saco para isso.” – Ele pensou olhando para o celular. – “Tem alguém que merece muito mais a minha atenção.”

A Declaração.
Ela precisava passar na biblioteca antes de almoçar, mas vencida pela fome desistiu do livro.
“Talvez eu ache na internet.” – Pensou.
Caminhou apressada para pegar o ônibus e sentiu o celular vibrar.
- Alô? – Disse ofegante.
- Será que liguei em hora errada?
Kátia não tinha o número de Henrique, por isso não sabia quem estava ligando. Mas aquela voz, ela conhecia muito bem.
- Henrique? Que legal! Pensei que não ia me ligar...
- Eu estava fora de órbita, não ia dar muito certo falar ao telefone. Como você está?
- Estou bem... E você? Como está se sentido sobre ontem?
- Esse tempo todo você sabia?
- Não. Só percebi que você amava aquela garota, quando eu te vi olhando para ela.
- Sou tão transparente assim?
Ela riu, sentiu vontade de dizer que uma mulher apaixonada tem visão de raios-X, mas preferiu não dizer nada sobre isso.
- Ontem foi um acontecimento importante para mim. – Disse Henrique. – E quero falar com você sobre isso, mas eu prefiro pessoalmente. Que horas podemos nos ver hoje?
- Isso é um convite? – Perguntou divertindo se.
- Sim... – Disse de forma vacilante.
Na mente de Kátia surgiu algo especial, um restaurante a luz de vela, duas taças de vinho e os olhos dele fixo nos delas. Porém ela sabia que o assunto não a envolvia emocionalmente, por isso desfez da ilusão tão rápido como ela surgiu e disse:
- Passe no bar hoje à noite. Vou te esperar.
Despediram-se e no momento em que desligava o celular, sentiu alguém tocar o seu braço. Era Aiya.
- Já terminou no telefone? Podemos conversar?
- Estou indo almoçar, venha comigo. – Ele disse. – Acho que temos que esclarecer algumas coisas mesmo.
- Não quero almoçar Rique, estou sem fome. Se você estivesse no meu lugar entenderia.
- No seu lugar? – Perguntou Henrique acendendo um cigarro. – Quer um?
Ela balançou a cabeça afirmativamente de forma nervosa.
Henrique a segurou delicadamente pelos braços e disse:
- Ótimo. Se quiser somente conversar, então aceito. Não vamos almoçar. Tem uma praça tranquila aqui. Vamos lá.

Aiya sentou-se no banco de madeira da praça, estava inquieta.
A praça era pequena, e por ser o horário de almoço tinha poucas pessoas circulando por ali. O vento agitava os cabelos de Aiya e ela cruzou os braços. Henrique então se sentou ao lado dela, segurou as próprias mãos e disse:
- Você diz se eu estivesse em seu lugar... E você? Será que nunca pensou em se sentir no meu lugar?
Ela demonstrou imediata surpresa. Não estava entendendo.
- Rique... Eu não...
- Deixa-me falar. – Ele disse interrompendo. – Nós somos amigos. Sempre fomos bons amigos. Mas depois de algum tempo... – Ele fez uma pausa. – Minto, na verdade desde a primeira vez que eu te vi, eu me apaixonei por você.
- Rique? – Ela disse surpresa. –Eu não sabia...
- Não acabei ainda! – Ele disse colocando uma mão nos joelhos dela. – Eu amo você Aiya, e me sinto um idiota por todo esse tempo nunca ter dito nada a você, talvez eu soubesse instintivamente que você não compartilhava do mesmo sentimento. Mas o que eu sinto por você, eu não consigo explicar. Tudo em você bagunça comigo por inteiro, seu cheiro, seu cabelo, seu olhar, seu sorriso, sua voz, seu caminhar... Tudo. Eu nunca tinha te dito nada, porque tinha medo de perder o pouco que tenho de você, e esse pouco era o único motivo que eu tinha para viver depois que cruzei com você naquele corredor. Fantasie-me tanto com eu fazendo um pedido de namoro para você. Sabe, se eu tivesse chances de ter várias vidas, queria que todas fossem diferentes. Mas em todas elas, eu queria estar ao seu lado.

Aiya estava paralisada, perdera toda a reação, e a vontade de chorar apareceu de repente. Mas segurou o máximo que pode, deixando apenas algumas gostas deslizarem preguiçosamente pela face.
Ele limpou as lágrimas dela e continuou dizendo:
- Você não faz ideia de quantas vezes eu chorei de agonia em silêncio, só por pensar em ouvir você negar o meu amor. E agora você deve estar se perguntando o motivo de eu revelar isso? Eu cansei de sofrer Aiya, não quero mais ficar com esse sentimento no meu peito me ferindo. Eu me sinto um tolo, um adolescente... Mas a verdade, é que o que eu sinto por você é tão forte e especial, que eu não sei como lidar. Acho que eu nunca soube o que era amor, até te encontrar. E esse tempo todo, eu sempre achei que um dia você me daria um sinal qualquer para me declarar... Mas eu interpretei errado todos os seus sinais, pois achava que era alguma coisa e não era nada... Seu sinal que eu poderia dizer tudo o que sinto por você, nunca aconteceu. Porém aconteceu o Leandro em sua vida.

Henrique fez uma pausa e olhou firmemente para ela.
Aiya mantinha agora um semblante desolado, as lágrimas corriam livremente. Sentia uma enorme vontade de gritar e sumir, não queria ouvir mais nada de Henrique, que alheio aos sentimentos dela, continuou:
- Eu não sei o que você sente por Leandro. Mas peço, por favor, me mantenha fora disso... Pois é como pedir para beijar a mão de quem está me apunhalando. Podemos continuar amigos, sei que vai demorar esquecer tudo isso, talvez eu nunca vá superar o que sinto por você, mas se você...
- EU NÃO AMO O LEANDRO! EU O ODEIO. – Ela explodiu de repente, interrompendo Henrique.
- Mas... E ontem? Vocês não estavam...
- VOCÊ NÃO SABE DE NADA!
Ela começou a chorar de vez, e Henrique a abraçou. Estava totalmente confuso.
- Que merda... Merda... Merda. – Ela disse soluçando. – Rique... Eu amo você, e sempre vou te amar... Amo muito você, mas não da forma como você quer.
- Entendo. – Ele disse confuso. – Você me ama, mas não ama.
- Eu não posso te enganar Rique... Por favor, me entenda. Você é uma das pessoas mais especiais na minha vida. Diferente daquele porco do Leandro, jamais pense que tenho algo por ele.
- Quero entender... Mas está difícil. Então o que fazia com ele ontem?

Por: Fernando do Amaral - 09/06/2015

Parte 11 – A amargura de Aiya.

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Faltava quase duas horas para ir embora. Ela foi até a copa, e pegou um cappuccino, demorou um pouco saboreando a bebida, estava olhando o céu da tarde pela área da copa, pensava sobre o rumo da sua vida.
Ela tinha planos diferentes depois da formatura, não queria viver com o pai, o qual respeitava, e ao mesmo tempo nutria antipatia. Ela precisava arrumar outro emprego e ir morar sozinha, talvez com amigas; ou quem sabe por um golpe de sorte do destino, um namorado.
Ansiava muito por morar em outro estado, talvez no sul. Mas antes precisava garantir um trabalho fixo e moradia. Ela tinha muita admiração por Henrique, e queria espelhar-se nele, morar sozinha e cuidar de si mesma. Ser independente.
Pensando sobre a vida, ela não percebeu que Leandro tinha entrado na copa e estava a observando calado.

Ele a olhava como se ela fosse um pedaço de carne. Nutria por ela um desejo quase tangível.
Fixou os olhos para as curvas do corpo dela e sentiu um calor atingir todo o corpo, as mãos tremeram nervosas dentro do bolso, e então a visão focou com intensidades as nádegas da moça. Imediatamente a imaginou nua e teve uma ereção.
Sabia que ela tinha dito não para os avanços românticos dele, mas ele precisava dela, precisava sentir o corpo despido e quente dela em atrito com seu. E assim, não conseguindo conter se, aproximou-se dela por trás, a envolveu em um abraço e encostou o membro duro contra o corpo dela.
- Eu te desejo! – Sussurrou.

Aiya que perdida em pensamentos sobre o futuro, foi surpreendida pelo inconveniente contato físico de Leandro, e assustada desvencilhou se abruptamente do abraço, deixando o copo de cappuccino já vazio cair no chão. Assustada, o coração batia no peito, e ao ver o autor do assédio, teve vontade de gritar, porém ao mesmo tempo em que se recuperava do susto, segurou o grito para evitar maior constrangimento.
O fuzilou com os olhos e disse nervosa:
- Que diabos pensa que está fazendo? Louco!
- Não gostou? – Ele disse divertindo se.
Perdendo o controle, ela o empurrou, mas não tinha forças suficiente para fazer efeito em um homem com mais de 80kg. Ele apertou o braço dela, que cedeu em um protesto de dor.
- Está doendo! Pare com isso!
- Sabe, estou com muita vontade acumulada em mim, e você não pode me negar. Eu te amo.
- Não sinto nada por você. Solte me ou eu vou gritar.
Contrariado, ele a soltou.
Massageando o braço dolorido ela disse:
- O que está acontecendo com você? Isso é assédio!
- Aconteceu que estou apaixonado por você.
- Leandro, você é louco, já falamos sobre isso. Você é um homem casado e eu não tenho atração por você. Não pode fazer isso o que fez, é crime. Posso te denunciar sabia? – Disse com a voz tremula de raiva.
Leandro pareceu refletir, amassou o copo de cappuccino no chão e disse pausadamente:
- Admito que você me fez perder a linha, mas não espere arrependimento da minha parte. Hoje nós vamos sair e conversaremos sobre isso.
Ela o empurrou novamente, e disse com a voz alta:
- Louco! Nem sei porque estou falando com você! Tomarei providências agora. – Fez uma pausa o encarando. – Saia da minha frente! Se me tocar vou gritar.
Ele a obedeceu e deu passagem. Mas assim que ela caminhou dois passos, ele disse de forma misteriosa:
- Não tocarei em você. Claro, não sem sua permissão. Mas você pode ter certeza, vou ferir a pessoa que você mais ama caso não saia comigo hoje.
- Ameaça furada trouxa, vá em frente!
- Então prepare se para visitar Henrique novamente no hospital.
Ela empalideceu.
- Não teria coragem de fazer isso... O que Rique.... Digo, o que Henrique tem com sua loucura?
- Tem que eu sei que você ama aquele carinha.
- Não é verdade! – Ela disse virando as costas e caminhando.
- Certo! Ele sofrerá um acidente terrível essa semana. E se você abrir o bico, mato ele e mato você depois.
- Pretende ser preso? Acabar com sua vida? Matar seus amigos?
- Sem você, que vida tenho? – Ele disse aproximando se dela.
- Você não tem coragem de fazer isso com ele. – Desafiou.
Leandro já próximo a ela, riu nervosamente e desferiu um violento tapa no rosto de Aiya.
Surpreendida pela agressão e sentindo dor, tentou gritar, mas ele tapou a boca dela com a mão direita, e a espremendo contra a porta disse:
- Não me teste! Hoje você vai sair comigo tudo bem?
Assustada, ela afirmou com a cabeça.
- E agora vou soltar você. Vai gritar?
Ela balançou a cabeça e disse um não abafado.
- Boa garota! Então está tudo certo. Se algo sair dos planos, compre flores para o velório de Henrique.
Ele a soltou. Aiya queria gritar, esmurrar a cara dele e chorar, mas ao invés disso, abriu a porta da copa e correu para o banheiro.


Muito contra a vontade, ela aceitou sair com Leandro, desde que prometesse nada fazer com Henrique.
No bar Leandro não parecia ser a mesma pessoa de horas atrás. Estava com uma expressão feliz no rosto, tratava ela cordialmente e contava várias histórias, como se tudo estive bem. Assim que considerou oportuno, pediu licença e a beijou.
Ela tentou ser mais receptiva ao beijo, mas estava com vontade de vomitar.
- Acho que está muito cedo para isso né? – Ele disse forçando empatia.
- Ainda não me acostumei com a ideia. – Ela disse quase chorando.
Ele pareceu ficar ofendido e disse aborrecido:
- Entendo. Você ainda está abalada, uma pena, estava querendo despir você hoje.
Aiya fez o possível para não deixar transparecer a repulsa que estava sentido.
- Não fique preocupada. Tudo ao seu tempo.

Quando chegou em casa chorou muito, pensou em tudo o que podia fazer para fugir de Leandro, ela já não o temia, mas sentia agonia só de pensar em Henrique machucado por causa dela. Henrique era como um irmão mais velho, ela o amava profundamente.
Depois de muito chorar e pensar, decidiu que não dava para prosseguir com a loucura de Leandro, e resolveu que deveria convesar com Henrique e juntos ir à delegacia.
O plano, era garantir a segurança de Henrique antes de fazer qualquer denúncia.

...

Após ter ouvido toda a história interrompida algumas vezes pelo choro de Aiya, Henrique subiu a manga da blusa que ela usava, justamente para ocultar o roxo do apertão de Leandro.
Ficou calado olhando o hematoma no braço frágil, só agora tinha percebido como ela estava com o rosto terrivelmente desolado, parecia que tinha passado a noite acordada chorando.
- Eu não sabia. – Disse se lamentando. – Depois ficou em pé e explodiu em cólera.
- Como pode ir tão longe? Como? Vou acabar com o desgraçado.
Ela segurou os braços dele desesperada.
- Fique calmo. O plano é, irmos até a delegacia e não confrontar Leandro.
Mediante aos pedidos suplicantes, para que nada fizesse, ele mostrou calma. Mas por dentro estava em turbilhão.

- O que você acha que devo fazer? – Ele perguntou olhando para outro banco vazio.
Aiya reforçou que deveriam ir a polícia, pois achou que ele falava com ela.
Mas Henrique não prestou atenção no que Aiya dizia, no momento estava ouvindo atentamente seu amigo Tomás, que ali apareceu no exato momento em que ele tinha ficado em pé.

Ele estava no banco, como sempre usava um elegante terno. Sentado de forma ereta, olhava curiosamente para Aiya.
- Creio que a moça está correta. Você não deve confrontar o rapaz, ou se arrependerá.
- Não tenho medo do Leandro, que seja forte ou lutador, eu posso acabar com ele.
- Rique, por favor, isso não levará a nada e é perigoso para nós. – Ela disse para Henrique que olhava atentamente para Tomás, o qual somente ele podia ver.
Tomás concordou com a Aiya e disse:
- Não temo por ele, mas sim por você. Tem muito sentimento preso aí dentro, não o deixe explodir em forma de violência, pois trará consequências.
Alheia ao que se passava com Henrique, ela pegou no braço e disse:
- Vamos voltar ao trabalho, depois iremos a delegacia, assim ele receberá intimação e nós dois ficaremos seguros.
- Se eu encontrar com ele na empresa antes, não tenho certeza se vou me controlar.
- Não devia ter falado nada. – Ela disse arrependida.
- O que você não deveria ter feito é tentar me proteger. – Disse olhando severamente para ela. – Não sou indefeso.
- O problema é o meu coração, só de pensar em ver algo ruim te acontecer dói muito.
- É difícil acreditar nessa palhaçada esse tempo todo. Aquele que eu considero o meu melhor amigo, aquele que disse que eu era como irmão, me usou para te forçar. Isso é tão infantil, tão inescrupuloso, tão.... Tão imperdoável.
Ela o abraçou antes de dizer:
- Não sabemos do que outra pessoa é capaz, nem o que se passa por trás de um sorriso ou olhar.
- Sim, e esse tempo todo eu não fazia ideia. Peço desculpas por ter te julgado.
- Está mais calmo?
- Acho que sim. Além disso, se vamos à polícia, devemos ir agora.
- Tem certeza?
- É melhor, assim já resolve essa merda. E a delegacia é aqui perto.
Ela concordou, porém advertiu.
- Mas você pode ser prejudicado, já faltou tanto...
- Ao que parece, existem problemas maiores na empresa do que minha ausência. – Disse Henrique pensativo.
- Tudo bem, mas preciso pegar minha bolsa.
Henrique olhou para o banco para ver se Tomás ainda estava por ali, e então disse:
- Eu espero aqui. Quero evitar ver a cara dele.

...

Aiya entrou apressada na sala, tinha que ser rápida. E na pressa não percebeu que alguém entrou sorrateiro atrás dela. Leandro a tocou no ombro e ela virou assustada.
- Não quis almoçar comigo? Eu até liguei, mas parece que você deixou o celular na sua mesa.
- Eu precisava refletir um pouco sobre ontem. – Ela respondeu na defensiva.
Ele cruzou os braços e sorriu satisfeito.
- E chegou à conclusão que podemos ser um casal feliz?
- Acho que podemos tentar...
- Você já almoçou?
- Já sim...
Ele olhou para a bolsa no ombro dela.
- Mas parece que está saindo de novo. Vai visitar cliente?
- Prospectar é a palavra certa. – Ela disse sorrindo, tentando ser natural.
- Se eu não estivesse tão ocupado te dava uma carona. Você viu o Henrique?
- Ele saiu para almoçar. – Ela disse receosa. – E acho que ainda não voltou.
Leandro riu ironicamente.
- Vai acabar ganhando uma demissão o carinha. Uma pena, gosto dele, hoje mesmo queria conversar com ele. Esclarecer as coisas, falar sobre nós.

Ela tinha aguentado a presença insuportável de Leandro, tinha aguentado mentir e sorrir para ele quando na verdade tinha vontade de gritar. Mas diante as últimas palavras, perdeu o controle. Desferiu um tapa no rosto dele e o xingou.
- FALSO NOJENTO.
Virou as costas e correu para fora da sala, para que assim ficasse visível para outros funcionários e ele não tivesse a chance de toca lá.
Surpreendido ele a deixou escapar pela porta, mas conferiu no mesmo momento a chave do carro no bolso. Precisava ir atrás dela, certamente ela ia para a delegacia.

Esperou ela atravessar a rua, acelerou o carro e parou ao lado dela ordenando.
- Entre ou juro que dou um jeito de atropelar seu menininho.
- Está louco cara? – Gritou um motorista que foi fechado por ele.
- Não se meta otário. – Respondeu Leandro irritado.
- Moça você precisa de ajuda? Conhece esse imbecil?
Ela pensou em pedir socorro, mas leu nos lábios de Leandro o nome Henrique.
Não teve escolha. Negou para o outro motorista que precisava de ajuda, sorriu e disse que era o namorado. Podia pedir ajuda, podia escapar de Leandro, podia processá-lo e livrar se dele para o resto da vida. Mas se enquanto ela estivesse fazendo boletim de ocorrência ele fizesse algo com Henrique? Ele podia ser preso, mas de que adianta se fosse preso por algo ruim cometido contra Henrique? Ela ia correr o risco. Resignada entrou no carro.
- Vá se danar filho da puta. – Ele gritou para o motorista que ainda estava reclamando.
Lançou um olhar furioso para ela.
- Nem minha mulher faz o que acaba de fazer. O que deu em você? Está louca? Esqueceu do que eu te disse? É o que pretendia? Não pensava você ir à delegacia, certo?
- Por que está fazendo isso? Você tem ideia de quantos crimes já cometeu por causa dessa merda? – Ela o encarou com os olhos marejados. – Não entende que eu não quero ficar com você! Não entende que você não tem o direito de prejudicar Henrique por causa...
Ela foi interrompida por um tapa na boca, que imediatamente a calou e fez sentir o gosto de sangue.
- Isso é por ter feito o que fez, e também para que entenda que eu te amo.
- O que vai fazer agora? Ela perguntou chorando.
- Vou te levar para sua casa, e ficará lá até eu sair do trabalho e ir te encontrar para conversarmos.
- Mas eu preciso trabalhar! – Protestou limpando o sangue da boca.
- Direi que você estava passando mal e te levei para casa. – Aparentemente arrependido, acariciou o pescoço dela e continuou. – Por que fez isso? Você sabe que eu te amo e vou cuidar muito bem de você...
- Mas você é casado.
- Por pouco tempo.
Ela pensou e disse:
- Você insiste que isso dará certo. Mas não serei sua escrava sexual.
- E não é isso que eu quero. Sou apaixonado por você.
- MAS EU NÃO SOU! – Ela gritou. – COMO É POSSÍVEL ACHAR QUE PODE OBRIGAR MEUS SENTIMENTOS?
Ele levantou a mão, insinuando que ia repetir o tapa, e então ela ficou em silêncio chorando.
- Você também me ama Aiya. Só que ainda não sabe, logo você saberá.
Aiya ficou por um tempo sem nada dizer, chorava somente, e quando estava na rua da casa dela, parou de chorar e disse:
- Você está me pressionando usando o Henrique. Mas acha que isso vai durar para sempre? E sinceramente, acho que ele pode se defender.
- Hoje vou testar isso.
Ela ficou pálida.
- O que vai fazer?
- Seu comportamento foi muito feio hoje, por isso mostrarei que não estou brincando.
- Por favor! Não faça nada com ele. Ele não tem culpa de nada! – Implorou.
- Desça do carro e vá para sua casa. Venho te ver depois.
- Você vai fazer o que com ele?
- Se prometer não me causar mais problemas, talvez eu reconsidere. – Ele disse impaciente. – Agora desça de uma vez, tenho que voltar a trabalhar.
- Eu prometo... – Ela disse chorando. – Mas por favor, não o machuque. Não farei isso novamente.

Ela fechou a porta do carro, e Leandro acelerou. Aiya ficou apreensiva observando ele partir. Precisava ligar urgente para Henrique e avisar sobre o ocorrido.

Por: Fernando do Amaral - 10/09/2015

Parte 12 – Dignidade.

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- Ela deveria ter voltado. – Afirmou Henrique procurando o celular.
- Ao que parece ela teve algum contratempo. – Respondeu Tómas ajeitando a roupa.
Ele pegou o celular e ficou surpreendido com as ligações perdidas. Enquanto conversava com Tomás, não tinha percebido o celular tocar. Ligou para ela.
- Você está bem Rique? – Perguntou aflita. – Por que não atendeu antes?
- Não vi tocar, desculpe estava perdido em pensamentos.
- Estava com medo que algo ruim tivesse acontecido...
- Desistiu de prestar queixas? – Ele perguntou interrompendo.
- Não é isso, estou em casa. Ele descobriu minha intenção e me trouxe aqui, fez várias ameaças. O Leandro está completamente enlouquecido Rique.
- E onde ele está agora?
- Voltou ao trabalho, disse que é para eu esperar por ele aqui.
- Saia já daí Aiya! Vamos para minha casa.
- Não entendi... – Ela respondeu confusa. – Isso só vai piorar nossa situação.
Henrique fez uma pausa para explicar, trocou o celular de lado, olhou para Tomás que parecia indiferente com a situação.
- Uma armadilha. Ao invés do boletim de ocorrência, podemos fazer uma denúncia e a polícia vai o flagrar lá em casa atrás de você.
- Não! Isso não é seguro. – Ela respondeu receosa.
- É sim, acredite em mim. Conheço uma policial, tenho o número direto dela.
- Mas é crime forjar uma situação.
- No momento não temos outra alternativa. – Ele disse mostrando irritação na voz. – Se eu voltar para o trabalho ele poderá fazer algo contra mim. Se eu não voltar ele pode deduzir que fui até a delegacia e cometer alguma loucura contra você.
- Entendi... – Disse Aiya refletindo. – Então estou indo até lá. Você vai demorar?

Henrique a tranquilizou, dizendo que não planejava voltar para o trabalho e que estava indo para casa no mesmo instante. Ele desligou o telefone, em partes tinha dito a verdade. Realmente tinha o número de uma policial para ligar, mas o plano era outro. Sentia se humilhado e diminuído diante da situação. Pretendia levar Aiya para sua casa e então convidar Leandro. E assim confronta-lo na frente de Aiya, não tinha certeza se podia com ele, no entanto a raiva era determinante maior que a prudência. Tomás ainda o advertiu para não fazer besteira.
- Cabeça quente assim, não resolverá nada.
- Amigo, você sempre me dá bons conselhos, porém um homem precisa seguir seu próprio caminho nem que para isso ignore opiniões para o seu próprio bem.
- Tirou isso de algum seriado ou livro?
- Não. – Disse Henrique pensativo. – Acho que é minha consciência tentando recuperar a dignidade.
- Tome cuidado amigo.
- Até breve Tomás. – Ele disse despedindo se de Tomás, caminhou com passos firmes e decidido. Sorriu um pouco ao perceber que teria problemas na empresa por não voltar do almoço.
“Se eu for demitido será bom, depois de resolver isso, acho que não quero nunca mais ver a cara de ambos. ” – Ele concluiu em pensamento.
Leandro estava furioso, tinha passado parte do dia procurando Henrique. Ligou várias vezes, mas ele não atendia. Não queria confronto, mas sim esclarecer as coisas e preservar a amizade sem intrigas. Porém ele tinha sumido e ficava o receio de ele ter procurado a polícia precipitadamente caso a Aiya tivesse exagerado.
Ligou para Aiya diversas vezes e ela também não atendeu.

Fazia alguns minutos que tinha saído da empresa e dirigia para a casa de Aiya, segurava a direção com força.
“Vou ter que justificar minha saída com algum problema em algum fornecedor”
- Droga! – Ele disse em voz alta.
O telefone tocou, era Henrique.
- E aí carinha. Sumiu da empresa, o que aconteceu com você?
- Tive problemas, estou em casa. Você pode vir aqui?
- Não posso! Preciso resolver uma coisa.
- Uma coisa do tipo a Aiya?
- O que você sabe sobre isso? – Perguntou preocupado. – Queria conversar com você sobre ela, e não quis me ouvir...
- Podemos falar agora, venha aqui.
- Não posso carinha, vou me encontrar com ela, lembra do que te falei na praia? Acho que eu e ela vamos ficar juntos.
- Eu lembro, e insisto que venha aqui, pois ela está comigo.
Leandro apertou o volante com tanta força, que os nós dos dedos perderam a cor.
- Que palhaçada você está querendo aprontar carinha? Uma sessão terapia?
- Acredito que se nós três conversamos, tudo ficará resolvido. Além disso, não quero fazer parte disso.
- Tudo bem. – Respondeu Leandro desligando.
“Será fácil, primeiro faço cara de bom moço, digo que vou deixar Aiya em paz. ” – Pensou Leandro. – “E depois que eu der um jeito de demitir Henrique, eu tento conquista-la novamente. ”
Ele parou o carro no sinal vermelho, ao lado de uma viatura.
“A prioridade agora é evitar problemas. ”

Sentada no sofá, Aiya estava apreensiva. Olhava os objetos do cômodo, e exceto a máscara decorativa no corredor, não prestava atenção em nada.
Henrique retornou da cozinha trazendo suco e um lanche para ela.
- Obrigada...
Ele sentou ao lado dela, ligou a televisão e deixou no volume baixo.
- Aquela máscara tem algum significado? – Ela perguntou apontando para a máscara.
- Você acha que ela destoa do ambiente? – Ele levantou novamente, foi até o corredor e trouxe a máscara para ela ver de perto.
- É pesada. – Ela disse segurando o objeto. – Não acho que destoa, mas ela é estranha, dá uma sensação que é maligna. Eu não dormiria com essa coisa.
Ela colocou a máscara do lado e voltou a comer o lanche.
Henrique percebeu que ela ainda estava apreensiva, e de alguma forma a máscara pareceu ter feito ela ficar mais ansiosa.
- Você precisa ficar calma, tudo vai acabar bem.
- Tenho medo, ele está agindo como um louco.
- Vamos conversar com ele e colocar fim nisto tudo.
Ela deu uma mordida no lanche.
- Acho que vou pedir demissão, vou mudar de cidade também.
Ele admirou o jeito que ela comia o lanche delicadamente, tão frágil e bonita, e estavam a sós em sua casa. Embora toda a situação fosse desfavorável, ele não podia negar para si mesmo o quanto era apaixonado por ela.
- Você terá tempo para pensar nisto... – Ele disse mudando o canal, como para distrair. – Talvez você considere voltar para sua tribo oriental.
Ela riu um pouco, limpou a boca e pareceu relaxar.
- Você sempre me faz rir... – Ela assumiu um tom mais triste na voz. – Aliás eu sinto muito sobre tudo isso.
Henrique nada disse, mas mostrou interesse em continuar ouvindo.
- Preciso que você saiba que eu não fazia ideia sobre seus sentimentos... E agora depois disso tudo que aconteceu com o Leandro, eu me sinto culpada em te magoar. Amo muito você, talvez se não fosse toda essa coisa desagradável poderíamos até ficarmos juntos.
- Você disse que me ama como amigo.
Ela pensou um pouco antes de responder.
- Talvez esse seja meu jeito de começar a amar alguém. No entanto, a circunstância foi desfavorável...
- Eu entendo você, e prefiro que sua explicação não seja meu prêmio de consolação. Quando é para duas pessoas ficarem juntas as coisas acontecem. Eu e você foi um engano meu. Não quero seu sentimento de culpa.
- Você é bem sensato, se seu amigo fosse assim não teríamos esse problema. Mas não afirme coisas que você se enganou comigo. Não vejo nenhuma impossibilidade de um romance entre a gente. Alguns casos de amor nascem da amizade.
- Ou talvez agora seja você quem está se enganando...

Henrique parou de falar quando o interfone tocou.
- Opa parece que é hora de lavar roupa suja.
- E a policial você já vai ligar para ela? – Ela perguntou em pé e assustada.
- Sim. Eu vou! – Disse Henrique caminhando decidido para a porta.
“Ainda bem que Tomás não está aqui, chegou a hora de recuperar minha dignidade. ”
Leandro estava segurando a raiva, queria entender o que Aiya estava fazendo com Henrique, tinha vontade de dar uns tapas nela, mas não podia fazer isso na frente de Henrique.
“Aliás o que porra Henrique pensa que está fazendo? ”
- Olá carinha. – Ele disse segurando o nervosismo quando Henrique abriu a porta.
Henrique apertou a mão dele e o convidou para entrar.
Leandro caminhou para dentro enquanto Henrique fechava a porta.
- Sua casa é aconchegante carinha, poderíamos fazer um social aqui de vez em quando... Não é Aiya? – Ele disse fulminando a moça pálida de medo no sofá.
- Podemos marcar sim Leandro. – Disse Henrique por trás dele. – Mas antes que tal explicar esse negócio de ameaçar seu melhor amigo para poder abusar da Aiya?
Aiya quase desmaiou, esse confronto direto não era o combinado. Aquela conversa tinha que parar ali ou coisas ruins poderiam acontecer.
Leandro encarou Henrique, não mostrava surpresa e sim raiva.
- Peço amigo que você não se meta nisso, ela mentiu para você, eu nunca ameacei ninguém.
- Você tem a cara de pau de dizer isso na frente dela? Como você é desprezível, o que diabos você acha que é? O que você achou que eu ia fazer quando ficasse sabendo disso?
- Pare Henrique! – Gritou Aiya quase chorando... – Eu enganei você.
- Não vê o que essa mentirosa acabou de confessar? Pare de bancar o protetor de vagabunda.
O soco foi seco e acertou Leandro desprevenido que enquanto falava olhava para a oprimida Aiya. Pego de surpresa abriu a guarda e levou um chute na barriga, cambaleou para cima da cadeira, ouvia Aiya chorar, e imaginou se ela ia chorar quando ele arrancasse a roupa dela. Apoiou a mão na parede e recuperou se do ataque, Henrique partiu para cima tentando acertar alguns golpes atrapalhados. Foi fácil para Leandro mobilizar Henrique e colocá-lo no chão.
- Acabou a brincadeira carinha, você me agrediu, se prometer ficar quieto eu prometo que não vou te quebrar.
Henrique tentava escapar, mas quanto mais se mexia mais dor sentia.
- Eu vou te matar! – Disse Henrique com raiva sentido o braço quase sair do lugar.
- O que deu na sua cabeça louco? Você sabe que não tem a menor chance comigo, eu luto jiu jitsu esqueceu? Quer me matar, então engesse esse braço antes.
Dizendo isso Leandro quebrou o braço de Henrique. A dor era pior do que imaginava, sentindo se ainda mais humilhado, ele segurava o braço quebrado.
Aiya que tinha presenciado toda a cena correu para junto de Henrique, ela estava segurando a máscara como se fosse um escudo. Leandro a segurou pelo braço.
- Você não é enfermeira docinho, fique aqui comigo ou eu quebro outro braço dele.
Tomada pelo desespero e adrenalina, ela desferiu um golpe no rosto de Leandro com a máscara.
- Vadia! Você quebrou o meu nariz ele disse segurando o sangue do nariz.
Ela deixou a máscara cair e correu para socorrer Henrique, porém Leandro a puxou pelo cabelo.
- Precisava dessa merda toda? – Ele disse antes de esbofetear Aiya.
Ela caiu no chão indefesa, e ele parecia que ia continuar a agredir ela ali mesmo.

Ele olhava para a cena se sentindo um inútil, Tomás estava de braços cruzados encostado na parede encarando Henrique.
- Você entende agora o inconveniente que causou por não me ouvir? – Perguntou Tomás para Henrique. – E agora? O que pretende fazer? Ficar aí sentado impotente enquanto a pessoa que você ama apanha?
- Não me impeça. Disse Henrique levantando se com dor.
- Impedir de que? Você não pode fazer mais nada.
Henrique caminhou até Leandro, cada passo sentia o braço doer mais. Com esforço, ele pegou a máscara de ferro no chão. Aproximou por trás de Leandro que não percebeu porque estava ameaçando estapear Aiya enquanto a insultava. Tomou impulso e desferiu um potente golpe na cabeça de Leandro, que pego mais uma vez de surpresa cambaleou perto de Aiya.
Henrique aproveitou que ele estava tonto no chão e começou a desferir chutes na cabeça.
Leandro desmaiou no segundo chute que levou na cabeça e provavelmente não sentiu os outros.
Henrique ficou de joelho sobre o peito de Leandro e começou a golpeá-lo furiosamente com a máscara de ferro.
- Você pode ter jiu jitsu, mas eu tenho ódio.
Disse por dizer, pois Leandro já não estava mais respirando. A máscara de ferro ficou cheia de sangue e não era possível reconhecer o rosto estraçalhado de Leandro.
Aiya não aguentou ver a cena, entrou em pânico enquanto Henrique atacava Leandro, e em seguida desmaiou ao ver a quantidade de sangue que escorria da cabeça da vítima.
Henrique respirava acelerado, largou a máscara no chão, não sabia se corria para Aiya ou ficava olhando o corpo de Leandro.
Sem saber o que fazer, chamou por Tomás, mas ele não apareceu.
“O que faço agora? ”
Colocou a mão na cabeça, o desespero em não saber o que fazer começava a tomar conta. Passava em sua cabeça todos os problemas que teria a partir daquele momento. Por alguns segundos até esqueceu que estava com o braço quebrado.
“Como vou encarar meus pais? Matei uma pessoa. O que faço agora? ”
Perdido e sem saber o que fazer, ligou para Fire.
“Será que falo para ela o que aconteceu? O que falo para ela? Por que estou ligando para ela?”
- Oi você me ligando?
- Fire... – Disse Henrique com voz trêmula.
- O que aconteceu? – Ela perguntou preocupada.
- Uma merda aconteceu.... Você pode falar comigo?
- Sim venha aqui para o bar...
- Eu não posso sair agora Fire, será você pode vir aqui?
- Mas eu não sei onde você mora, além disso estou trabalhando... O que te aconteceu?
- Fire... O Leandro atacou a Aiya ela está aqui comigo. – Ele disse sem saber o que dizer.
- Como assim atacou? Agrediu ela?
- É... – Ele confirmou indeciso.
- Ligue para a polícia. Quer que eu ligue?
Por um momento Henrique associou a palavra polícia com o corpo dentro de sua casa, e tentou ficar mais calmo.
- Não.... Eu ligo é que eu estava desesperado, falar com você me acalmou, pode deixar que eu ligo.
- Mas o que aconteceu exatamente? – Perguntou Fire preocupada. – Você parece que está fora de si. Ela está com você?
- Eu ligo para você depois, desculpe. – Ele disse antes de desligar.

Ele não tinha outra saída, tinha que ligar para a polícia e comunicar todo o ocorrido. Provavelmente o depoimento de Aiya poderia ser um argumento para provar inocência. E o caso todo seria apontado como legitima defesa.
Sentindo o braço doer, e olhando para Aiya desmaiada procurou o telefone da policial Giane.

Por: Fernando do Amaral - 29/12/2016