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E tal que fedia.


Atrasado para chegar ao trabalho, corri atropelando algumas pessoas que caminhavam tranquilamente, provavelmente aquelas que acordam no horário, tomam um café bem nutritivo e estão pouco se lixando com os pi pi pi que o trem emite antes de fechar a porta.

Mas eu não sou assim, coloquei uma perna dentro do trem exatamente quando a porta estava fechando. Normalmente todo mundo olha com a cara feia para quem faz isso. Aquela cara de quem diz "filho da puta o mundo inteiro parou por sua causa."

Porém dessa vez ninguém me lançou nenhum olhar, e assim que a porta fechou, eu fiquei encarando todo mundo, esperando a velha cara de quem diz filho da puta.
Fiquei carente do xingamento facial e confuso, pensei que estava sonhando.

Se eu não estava sonhando, então tinha algo estranho, existia um espaço enorme no vagão onde eu estava, as pessoas estavam todas amontoadas no corredor, longe da porta... E algumas mulheres estavam tapando o nariz, o restante fazia aquela cara de nojo. Não estava entendendo, até minas narinas serem atingidas por um soco do capitão fedido.

Meu Deus, o que era aquilo? Um fedor azedo bem desgraçado. Não era chulé ou futum. Mas sim a mistura dos dois, combinado com um cadáver cheio de salgadinho sabor queijo no bolso.

Por falar nisso, deveria existir uma placa: Proibido comer Cheetos aqui! Igual de fumar. Porque essa porra de salgadinho fede muito em lugares fechados.
Mas enfim, o autor de tamanho gás do satanás, era um homem encostado na porta. E ele estava tranquilo ali junto com seu fedor fedorento fedendo tudo.
E era impressionante a indiferença do homem fétido. Estava tranquilo lendo a coluna esportiva do jornal, e o mau cheiro era tamanho que tive a impressão que as pessoas das fotos no jornal, estavam tapando o nariz.

Ninguém é claro teve a presença de espírito de falar com o tal homem, até mesmo porque, considerando a situação, o que ele poderia fazer? Usar o extintor como desodorante? Pular da janela?

Melhor deixar o fedor entretido na leitura, vai que se mexer fede mais.
E se eu não estivesse na cena, até que seria engraçado ver pessoas se espremendo no corredor, as mulheres tapando o nariz e fazendo cara de "vou vomitar"

Os homens sendo machões para cima do cheiro e fazendo de conta que não tinha nada fedendo...
Mas eu estava ali também, sentindo aquele azedo arder no meu nariz e convertendo minha respiração em um sacrifício.

E então, eis que o maquinista livre da câmera de gás, anuncia que o trem está em velocidade reduzida... E o fato, é que se o puto não tivesse avisado, ninguém ia perceber, mas bastou o aviso para que a próxima estação ficasse de repente tão, mas tão distante.

Foi aí que os protestos iniciaram, sinceramente não sei o que a coitada da mãe do maquinista tinha com a história...
Foi no meio de tantos dizeres, que um indivíduo resolveu testar a teoria de que se mexer na merda ela fede mais:

- Vai te catar senhor, não toma banho não!
Ai já sabe o resto né? Basta um gritar que todo mundo quer aproveitar e falar também.

- O senhor é um imundo!
- Não tem chuveiro em casa?
- Sai do trem fedido.
- Vai se fudê carniça.
- Porco!
- Pessoal respeitem ele.
- Vai se lavar filho da puta.
- É um ser humano! Parem com isso!
- Nojento!!!
E foi ofensa e algumas vozinhas de proteção ao senhor fedo.

Eis que então o senhor fedido abraçou o jornal com medo e começou a dizer triste:
- Eu não tomo banho porque já faz tempo que não chove. Pulei a catraca para pedir dinheiro e poder pelo menos tomar água hoje.

Faltou aquela música triste do Chaves, mas mesmo assim os narizes ficaram sensibilizados com a história do fedor humano.
Porém tudo deveria acabar aí. Só que então a voz triste do homem transformou se em voz desafiadora dizendo:
- Posso muito bem seguir viagem com os senhores até o terminal, mas se na próxima estação eu tiver uns 100 reais, juro que desembarco na próxima...
Foi sem dúvida o pedinte que mais arrecadou dinheiro em questão de 5 minutos.

Por: Fernando do Amaral - 20/09/2015 Google+

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