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A carta do suicídio iminente.


Meu tormento foi quando te vi.
Se bastasse a você uma declaração,
eu confesso, acautelado te amei.
E resumo assim uma redação,
que te fiz, mas não comecei.
Sem mais para o momento, morri.

Era tanto medo de me encontrar
sem saber, que não existem meios para se perder.
Corri tanto me procurando em algum lugar,
mas tudo que via eram espelhos.
Aqueles reflexos não eram minhas olheiras,
tão pouco meu sorriso disperso.

De noite os sentidos ficavam confusos,
mas então percebia que eu não era eu,
os outros não eram os outros.
Anos antigos estampados em rostos tristes,
novidades desesperadas, para provar a felicidade.

Tudo ficava tão claro com mais um pouco de escuro,
ninguém ali estava pronto para ouvir,
ninguém estava preparado a ponto de sentir.
Então vaguei por aí me conhecendo em outros,
me encontrando cada vez menos.
O quanto era suficiente para me conhecer?

Um estranho qualquer me empurrou com respostas,
mas elas me faziam desejar um pouco de morte.
Como se a morte pudesse ser servida em um cálice,
depois de um banquete frio e insosso.

Tive medo das respostas, mas continuei as questões.
E o estranho parecia um anjo solitário,
que saindo da dor, trazia um pouco de bálsamo
para aqueles que pensam sofrer.

Me calei, mas nenhum silêncio fez,
o desconhecido que vi, não podia ser ignorado.
Tinha que ser ouvido, tinha que ser novidade,
tal como um clássico imortal que mata o contemporâneo.
Mas minhas palavras não produziam claridade,
e tudo o que consegui foi um murmúrio.

O anjo possuiu minha alma, cai no asfalto negro,
as luzes dos postes ficaram intensas,
a garrafa com meu whiskey lavou o sangue.

E então, lembrei-me de você,
uma imagem de luz, tal como minha penitência.
Nenhum mal tinha te feito, mas causei a mim ...

Minha estimada, grandes verdades trago nesta carta.

Escrito: 14/11/2012 Por: Fernando do Amaral - Publicado: 01/05/2014 Google+

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